Há quatro competências profissionais, pelo menos, que as companhias mais procuram ao selecionar novos CEOs. “Visão estratégica, capacidade de execução e entrega de resultados, habilidade de trabalhar em equipe e de influenciar stakeholders, além de saber liderar equipes durante mudanças organizacionais”, detalha Luis Giolo, sócio da Egon Zehnder, uma das cinco maiores empresas de recrutamento de executivos do mundo. “Tudo isso, claro, encaixado à cultura organizacional da contratante.”
Entretanto, de acordo com o especialista, que também é co-líder das práticas de sucessão de CEOs e conselhos da consultoria no Brasil, para que os gestores consigam conduzir os negócios em meio a cenários de incerteza, é preciso uma qualidade a mais: “a mentalidade de liderança expandida”. “O sucesso de um líder não depende apenas do que ele pensa, mas de como pensa”, explica. “Nenhuma metodologia [de gestão] pode promover mudanças se a mentalidade da chefia não for favorável a isso.”
Nessa linha, o especialista sugere um tripé de atributos-chave que podem garantir o sucesso dos CEOs em novas incursões: autoconsciência, habilidades relacionais e adaptabilidade. O executivo deve compreender o impacto de suas ações nos times e na organização, além de encarar o papel [de dirigente] como parte de uma jornada de aprendizado, não como um ponto alto na carreira, orienta. “Muitos líderes enfrentam ainda o que chamamos de ‘déficit relacional’ ou a dificuldade de ouvir e aprender com os outros”, afirma. “Para superar isso, é necessário desenvolver uma relação de confiança com as equipes e o conselho.”
Finalmente, lideranças bem-sucedidas demonstram capacidade de navegar em situações complexas, diz o consultor, que destaca que aumentou, em 2024, na Egon Zehnder, a demanda por ações de aperfeiçoamento de CEOs, como sessões de coaching. “É crucial equilibrar estratégias de curto e longo prazo, e aproveitar os pontos fortes da corporação para impulsionar objetivos.”
Na avaliação de Renata Campos, há um ano na cadeira de CEO Brasil da Eurofarma, empresa do setor de medicamentos presente em 22 países, gestores em transição de carreira devem considerar também as possibilidades de desenvolvimento na nova posição. “É importante questionar como a sua experiência contribui com a evolução da companhia e vice-versa, o que você vai aprender e qual legado deixará”, aconselha.
Especialista afirma que é crucial equilibrar estratégias de curto e longo prazo, e aproveitar os pontos fortes da corporação para impulsionar objetivos. — Foto: Pexels
Campos, que acumula 24 anos de indústria farmacêutica e atuava em Singapura como presidente de mercados emergentes da biofarmacêutica global Takeda antes de chegar à Eurofarma, afirma que considerou um pacote de atrativos para aceitar a convocação. “Foram fatores determinantes as possibilidades de crescimento e o ‘fit’ da empresa com os meus valores”, destaca. Além disso, a oportunidade de voltar ao Brasil e atuar na matriz da companhia coincidiu com um momento pessoal. “Meu filho de dois anos só tinha um quando recebi o convite, o que contou muito na decisão final.”
Para Ricardo Haag, sócio-fundador da Wide, consultoria de recrutamento executivo que registrou em 2024, até outubro, um aumento de mais de 50% na procura por CEOs ante 2023, concorda com a visão de Campos e assegura que as questões pessoais embalam cada vez mais a dança das cadeiras na alta cúpula. “Lembro de um projeto de [recrutamento] recente de um CEO em que a sede da contratante ficava na cidade natal do executivo, onde ele cresceu”, relata. “O gestor contou que costumava andar de bicicleta em volta da empresa. Anos depois, virou um motivo de orgulho ter a oportunidade de presidir a operação que ele conhecia desde criança.”
Fonte: Valor Econômico