Por Eduardo Magossi — De São Paulo
26/02/2024 05h03 Atualizado há 3 horas
O câmbio dos países da América Latina pode ser a primeira vítima caso os EUA adiem o início dos cortes de juros por muito tempo, avalia o economista da XP, Francisco Nobre, em relatório antecipado ao Valor.
A perspectiva de demora na flexibilização monetária dos EUA num momento em que os países da América Latina já começaram a reduzir os juros reduz o diferencial entre as taxas locais e os americanos. Segundo Nobre, esse fator faz com que a atratividade dos ativos latino-americanos se reduza. “Eventualmente isso pode levar a uma desvalorização da moeda, criando pressões inflacionárias que façam os bancos centrais a agirem com mais cautela”, afirma.
O economista pondera, contudo, que neste momento ainda existe bastante espaço para que os bancos centrais da região continuem o afrouxamento monetário porque as taxas subiram demais nesses países. “O Brasil chegou a ter juros de 13,75% [ao ano], a Colômbia foi até 13,25% e o Chile, até 13%. São níveis muito elevados para esses países, mas, com um processo de queda da inflação em andamento na região, ainda temos muita gordura para cortar”, diz.
A expectativa de Nobre é que, mesmo com a inflação acima das metas, os ciclos de flexibilização continuem na América Latina, porém em velocidades diferentes de acordo com fatores locais. “No entanto, condições globais como choques geopolíticos também representam riscos de alta”, afirma.
Os bancos centrais, segundo ele, devem continuar a afrouxar a política monetária ao longo de 2024 porque as taxas de juros reais (descontada a inflação) elevadas proporcionadas pelo movimento desinflacionário permitem cortes adicionais.
Para o economista, quando os juros começarem a se aproximar do patamar neutro (que não acelera nem desacelera a inflação), os bancos centrais precisarão ter mais cautela para não afetar o câmbio. “Alguns países, como Chile e Peru, começaram a discutir medidas de intervenção cambial. No Peru, as conversas estão mais adiantadas”, afirma.
Nobre lembra que o Chile pode se beneficiar e continuar seu ritmo de cortes mais acelerado porque possui um juro neutro mais baixo, entre 1% e 1,5%. “Com os juros ainda em 7,25%, e com a inflação em queda expressiva, eles podem seguir cortando em ritmo acelerado. O último corte foi de 1 ponto percentual e um dos membros do comitê já sinalizou corte de 1,25 ponto.”
Diferentemente do Chile, na Colômbia, a inflação está mais resiliente, embora também esteja caindo – o que cria menos espaço para cortes. E, na Colômbia, o juro neutro é mais alto, em torno de 3%. “Os juros da Colômbia saíram de 13,25% e o banco central já realizou dois cortes de 0,25 ponto levando as taxas para 12,75%. Lá, o BC tem menos espaço porque a inflação segue em 8,25% em janeiro, bastante acima da meta de 3%.”
“Desvalorizações das moedas criam pressões inflacionárias e podem inspirar cautela dos BCs” — Francisco Nobre
Sobre o México, o economista destaca que a integração forte do país com os EUA limita as ações do banco central, o Banxico. “Embora o Banxico não assuma isso, a política monetária mexicana é muito relacionada com a do Fed [Federal Reserve, o banco central americano] e qualquer desalinhamento entre os dois afeta o câmbio. Geralmente o diferencial de juros entre os dois países é mantido em 6 pontos percentuais”, observa.
De acordo com Nobre, à medida que o Fed adia o corte de juros nos Estados Unidos, o Banxico também deixa suas taxas inalteradas. Os juros básicos mexicanos estão em 11,25%, mantidos nesse patamar por oito reuniões consecutivas. “O banco provavelmente fará o primeiro corte de 0,25 ponto em março e pode acelerar para 0,50 ponto em junho, quando o Fed deverá começar seu ciclo de flexibilização”, diz. “Mas o México tem pouco espaço para reduções. E, se o Fed adiar os cortes para além de junho, o câmbio vai sofrer reascendo as expectativas inflacionárias.”
A forte correlação mexicana com os EUA se dá para além do canal direto do câmbio, dada a integração econômica entre os dois países, afirma. “Nos EUA, a economia segue resiliente e no México também, diferentemente dos demais países da América Latina, onde a atividade está desacelerando. A economia mexicana é, hoje, a mais forte entre os países analisados e isso se deve à sua ligação com os EUA. E se a economia está resiliente e a inflação está convergindo para a meta, não tem tanta pressa para cortar”, diz.
Os PIBs da América Latina deverão ser menores em 2024 que EM 2023 devido a uma desaceleração econômica que reflete o impacto defasado dos juros elevados. “O Brasil até está surpreendendo com um bom crescimento neste início de ano, mas a tendência é de que menor expansão na região.”
Nobre ressalta, contudo, que mesmo com a política monetária apertada, o mercado de trabalho e níveis de consumo estão sólidos na região. “Podemos dizer que a economia está desacelerando e não entrando em contração.”
Fonte: Valor Econômico


