Os Estados Unidos e Israel parecem ter entrado em mais um conflito direto com o Irã no início da manhã de sábado (28), por meio de uma série de ataques estratégicos em todo o território da República Islâmica. A ação voltou a provocar declarações unilaterais vindas do Irã, sugerindo o fechamento do Estreito de Ormuz — uma rota marítima fundamental para o transporte de petróleo e gás do Golfo Pérsico para o Golfo de Omã e além.
Ainda no sábado, o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que “grandes operações de combate” estavam em andamento contra o Irã e conclamou os iranianos a se levantarem e aproveitarem a oportunidade contra o regime em Teerã.
À medida que uma série de ataques se desenrolava, o Irã respondeu lançando seus próprios ataques retaliatórios contra Israel e contra nações vizinhas que abrigam importantes bases aéreas americanas, incluindo Bahrein, Jordânia, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos.
Com a escalada das hostilidades, operadores de navegação na região e a U.K. Maritime Trade Operations relataram ameaças feitas pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã de que o Estreito estaria fechado ao tráfego comercial.
Os preços do petróleo, que já acumulam alta de 12% desde o mês passado, devem subir ainda mais nos próximos dias caso o conflito se intensifique e haja interrupções no Estreito de Ormuz. Os volumes de carga reforçam a relevância das constantes especulações do mercado sobre um possível bloqueio retaliatório do Estreito por parte do Irã.
Segundo a Lloyd’s List, passam diariamente pelo Estreito os embarques de petróleo bruto e derivados da Arábia Saudita, Kuwait, Iraque, Irã e, em certa medida, dos Emirados Árabes Unidos — o que representa cerca de 30% do petróleo e dos produtos petrolíferos comercializados no mundo — além de cargas de gás natural liquefeito (equivalentes a 20% do comércio global de GNL, principalmente do Catar) e um terço das remessas globais de gás liquefeito de petróleo.
Isso equivale a algo entre 30 e 33 milhões de barris de óleo equivalente por dia. O número inclui 21 milhões de barris por dia de petróleo bruto e derivados, ou cerca de um quinto do suprimento mundial. Diante disso, surge a pergunta: os iranianos tentariam fechar o Estreito — e seriam capazes de fazê-lo? Embora possam conseguir por um curto período, provavelmente não farão.
Por que isso pode não acontecer
Em primeiro lugar, uma ação desse tipo provavelmente provocaria uma resposta naval e aérea quase imediata dos Estados Unidos. Isso deixaria toda a costa iraniana e seus portos potencialmente vulneráveis a um arsenal de ataques aéreos e navais americanos muito superior. O Bahrein, que abriga a Quinta Frota da Marinha dos EUA, fica nas proximidades e já faz parte do atual cenário de hostilidades.
Além disso, a manobra pode sequer sair do papel, já que pelo menos quatro forças-tarefa combinadas patrulham rotineiramente o Golfo Pérsico e o Estreito, e seus sistemas de vigilância podem eliminar o fator surpresa. Dois grupos de ataque de porta-aviões dos EUA também estão atualmente na região.
Em segundo lugar, a medida pode se mostrar autodestrutiva para o próprio Irã, pois afetaria suas exportações de petróleo bruto. De acordo com a agregadora de dados do setor e empresa de pesquisa Kpler, o Irã exporta, em média, 1,65 milhão de barris por dia de óleo bruto e condensado de gás.
A maior parte (cerca de 90%) das exportações energéticas iranianas, vendidas com desconto devido às sanções, tem como destino a China. Além disso, mais da metade de toda a energia que passa pelo Estreito — seja iraniana ou não — também segue para o mercado chinês.
Em termos simples, a China é hoje a maior importadora mundial de hidrocarbonetos. Um possível fechamento do Estreito seria muito difícil de sustentar diante da pressão de Pequim.
Em terceiro lugar, um evento desse tipo, mesmo que temporário, perdeu parte de sua eficácia, já que nem todas as exportações regionais de petróleo seriam interrompidas. Exportadores-chave como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos contam com rotas alternativas por meio de oleodutos.
No caso da Arábia Saudita, até 5,1 milhões de barris por dia podem ser transportados pelo oleoduto Leste-Oeste e embarcados a partir do Mar Vermelho, embora essa rota esteja atualmente vulnerável a ataques das forças rebeldes houthis, apoiadas pelo Irã, no Iêmen.
Os Emirados Árabes Unidos parecem estar em situação ainda mais favorável. Seu oleoduto Abu Dhabi–Fujairah — que entrou em operação em 2012 — tem capacidade de 1,5 milhão de barris por dia. O ponto final da rota, o porto de Fujairah, é o único entre os sete emirados que compõem o país cuja costa está exclusivamente voltada para o Golfo de Omã, e não para o Golfo Pérsico, que o Irã ameaça persistentemente bloquear.
O porto de Fujairah, que contorna o Estreito, tem capacidade para despachar quase 75% da produção total de petróleo bruto dos Emirados Árabes Unidos, se necessário.
Ainda assim, não se pode descartar a possibilidade de escaramuças pontuais e ações de perturbação no Estreito por parte da Guarda Revolucionária do Irã. Isso inclui, entre outras possibilidades, ataques a cargas de energia que não tenham como destino, por exemplo, o principal cliente do Irã — a China.
Também existe o risco de sequestros aleatórios de cargas energéticas no Estreito, algo que já tem precedentes. No entanto, de modo geral, um bloqueio total seria difícil de colocar em prática e ainda mais difícil de manter por muito tempo.
Considerando tudo isso, o Irã ameaça fechar o Estreito de Ormuz desde a Revolução Islâmica de 1979, mas nunca tentou efetivamente fazê-lo nem o fez de forma oficial. Embora a região esteja agora em um território desconhecido, com um conflito regional potencialmente muito mais amplo, esse histórico, por si só, é bastante revelador.
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com
Fonte: Forbes Brasil
