Não é correta a leitura de que os mercados financeiros estão ignorando por completo as ameaças que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem fazendo ao banco central. Ainda que os movimentos de mercado não sejam catastróficos, por ora, há evidências de que os investidores vêm exigindo maiores retornos para carregar os juros americanos, segundo o senior fellow da Brookings Institution, Robin Brooks.
“Há sinais claros de que os prêmios de risco estão começando a aumentar na parte longa da curva de rendimentos dos Treasuries”, afirma o profissional, que já foi economista-chefe do Instituto Internacional de Finanças (IIF) e estrategista-chefe de câmbio do Goldman Sachs.
Para Brooks, a expectativa de um afrouxamento monetário adiante está pressionando para baixo as taxas de 2 anos nos Estados Unidos, o que também acaba “contaminando” os juros com prazo para 10 anos.
“Mas, ao remover esse efeito de curto prazo, o rendimento futuro de 10 anos [medido pelo “10yr/10yr” — a expectativa de juros de 10 anos daqui a 10 anos] tem subido constantemente desde que Trump assumiu o cargo e está próximo de seu nível mais alto nos últimos 20 anos. Os prêmios de risco estão aumentando na extremidade mais longa da curva de juros”, enfatiza.
O profissional também afirma que um sinal semelhante pode ser extraído ao se monitorar a mesma métrica para a expectativa de inflação de 10 anos [10yr/10yr] implícita no mercado.
“Essa medida tende a acompanhar de perto os preços à vista do petróleo. Mas, como os preços do petróleo caíram ao longo do último ano, a expectativa de inflação de 10 anos/10 anos não acompanhou essa queda, o que, mais uma vez, pode ser um sinal de que os prêmios de risco estão começando a se acumular na extremidade longa da curva. Não se trata de uma prova irrefutável, como seria se a expectativa de inflação pura estivesse realmente subindo, mas a quebra na correlação histórica é notória e profunda”, avalia Brooks.
O economista, inclusive, alerta que o movimento está acontecendo atualmente em um ritmo bastante moderado, mas pode acelerar nos próximos meses, especialmente quando o novo presidente do Federal Reserve (Fed) assumir o cargo.
Fonte: Valor Econômico

