Por Altamiro Silva Junior, Cynthia Decloedt e Cristiane Barbieri
30/08/2023 | 22h00
Quatro grandes empresas de tecnologia preparam ofertas de ações milionárias para estrear nas bolsas americanas em setembro. Previstas para a volta das férias de verão nos Estados Unidos, que oficialmente acontece na segunda-feira, 4, com o feriado do Dia do Trabalho, essas operações vão sinalizar o apetite do investidor internacional por ações, depois de quase dois anos com raras aberturas de capital na maior economia do mundo. O sucesso do movimento também vem sendo encarado como um termômetro para a volta das aberturas de capital no Brasil.
A britânica Arm (de chips), a vietnamita VNG (pagamentos, jogos e serviços em nuvem) e as norte-americanas Instacart (entregas de supermercados) e Clayco (marketing para o comércio eletrônico) entraram com pedidos nos órgãos reguladores dos EUA para ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês), previstas para segunda metade de setembro. Além de estarem na área de tecnologia, o fato de serem bancadas por grandes fundos de investimento – caso do Softbank, que é dono da Arm – pode resultar em aberturas de capital bem-sucedidas. A expectativa é que a oferta da Arm fique na casa dos US$ 10 bilhões, a maior nos EUA desde 2021.
Segundo o diretor de um banco norte-americano, os Estados Unidos “são um belo termômetro para transações na América Latina.” De poucas semanas para cá, diz ele, o mercado daquele país vem ganhando fôlego, após ficar parado de dezembro de 2021, quando o Nubank fez sua estreia na bolsa Nasdaq, até o fim do ano passado. Este ano, foram poucas operações grandes, como a Kenvue, uma subsidiária da gigante Johnson & Johnson, avaliada em US$ 41 bilhões em sua oferta em maio. Para ele, “o mercado tem melhorado, mas ainda em velocidade abaixo da média histórica. Falta agora ver o apetite por tecnologia.”
Se houver sucesso nos EUA, pode haver o retorno de IPOs na B3
Caso as quatro transações sejam bem-sucedidas, uma fonte da Faria Lima vê mais ofertas desengavetadas em Nova York. Se seguirem acontecendo nos EUA, abrem espaço para ofertas no Brasil no começo de 2024, diz o presidente de um banco estrangeiro. Neste primeiro momento, haverá espaço para ofertas maiores, de ao menos R$ 3 bilhões e que sejam capazes de atrair grandes investidores estrangeiros. Também devem ser empresas com liquidez diária na B3, ou seja, que o investidor tenha espaço para vender o papel, caso não queira mais o investimento.
Na Faria Lima, não se descarta um ou outro IPO no Brasil até dezembro, mas o grosso das novas ofertas aconteceria apenas em 2024. Na B3, não há ofertas de ações desde 2021, caso o IPO do Nubank, que teve dupla listagem, fique fora da conta. Banqueiros de investimento também acreditam que companhias brasileiras possam fazer IPO no exterior, caso estejam em busca de recursos, como foi o caso da petroleira Seacrest, listada na Noruega em fevereiro. Em Nova York, a Instacart pretende listar ações na Nasdaq. No ano passado, ela foi forçada a reduzir seu valor, em meio à baixa de mercado que reavaliou empresas de tecnologia no mundo todo, e anunciou que a PepsiCo se comprometeu a comprar US$ 175 milhões em ações. Já a Arm dará saída ao Softbank, após alguns investimentos mal sucedidos do gigante japonês em “techs”.
Ao contrário da onda de ofertas de 2020, quando qualquer empresa conseguia acessar o mercado e atrair milhões de investidores com os juros perto de zero, agora não basta a empresa oferecer a promessa de lucro no futuro. Por isso, a Clayco informa no prospecto que já é lucrativa, com ganho de US$ 15 milhões no primeiro semestre. Com dinheiro da chinesa Tencent e do Temasek, de Cingapura, a vietnamita VNG planeja um IPO de US$ 150 milhões na Nasdaq, o primeiro unicórnio do país asiático a chegar na bolsa de tecnologia americana.
Fonte: O Estado de S. Paulo

