Ações do varejo na bolsa brasileira. – Imagem: iStock
Depois de anos marcados por resgates expressivos, os fundos de ações e multimercado podem ver a luz no fim do túnel. De acordo com a Fitch, a provável redução da taxa Selic (juros básicos do Brasil, que atualmente está em 15% ao ano) deve começar a beneficiar os fundos de maior risco a partir de 2026.
Desde 2022, a combinação de juros elevados, incertezas fiscais e instabilidade política levou os investidores a optarem por estratégias mais conservadoras. Os produtos de renda fixa ganharam mais espaço nas carteiras, já que ofereciam retornos acima de 1% ao mês e baixo risco.
Esse movimento reduziu a atratividade de fundos multimercados e de ações, que sofreram com baixa rentabilidade e aversão ao risco.
Em 2025, o volume de ativos sob gestão (AUM) do Brasil cresceu 13,5% até outubro, alcançando R$ 10,6 trilhões. Segundo a Fitch, o impulso veio principalmente da captação e da remuneração proporcionada pelos juros altos, via renda fixa.
Apesar disso, a captação líquida de R$166 bilhões no período indica um ritmo moderado. O relatório aponta para uma tendência de desaceleração no fim do ano, reflexo do histórico de resgates em períodos de maior incerteza.
Agora, as atenções se voltam para 2026. A expectativa é de que a redução gradual dos juros abra espaço para estratégias mais arrojadas.
Tradicionalmente, fundos multimercados conseguem navegar bem em momentos de virada de política monetária, pelo mandato flexível de alocação. Esses fundos conseguem se posicionar na virada de juros, de inflação e captar bons ganhos.
Já os fundos de ações ganham espaço junto com a bolsa, que costuma receber o fluxo de dinheiro que sai da renda fixa para a renda variável.
A virada de página
Segundo a Fitch Ratings, a visão para o cenário da indústria de fundos em 2026 é neutra, mas com viés positivo diante da provável queda dos juros.
A indústria deve se beneficiar não apenas da redução da Selic, mas também do crescimento econômico do país e da entrada de investidores internacionais, segundo relatório de 1º de dezembro.
Em 2025, os fundos de renda fixa lideraram a captação da indústria, com aplicações líquidas de R$ 181 bilhões. Multimercados e ações registraram resgates de R$ 56 bilhões e R$ 53 bilhões, respectivamente.
A expectativa, entretanto, é que esse cenário comece a virar no próximo ano, e de forma gradual, segundo a Fitch.
Apesar dos juros altos neste ano, a rentabilidade dos fundos de ações foi destaque no acumulado até outubro, superando até mesmo o retorno da renda fixa. Até o dia 31, os fundos de ações livres retornaram 26% no ano, enquanto ações índice ativo subiram um pouco mais, próximo de 27%.
Já os fundos de renda fixa simples e renda fixa duração livre crédito chegaram a 11% e 12%, respectivamente.
Os juros altos seguem gerando bons ganhos para os fundos de renda fixa, com baixo risco. Para a Fitch, essa tendência deve se manter em 2026, mesmo com alguma redução das taxas.

Dados da indústria de fundos*
- AUM total: R$ 10,6 trilhões (+13,5%).
- Captação líquida no ano: R$ 166 bilhões (+1,78% sobre AUM inicial).
- Fundos de renda fixa: R$ 181 bilhões em aplicações líquidas (+4,83%).
- Multimercados: resgates de R$ 56 bilhões (-3,68%).
- Ações: resgates de R$ 53 bilhões (-9,13%).
*Até 31 de outubro de 2025
Selic, inflação e eleições
O pano de fundo para essa virada de mão nos ativos de risco é um ambiente econômico mais favorável.
As projeções apontam para uma Selic caindo de 15% para 12,25% ao ano em 2026. A inflação deve recuar para patamares próximos a 4,2% no próximo ano. Já a atividade econômica estima-se menor, com crescimento em torno de 1,8% no ano — menor que o crescimento de 2,2% em 2025.
Embora esses números apontem para uma estabilidade positiva para os investimentos, o relatório da Fitch diz que ainda há risco político no radar.
2026 será um ano de eleições presidenciais, o que por si só já aumenta as incertezas. O mercado também segue atento a falta de compromisso do governo federal com as metas fiscais, devido a tendência a mais gastos.
Além disso, questões domésticas, tensões geopolíticas e disputas comerciais continuam a influenciar os mercados globais.
Para os fundos, esse contexto significa que a renda fixa seguirá atraente, mas a redução dos juros deve abrir espaço para maior diversificação, especialmente em ações.
Projeções econômicas da Fitch
| Indicadores econômicos | 2025 | 2026 |
|---|---|---|
| Selic (juros) | 15% | 12,25% |
| IPCA (inflação) | 4,40% | 4,20% |
| PIB (atividade econômica) | 2,20% | 1,80% |
Mudanças com a Resolução CVM 175
A Fitch também pondera que o setor de fundos passa por transformações estruturais. A consolidação das regras da Resolução CVM 175, que mudou a regulamentação dos fundos e trouxe maior transparência e alinhamento às práticas internacionais, reforça a solidez do setor.
“A indústria local obteve sucesso na transição, apesar da complexidade e da abrangência das regras. O novo arcabouço regulatório da indústria de fundos brasileira tem sólidos processos operacionais, transparência e controle de risco, o que se reflete positivamente nos ratings internacionais de qualidade de gestão”, diz o relatório.
Fonte: SeuDinheiro


