O governo Luiz Inácio Lula da Silva vê com “preocupação” a ameaça, feita pelo presidente americano, Donald Trump, de que os Estados Unidos vão taxar em 25% todos os países que fazem negócios com o Irã. De acordo com assessores da cúpula do governo brasileiro, a nova tentativa de intimidação cria uma espécie de “insegurança jurídica” junto à comunidade internacional. Isso porque enfraquece todo o esforço feito pela diplomacia dos países que aceitaram, recentemente, buscar algum tipo de consenso durante a “primeira onda” do tarifaço americano.
O Valor apurou que, apesar da avaliação negativa, a área internacional do Palácio do Planalto não recebeu qualquer sinal de que essas sanções possam ter o Brasil como alvo. Pelo contrário, a expectativa da gestão petista é a de que a economia brasileira fique de fora de medidas unilaterais por ter uma balança comercial considerada modesta junto ao Irã. De acordo com números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o Brasil exporta cerca de US$ 2,9 bilhões para o Irã, enquanto que as importações alcançam somente US$ 84 milhões.
Além disso, as exportações brasileiras para o Irã são baseadas principalmente em commodities, como o milho. Já as importações buscam suprir o mercado nacional com produtos como a ureia, composto orgânico amplamente utilizado como fertilizante por seu alto teor de nitrogênio e que costuma abastecer produtores agrícolas. Isso quer dizer que um eventual rompimento das relações comerciais com o Irã – o que não se cogita até o momento – poderia ter algum efeito negativo para o agronegócio brasileiro.
Palácio do Planalto vai esperar para verificar se a coação, de fato, se tornará realidade
Por causa do histórico recorrente de intimidações do governo Trump, a ordem na Esplanada é evitar comentar “bravatas”. Ou seja, a gestão petista vai esperar para verificar se a coação, de fato, se tornará realidade. Além disso, informações oficiais sobre a medida nem sequer foram publicadas pelo governo americano, o que deverá evitar que o assunto seja discutido publicamente pelo governo brasileiro.
As ameaças de Trump começaram depois que uma onda de protestos tomou conta de todo o Irã. As manifestações se iniciaram a partir da insatisfação popular ante a crise cambial, o que teria gerado uma resposta repressiva do governo teocrático local. Ao todo, cerca de 2 mil pessoas já teriam sido mortas em decorrência dos protestos, segundo informações mais recentes de uma fonte do governo iraniano à agência internacional de notícias Reuters.
Por causa desse quadro, o Itamaraty também divulgou uma nota à imprensa, ontem, na qual frisa que cabe apenas à população do Irã decidir sobre o futuro do país. De acordo com o comunicado, o Itamaraty acompanha, “com preocupação”, a evolução das manifestações que acontecem em diversas localidades iranianas.
“O governo brasileiro acompanha, com preocupação, a evolução das manifestações que ocorrem, desde o dia 28 de dezembro, em diversas localidades do Irã. O Brasil lamenta as mortes e transmite condolências às famílias afetadas”, diz o comunicado divulgado pelo Brasil.
“Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo”, complementa o texto.
O Itamaraty, por meio da Embaixada do Brasil em Teerã, afirmou também que se mantém atento às necessidades da comunidade brasileira no Irã. Não há registros, até o momento, de nacionais mortos ou feridos.
Nesta terça-feira (13), Donald Trump, por sua vez, pediu que os iranianos continuem protestando e “assumam o controle” das instituições.
Em postagem nas redes sociais, o republicano também afirmou que todas as reuniões com autoridades de Teerã estão suspensas até que o regime interrompa o que o presidente americano chamou de “matança sem sentido de manifestantes”.
Fonte: Valor Econômico


