Por Humberto Saccomandi, Para o Valor — São Paulo
02/05/2024 09h04 Atualizado há 10 horas
A seis meses das eleições nos EUA, o cenário eleitoral segue travado. As pesquisas parecem indicar alguma vantagem para o republicano Donald Trump na corrida presidencial e para os republicanos nas disputas pela maioria na Câmara e no Senado. Mas não há nada definido. E uma série de eventos em andamento podem afetar o humor dos eleitores até 5 de novembro, com riscos crescentes tanto para Joe Biden como para Trump.
Segundo a média das pesquisas nacionais realizada pelo site Real Clear Politics, Trump tem 46,6% das intenções de voto, contra 45,1% do presidente Joe Biden, o que caracteriza empate técnico. Esse número tem uma importância relativa, pois o presidente dos EUA não é eleito diretamente pelo voto popular, mas por um Colégio Eleitoral. Em 2016, Trump perdeu no voto popular para Hillary Clinton, mas ganhou no Colégio Eleitoral. Em 2020, Biden ganhou em ambos. Mas, dada a dinâmica recente do Colégio Eleitoral, é muito improvável que Biden consiga vencer sem ter maioria no voto popular.
O Colégio Eleitoral é composto por delegados, distribuídos de acordo com a população de cada Estado. Quando um candidato vence no voto popular num Estado, nem que seja por um voto, leva todos os delegados daquele Estado. Na maioria dos Estados americanos não há surpresas na votação. Biden vencerá na Califórnia e em Nova York. Trump vencerá no Texas e na Flórida. Com isso, quem define de fato as eleições é um pequeno grupo de Estados, chamados em inglês de “swing states”, onde ora vence um democrata, ora um republicano. Nas eleições de 2020, sete Estados eram considerados “swing”, ou seja, indefinidos. Biden ganhou em seis deles e venceu.
Desta vez, a pesquisa mais recente nos Estados indefinidos, divulgada nesta semana pelo instituto Emerson College, mostra empate técnico nos sete Estados (são eles: Arizona, Nevada, Geórgia, Carolina do Norte, Pensilvânia, Michigan e Wisconsin). Mas em todos Trump aparece numericamente à frente. Isso pode ser apenas coincidência ou pode indicar alguma vantagem de Trump. Não há como saber.
Do mesmo modo, as projeções para Câmara e Senado seguem incertas, mas parecem sugerir alguma vantagem republicana. Na Câmara estão em disputa todas as 435 cadeiras. Como o sistema eleitoral é distrital puro, é preciso acompanhar distrito por distrito. As projeções indicam hoje que parece mais fácil para os republicanos manter a maioria.
No Senado, os democratas têm maioria de 51 a 49. Estarão em disputa 34 cadeiras neste ano, sendo 23 democratas e 11 republicanas. Projeções indicam hoje que há empate técnico na disputa por 3 cadeiras que atualmente estão com os democratas. Isso eleva o risco de o partido perder a maioria.
Ou seja, o cenário eleitoral parece estar levemente favorável aos republicanos, mas continua indefinido. Numa situação assim, qualquer evento negativo pode afetar a intenção de voto num candidato e/ou partido. E há vários eventos desse tipo em andamento atualmente.
No caso de Trump, o risco mais evidente é o julgamento no qual o ex-presidente é acusado de fraude eleitoral na campanha de 2016, por ter supostamente disfarçado pagamentos à atriz Stormy Daniels para que ela não revelasse um romance entre os dois. É a primeira vez que um ex-presidente dos EUA é julgado num processo criminal. O julgamento está tendo ampla repercussão no país. Detalhes da traição conjugal de Trump e de como ele buscou esconder isso dos eleitores ameaçam prejudicar a sua campanha. Pesquisas sugerem que, caso seja condenado, Trump pode perder uma parte importante dos eleitores independentes (aqueles que não se declaram nem democratas nem republicanos). Ele é alvo ainda de três outros processos criminais, mas não está claro se esses julgamentos acontecerão antes das eleições.
Joga ainda contra o ex-presidente o estado de quase guerra civil em que se encontra o seu Partido Republicano, fortemente dividido entre grupos mais ou menos favoráveis a Trump. Várias personalidades republicanas já anunciaram que não o apoiarão. Entre eles está Mike Pence, que foi vice de Trump. O presidente Biden ironizou essa situação em evento na semana passada, dizendo que a sua vice o apoia. Revoltas internas conseguiram pela primeira vez na história derrubar dois presidentes republicanos da Câmara, o que passa uma imagem de partido sem rumo.
No caso de Biden, há ao menos dois riscos claros. O primeiro é a situação da economia dos EUA. Apesar do bom desempenho macro (o PIB americano cresceu 2,5% em 2023 e o desemprego está em níveis mínimos recordes), a maioria dos americanos desaprova a gestão econômica de Biden. Para este ano, era prevista pequena aceleração no crescimento (para 2,7%, segundo projeção do FMI). Mas o dado do primeiro trimestre (alta de 1,6%) decepcionou. E a perspectiva de que o Fed (o BC americano) vai demorar mais para reduzir os juros, por causa da inflação ainda fora da meta, piora ainda mais a perspectiva para o ano. Alguns economistas já voltaram a falar em risco de recessão. Uma piora no cenário econômico tornaria mais difícil para Biden convencer os americanos de que a economia vai bem.
Outro risco para Biden é a guerra em Gaza entre Israel e o grupo palestino Hamas. Biden apoiou incondicionalmente a ação militar israelense no início do conflito, na esteira da comoção pelo ataque do Hamas que matou 1.139 pessoas em Israel. Mas com a disparada de mortes de civis palestinos, uma parte importante da opinião pública americana, especialmente entre os jovens, se voltou contra Israel. Protestos importantes contra a guerra e contra Israel estão ocorrendo em dezenas de universidades americanas, com incidentes violentos e intervenção da polícia. Biden precisará muito desse voto jovem em novembro. Ele hoje está na difícil situação de ter de manter o apoio tradicional dos EUA a Israel, mas parecer que faz a diferença no sentido de buscar ao menos um cessar-fogo. Pode acabar desagradando a todos os lados.
Outro problema que ameaça a candidatura de Biden é a crise migratória na fronteira com o México. O número de imigrantes que entraram ilegalmente nos EUA foi recorde no ano passado. A perda de controle da fronteira é possivelmente a crítica mais recorrentes dos republicanos ao governo Biden. Nesta semana, Biden conversou com o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, em busca de um alívio na pressão na fronteira. Não está claro se conseguirá algo.
Por fim, há o fator da candidatura independente de Robert F. Kennedy Jr., filho de Roberto Kennedy (irmão do presidente John Kennedy e que foi assassinado quando disputava a candidatura presidencial democrata). Não está claro se Kennedy irá até o final com sua candidatura. A família Kennedy apoia Biden. A pesquisa mais recente com os três candidatos (Harvard-Harris, da semana passada) mostra Kennedy com 14% das intenções de voto, o que é muito para um independente nos EUA. Trump tem 45%, e Biden, 41%. Ou seja, Kennedy parece tirar voto dos dois candidatos, mas mais de Biden. Não está claro qual será o seu efeito nos Estados indefinidos. Ontem, Kennedy sugeriu que Biden deveria desistir de sua candidatura e apoiá-lo, pois ele teria mais chance de derrotar Trump. Se ele mantiver sua candidatura e a pesquisa se confirmar, Kennedy pode ser decisivo para uma vitória de Trump.
Fonte: Valor Econômico
