Especialistas ouvidos pelo Valor divergem sobre os efeitos na indústria brasileira do acordo entre Mercosul e União Europeia. O acordo conecta 27 países europeus aos quatro países do Mercosul e estabelece regras para reduzir barreiras comerciais, com trocas de bens e serviços.
O acordo pode afetar negativamente segmentos de produção nacional, com entrada facilitada de produtos europeus, mais competitivos dizem analistas. Mas pode também abrir novas frentes de comércio a longo prazo e fortalecer a atividade industrial do país.
“A perspectiva é mista e depende do setor”, diz Marina Pereira, responsável por pesquisa & desenvolvimento (P&D) da Associação Brasileira de Automação-GS1 Brasil. Ela afirmou que setores como têxtil e vestuário, mais vulneráveis à competição com produtos importados, precisarão de renovação constante para se adaptar. Alimentos, bebidas e agronegócio devem se beneficiar. Esses setores terão grandes oportunidades de exportação, afirma.
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, concorda: “Será fator positivo para a indústria a médio e longo prazos. Vai abrir mais frentes e possibilidades de comércio e fortalecerá a posição do setor produtivo, claro, ao longo do tempo e a depender da condução da política de comércio a partir do início da vigência do acordo”. Ele alerta: “Mas um desafio segue sendo o lado fiscal. É preciso solução mais estrutural e definitiva para o desequilíbrio das contas públicas, expresso na alta do endividamento público em relação ao PIB, pois isso colaboraria para condições financeiras e macroeconômicas melhores” para a indústria”.
Rafael Cagnin, diretor-executivo e economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), afirma que o acordo pode facilitar o acesso da indústria à máquinas e equipamentos mais modernos da Europa. Isso estimularia a modernização de maquinário industrial no país, notou. Mas Cagnin admite que haveria perdas em alguns setores industriais. Ele citou estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2024 sobre o tema, segundo o qual segmentos teriam perdas com o acordo. São eles: veículos e peças, metais ferrosos, artigos do vestuário e acessórios, produtos de metal, têxteis, farmacêuticos, máquinas e equipamentos e equipamentos eletrônicos.
Fonte: Valor Econômico

