Por Álvaro Campos e Larissa Garcia, Valor — São Paulo e Brasília
29/03/2023 13h28 Atualizado há 17 minutos
A nota de crédito de fevereiro, divulgada nesta manhã pelo Banco Central, certamente acende um sinal de alerta ainda mais brilhante. Abrindo os dados, o cenário pode nem ser tão ruim quanto parece, e já era amplamente esperado, dado o contexto de juros altos e o debacle da Americanas, que assustou o mercado bancário em janeiro. Ainda assim, não deixa de ser um prato cheio para o governo e outros setores produtivos que já vinham pedindo por uma redução nos juros.
O estoque de crédito no sistema financeiro caiu 0,1% em fevereiro ante janeiro. No mês anterior, já havia registrado uma queda, na margem, de 0,8%. Duas quedas seguidas nesse indicador não são normais. A variação em 12 meses, que chegou ao pico de quase 17% em meados do ano passado, vem desacelerando mês a mês e agora está em 12,6%. A previsão do mercado para este ano é que o crédito cresça pouco acima de 8%, então uma desaceleração já era esperada.
Talvez o que tenha chamado mais atenção seja a queda de 9,5% nas concessões – o crédito novo sendo liberado pelos bancos. Ela se segue a uma redução de 15,6% em janeiro. Esse indicador é bem mais volátil e afetado por questões sazonais, inclusive pelo número de dias úteis no mês. Ainda assim, dessazonalizado, a baixa foi de 2,2%.
Mas o que explica essa queda? Para as pessoas físicas, houve alta mensal de 0,8% nas concessões dessazonalizadas, enquanto para as pessoas jurídicas foi registrada queda de 4,4%. No crédito livre total, as concessões caíram 1,8%. No crédito direcionado, recuaram também 1,8%.
O chefe do departamento de estatísticas do Banco Central (BC), Fernando Rocha, afirmou há pouco que a modalidade de desconto de duplicatas para pessoas jurídicas apresentou queda no estoque de 7,7% em fevereiro, mas retirando a sazonalidade “seria esperado” estabilidade ou ligeiro aumento. “Houve uma queda de 5,9% no estoque de antecipação de fatura de cartão, contrariando o que se esperaria em termos sazonais. Última vez que houve queda em fevereiro ante janeiro foi em 2016”, ressaltou em entrevista coletiva para apresentação das estatísticas mensais de crédito.
No entendimento de Rocha, a crise da varejista Americanas teve efeito “pontual” no crédito e parece não haver risco de contaminação ou espraiamento. “O efeito se concentra nas linhas em que a Americanas tinha mais atuação, que é o risco sacado”, ressaltou. Essas modalidades são ligadas a descontos de duplicatas e antecipação de recebíveis, que tiveram queda acima do padrão histórico em fevereiro.
“Não dá para cravar especificamente que é por causa da Americanas [o comportamento dessas modalidades em fevereiro], porque está em contexto de desaceleração do crédito como um todo. Tem um impacto pontual, mas não dá para dizer que a queda neste mês foi devido a isso”, disse. “O crédito como um todo está em tendência de desaceleração, essas modalidades tiveram desempenho um pouco pior do que a média, mas os números não mostram nada além disso”, reforçou.
Se os dados de janeiro ainda não haviam captado o impacto integral de Americanas (o escândalo contábil foi anunciado na noite de 11 de janeiro), em fevereiro já se pode cravar com uma boa dose de certeza que o caso teve efeito sim. Anedoticamente, muitas empresas já vinham relatando dificuldade de acessar o risco sacado, embora oficialmente os grandes bancos digam que continuam operando a linha — de forma mais cautelosa, é claro.
O que não está refletido nos dados de crédito de fevereiro é a quebra do Silicon Valley Bank (SVB) e os problemas do Credit Suisse, que atingiram o mercado este mês. Ainda que as autoridades americanas e europeias tenham atuado rapidamente para conter os efeitos de contágio, ao menos um efeito momentâneo causado pelas incertezas deve ser detectado pelos indicadores. Há ainda a pausa que os bancos fizeram na oferta de crédito aos beneficiários do INSS após o governo ter reduzido os juros na marra.
Nesse contexto todo, havia uma enorme pressão sobre o BC para pelo menos indicar na ata da reunião do Copom da semana passada que, se houvesse um avanço no novo arcabouço fiscal, um ciclo de afrouxamento monetário poderia estar no horizonte. Essa indicação não veio, frustrando as expectativas de boa parte dos analistas, que esperavam ver uma luz no fim do túnel, mesmo que fosse cheia de “senões”.
Um trecho novo na ata do Copom, que surpreendeu, foi a menção ao crédito. “Por fim, o Comitê reforçou que a harmonia entre as políticas monetária e fiscal reduz distorções, diminui a incerteza, facilita o processo de desinflação e fomenta o pleno emprego ao longo do tempo. Nesse aspecto, o Comitê reforça a importância de que a concessão de crédito, público e privado, se mantenha com taxas competitivas e sensíveis à taxa básica de juros.” Olhando em retrospecto, pode-se especular se a autoridade monetária está vendo uma deterioração no crédito que ainda não está inteiramente precificada.
Além da pressão por uma queda de juros, a nota de crédito deve fazer crescer também o coro por novas edições de programas federais para estimular o crédito, como Pronampe, FGI-Peac ou mesmo a oferta pelo BC de linhas de liquidez para os bancos. De novo, não há nenhum sinal, nos dados públicos, de falta de liquidez no sistema bancário. Mas a tendência, seguramente, não é positiva. O contexto também pode acelerar outros anúncios nos quais o governo vem trabalhando, como o programa de renegociação de dívida Desenrola e uma possível linha para pequenos e médios fornecedores afetados pelo caso Americanas, que estava sendo discutida no âmbito do grupo de trabalho criado pelo Ministério da Fazendo e os bancos.
O próprio governo, que há algumas semanas levantou o temor com uma crise de crédito, tem agora nas mãos a faca e o queijo para reforçar a narrativa contra o BC. Se a autoridade monetária ceder, o Executivo pode ter a esperança de que o afrouxamento monetário ainda estimule um pouco a atividade este ano. Se não der o braço a torcer, a administração Lula tem um bode expiatório perfeito para culpar pela decepção com o PIB.
Fonte: Valor Econômico

