3 Oct 2022 ISABELLA KWAI ‘THE NEW YORK TIMES’ / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA
ANDREW TESTA/THE NEW YORK TIMES
Depois de quase duas décadas pagando aluguel em uma das cidades mais caras do mundo, a família Szostek começou a semana quase certa de que finalmente compraria uma casa.
Imigrantes que se estabeleceram em Londres, onde se conheceram e se apaixonaram enquanto dividiam uma casa, Laetitia Anne, francesa e gerente de operações, e seu marido, Maciej Szostek, polonês e chef de cozinha, há muito sonhavam com a casa própria. Eles esperaram os piores momentos da pandemia passar e trabalharam duro fazendo horas extras para economizar para a entrada da hipoteca de um apartamento de três quartos em um bairro nos arredores de Londres. Os filhos deles, gêmeos de 13 anos, estavam animados, pois finalmente iriam poder pintar as paredes.
Isso foi antes de os mercados financeiros britânicos virarem de cabeça para baixo, com a libra atingindo, durante um breve período na última segundafeira, uma baixa recorde em relação ao dólar e as taxas de juros disparando tão depressa que o Bank of England foi forçado a intervir. A situação econômica era tão volátil que alguns credores de hipotecas tiraram do mercado temporariamente muitos produtos.
Na terça-feira, a família Szostek recebeu uma má notícia: o empréstimo que estava perto de conseguir tinha sido negado e eles teriam de ir atrás de um novo financiador. Laetitia, de 40 anos, afirmou que a sensação é de ver os anos de trabalho duro do casal indo por água abaixo. “Por que eu deveria continuar com as coisas assim?”
CENÁRIO DIFÍCIL. Com os preços dos imóveis disparando nos últimos anos e as taxas de juros permanecendo baixas, a casa própria na Grã-bretanha era um caminho para a prosperidade para famílias de baixa e média renda. Mas o aumento dos preços e a desigualdade de renda acabaram com essa possibilidade para muitos.
A divulgação do plano do novo governo britânico para cortes de impostos financiados pela dívida levou a um grande aumento nas taxas de juros, que abalou o mercado de hipotecas – muitas pessoas estão calculando as suas possíveis prestações futuras com preocupação, em meio ao aumento dos preços da energia e dos alimentos e a uma crise geral do custo de vida.
Antes de serem informados de que o empréstimo havia sido negado, Laetitia e Szostek estavam nos estágios finais do processo para conseguir uma hipoteca de valor fixo de cinco anos para um apartamento no valor de 519 mil libras. Ele ficava na arborizada região de Loughton, uma pequena cidade a cerca de 40 minutos de trem de Londres, com imóveis que vão desde apartamentos para famílias de baixa renda até mansões.
Embora as hipotecas de valor fixo, que variam de dois a dez anos, sejam comuns na Grã-bretanha, protegendo muitas famílias no momento, a alta nas taxas de juros ameaça aqueles que estão comprando um imóvel pela primeira vez e os que pagam hipotecas de preço variável – cerca de 25% de todas as hipotecas, de acordo com a Autoridade de Conduta Financeira. E mais de um terço de todas as hipotecas são de preços fixos que expiram nos próximos dois anos, provavelmente expondo esses mutuários a taxas mais altas também. CRISE. O aumento abrupto das taxas de juros pode desencadear uma crise no mercado imobiliário, escreveram analistas da Oxford Economics em nota, acrescentando que, se as taxas de hipotecas permanecerem nos patamares atuais, isso sugeriria que os preços das casas estavam em torno de 30% supervalorizados.
“Isso apenas adiciona uma pressão ainda maior às finanças na ordem de centenas de libras por mês”, disse David Sturrock, economista e pesquisador sênior do Institute for Fiscal Studies, acrescentando que o aperto nos orçamentos familiares afetará a economia em geral. •
Com as taxas de juros disparando rapidamente, o Bank of England precisou agir para restaurar a ordem
Fonte: NY Times / O Estado de S. Paulo