Por Siobhan Hughes e Alex Leary — Dow Jones Newswires, de Washington
10/08/2022 05h02 Atualizado há 4 horas
A busca feita pelo FBI (a polícia federal americana) na mansão de Donald Trump em Mar-a-Lago, na Flórida, levou muitos republicanos a apoiar o ex-presidente e poderá mudar o curso das eleições legislativas deste ano, que definirá o controle do Congresso, e também a disputa presidencial de 2024.
Embora muitos detalhes da investigação do FBI continuem desconhecidos, os desdobramentos ao mesmo tempo desafiam e fortalecem o controle de Trump sobre o Partido Republicano, no momento em que ele estuda publicamente a possibilidade de disputar a Casa Branca pela terceira vez. Muitos republicanos, entre os quais potenciais concorrentes presidenciais, denunciaram a operação do FBI, tachando-a de um ato de motivação política do governo Joe Biden, enquanto outros exigiam mais detalhes do Departamento de Justiça, embora sem chegar a criticar suas motivações.
“Esta é uma armação descarada do FBI, pelo Departamento de Justiça de Biden contra seu oponente político”, tuitou o deputado republicano Steve Scalise, membro da liderança do partido e que reflete a posição de muitos deputados republicanos.
“Compartilho a profunda preocupação de milhões de americanos com a operação de busca sem precedentes”, tuitou o ex-vice-presidente Mike Pence, que no ano passado rejeitou os esforços de Trump para que rejeitasse o resultado da eleição de 2020 e agora considera uma possível candidatura à Casa Branca.
Pessoas familiarizadas com a questão disseram que a busca foi parte de uma investigação do tratamento dado por Trump a informações sigilosas. A advogada de Trump, Christina Bobb, que estava presente durante a busca, disse que os agentes federais “apreenderam documentos”.
A secretária de Imprensa da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, disse que o presidente Biden não foi informado com antecedência sobre a operação do FBI, que soube dela ao mesmo tempo que o público. Para realizar a busca, o FBI precisaria convencer um juiz de que havia motivos para acreditar que pode haver evidências de um crime naquele local. Uma porta-voz do Departamento de Justiça se recusou a comentar a operação ontem.
O Departamento de Justiça tem examinado o tratamento dado pelo ex-presidente a registros oficiais e seus atos por volta de 6 de janeiro de 2021, data do ataque à sede do Congresso americano. A busca de segunda-feira não faz parte da investigação sobre o 6 de janeiro, disseram pessoas a par da investigação. Trump negou ter cometido qualquer delito e classifica as investigações como uma campanha movida pelos democratas.
Pessoas próximas a Trump disseram que a busca poderá motivá-lo ainda mais a anunciar uma participação na disputa pela Presidência em 2024 antes das eleições de renovação do Congresso.
Na madrugada de ontem Trump postou um vídeo em tom de campanha em sua conta no TruthSocial: “Somos um país que se tornou uma piada… mas em breve voltaremos a ter grandeza”. Conclui com a mensagem na tela: “O melhor ainda está por vir”.
Alguns parlamentares republicanos, entre os quais o líder da minoria na Câmara dos Deputados, Kevin McCarthy têm pressionado Trump a adiar qualquer anúncio até depois da eleição legislativa de novembro a fim de não prejudicar as chances do partido de retomar o controle da casa. Embora Trump continue sendo um poderoso motivador dos eleitores republicanos, ele é rejeitado por muitos eleitores indecisos, e os líderes do partido têm buscado focar a campanha para as eleições legislativas na economia e na inflação. Os republicanos têm grandes expectativas de reconquistar o controle da Câmaras, enquanto o resultado no Senado é tido como imprevisível.
As pesquisas de intenção de voto mostram Trump como o principal candidato do Partido Republicano em uma hipotética batalha presidencial em 2024, e ele venceu com facilidade uma pesquisa de opinião extraoficial no grande evento anual conservador Conservative Political Action Conference.
McCarthy disse na noite de segunda-feira que “o Departamento de Justiça alcançou um quadro intolerável de politização armamentizada” e prometeu investigar o secretário de Justiça, Merrick Garland, e o departamento caso os republicanos assumam o poder. Garland tem falado pouco publicamente sobre as investigações do Departamento de Justiça relacionadas a Trump.
Os democratas defenderam a operação. “Ninguém está acima da lei, nem mesmo um ex-presidente dos EUA”, disse a Presidente da Câmara, Nancy Pelosi, à rede NBC.
Se os republicanos tomarem o controle da Câmara em novembro o partido teria poder criar comissões e de encabeçar investigações. Muitos republicanos já planejam investigar o filho do presidente Hunter Biden, e disseram, depois da busca na casa de Trump, que vão realizar audiências também sobre os atos do FBI.
Embora alguns adversários tenham se apressado em defender Trump, os desdobramentos também chamaram a atenção para o que veem como a vulnerabilidade de Trump como uma figura profundamente divisiva na política americana. Ele atraiu um número recorde de votos para um presidente americano no exercício do poder em 2020, mas perdeu por cerca de sete milhões de votos para o presidente Biden.
“Outros líderes republicanos o veem como vulnerável”, disse Dan Eberhart, doador do Partido Republicano. Para ele, isso pode incentivar potenciais candidatos em 2024, entre os quais o ex-secretário de Estado Mike Pompeu, o ex-vice-presidente Mike Pence e a ex-governadora da Carolina do Sul Nikki Haley a avaliar a possibilidade de entrar na corrida presidencial.
Um porta-voz do líder da minoria republicana no Senado, Mitch McConnell não respondeu a um pedido de comentário, e alguns senadores do partido tiveram uma reação comedida, querendo ver detalhes sobre o motivo da busca.
Fonte: Valor Econômico
