O cenário global de investimentos tem passado por transformações profundas, desafiando os paradigmas tradicionais de alocação. Em vez de ciclos econômicos previsíveis, o ambiente atual é moldado por rupturas estruturais como mudanças demográficas, avanços tecnológicos e desafios geopolíticos. Diante disso, os single family offices têm reavaliado suas estratégias e buscado maior diversificação, resiliência e acesso a novas fontes de retorno.
Segundo o 2025 Global Family Office Report, 84% dos investidores apontam o ambiente geopolítico como um fator central nas decisões de investimento, frente a 60% na edição anterior, de 2023. O atual choque global demonstra um grande aumento em mudanças estruturais na alocação dos family offices, em que 94% indicam estarem promovendo mudanças ou estudando readequações diante do novo cenário global. O grande destaque da pesquisa é o maior interesse dos investidores em infraestrutura e crédito privado.
Em meio a essa reconfiguração, observa-se uma preferência crescente por ativos alternativos, tanto líquidos quanto ilíquidos. No caso do crédito privado, mais da metade dos entrevistados indicou uma visão positiva em relação ao segmento, e 32% planejam ampliar a exposição até 2026 – o maior índice entre todas as alternativas analisadas. Já em infraestrutura, a expectativa é que a participação nos portfólios globais, atualmente próxima de 10%, alcance entre 15% e 20% até 2026.
Esse movimento ajuda a explicar por que infraestrutura e crédito privado já representam entre 15% e 30% das carteiras dos family offices, sinalizando uma migração relevante de recursos antes concentrados em títulos públicos, capital de risco ou private equity. Entre os diferenciais, ganham espaço instrumentos com liquidez intermediária, que oferecem saídas em prazos de três a seis meses, permitindo maior agilidade para lidar com mudanças no cenário econômico.
Na América Latina, embora o nível de conhecimento sobre essas classes ainda esteja em fase de amadurecimento, 46% dos family offices regionais demonstraram intenção de aumentar a alocação em crédito privado e infraestrutura. Esse movimento reforça o interesse por ativos que apresentam retornos diferenciados, inclusive com características semelhantes às de private equity, mas com prazos de retorno mais curtos e previsíveis, além de instrumentos que permitem janelas de liquidez ao longo do investimento – os alternativos semilíquidos.
A diversificação geográfica também ganhou relevância: em âmbito global, 64% dos entrevistados planejam aumentar a exposição a mercados desenvolvidos fora dos Estados Unidos. Na América Latina essa proporção é ainda maior, chegando a 78%. Esse comportamento reflete a percepção de que a concentração excessiva em ativos americanos pode representar riscos relevantes em cenários de maior volatilidade e incerteza. O maior interesse por países como Japão e economias europeias indica uma busca por equilíbrio entre risco, crescimento e novas oportunidades.
Infraestrutura também aparece como um vetor relevante de alocação. A expectativa entre os gestores de fortunas familiares é encerrar 2025 com 10% dos portfólios investidos nesse segmento, conforme mencionado acima. A combinação de retornos robustos e maior previsibilidade em projetos de longo prazo torna essa classe especialmente atrativa, sobretudo em economias emergentes. O deficit global de infraestrutura, alinhado com projetos com retornos atrativos, inclusive próximo aos retornos de private equity, tem feito investidores priorizarem tal classe de ativos.
A transformação observada na forma como os family offices estruturam suas carteiras revela uma mudança profunda de mentalidade. A alocação de recursos passou a considerar não apenas o retorno absoluto, mas também aspectos como liquidez, resiliência e diversificação internacional. Com isso, ativos antes periféricos vêm ganhando protagonismo e a gestão patrimonial evolui para uma abordagem mais integrada e ajustas à nova dinâmica estrutural da economia global.
Mais do que uma resposta tática às incertezas do mercado, trata-se de uma inflexão estratégica rumo a um novo modelo de preservação e crescimento de patrimônio. A convergência entre alternativas líquidas e ilíquidas, a ampliação da exposição global e o foco em classes de ativos mais robustas indicam um caminho claro. Para os single family offices, esse novo paradigma não é mais uma possibilidade futura. É o presente sendo redesenhado.
Cristiano Castro é diretor da BlackRock Brasil
E-mail: blackrock@giusticom.com.br
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Fonte: Valor Econômico
