Por Alex Ribeiro, Valor — São Paulo
22/05/2023 13h34 Atualizado há 20 horas
Apesar de fugir da pergunta direta sobre quando os juros podem começar a cair, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, apresentou um cenário sem um horizonte definido para um possível início do ciclo de afrouxamento monetário.
Em um evento promovido nesta manhã pela “Folha de S.Paulo”, Campos Neto atualizou o cenário da chamada função reação do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, ou seja, o conjunto de dados que o colegiado olha com mais atenção para decidir por uma eventual baixa de juros.
São eles: os núcleos de inflação, a inflação de serviços, a capacidade ociosa da economia, as projeções de inflação, as expectativas de inflação do mercado e o balanço de riscos para a inflação, nele incluída a evolução da política fiscal do governo Lula.
Uma parte desses componentes, no jargão dos banqueiros centrais, é “backward looking”, ou seja, olha para trás para ver se a alta de juros feita entre 2021 e 2022 está tendo os efeitos esperados para esfriar a economia e baixar a inflação. Aparentemente, não.
Segundo ele, a inflação tem desacelerado, mas a médias dos núcleos de inflação está em 7,3%. “Este é um número bastante alto, muito acima da meta”, disse. “No último número que saiu, do mês passado, os componentes de núcleo mudaram muito pouco, inclusive alguns até aceleraram. Então a gente precisa observar isso com calma.”
Campos Neto comentou, em particular, a situação da inflação dos serviços. “Tem um tema do núcleo de serviços que preocupa, porque tem essa pressão, ou seja, essa resiliência”, afirmou. Ele disse que uma parte da pressão vem da demanda por serviços e outra parte do mercado de trabalho, que tem se mostrado mais forte que o esperado.
Sobre a atividade econômica e ociosidade de fatores de produção, o presidente do BC disse que há um “descolamento do setor de serviços”, que está “crescendo bastante”. O mercado de trabalho, acrescentou, está bastante forte. Campos Neto relatou que, numa conversa com um empresário no fim de semana, tomou conhecimento de falta de mão de obra em “setores específicos” em alguns lugares do Brasil.
Campos Neto indicou que o crescimento está mais forte do que o Banco Central esperava e que poderia haver uma reestimativa da taxa prevista de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2023, dos atuais 1,2% para cerca de 1,5%.
“A gente entende que esse processo de revisão de crescimento para cima tende a continuar um pouco no curto prazo”, afirmou. “Pelos números que eu vejo, a gente acha que deve se estabilizar em alguma coisa perto de 1,5%. Pode ser um pouquinho mais, um pouquinho menos.”
Sobre o nível de ociosidade da economia, ele voltou a pontuar que a taxa de desemprego, embora tenha aumentado um pouco ultimamente, está em valor inferior ao vigente antes da pandemia. “A gente está bem perto do mínimo recente”, disse. “A gente voltou para aquele nível em que a gente tinha uma inflação forte vindo da parte de serviços.”
A outra parte da função de reação do BC é mais “forward looking”, ou seja, tenta prever como a inflação vai se comportar daqui por diante. Nessa parte, também não há nada que possa indicar quando os juros podem cair. Na reunião de maio, o Copom divulgou projeções que mostravam que, para a inflação ir para meta, o juro teria que ficar parado nos atuais 13,75% por um período de tempo indeterminado.
Sobre as expectativas do mercado, Campos Neto reconheceu que, nos dados divulgados hoje, a projeção dos analistas econômicos para a inflação deste ano caiu de 6,03% para 5,8%. Mas ponderou que isso se devia à redução dos preços de combustíveis. Para períodos mais longos, a projeção mediana está estável em 4%, acima da meta, de 3%.
Ele não deu nenhuma ideia sobre como anda a projeção de inflação do Banco Central. Mas discutiu um pouco o andamento do arcabouço fiscal, um dos temas destacados no balanço de riscos para a inflação. Ele pontuou que havia os “debates na mídia” sobre a tramitação do projeto na Câmara.
“O mercado tem uma preocupação com o aumento de gastos, despesas, em termos reais”, disse Campos Neto. O Copom tem destacado que, nesse tema fiscal, o que importa, para a execução da política monetária, é como a proposta do governo vai afetar as expectativas de inflação e os preços de ativos, como o dólar.
O presidente do Banco Central fez um resumo desses principais pontos numa tabela que compara as condições atuais com aquelas vigentes nos últimos três ciclos de afrouxamento monetário. Ele ponderou que ela não representa nenhum gabarito para as decisões do Copom, mas os números resumem bem as dificuldades para baixar a Selic.
O desvio das expectativas de inflação em relação à meta estão bem maiores do que nos ciclos passados. A inflação implícita do mercado para um prazo de cinco anos, por exemplo, está 2,8 pontos percentuais maior que a meta, enquanto que na baixa de juros de 2016 estava 0,7 ponto maior.
Os núcleos de inflação rodam 3,2 pontos acima da meta, enquanto que em 2016 estavam também 0,7 ponto maiores que o objetivo. O crescimento de vagas formais de emprego, que chega a 1,9 milhão em 12 meses, é o maior, na comparação com os três ciclos de baixa anteriores.
Fonte: Valor Econômico

