Após os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, o medo de uma guerra nuclear pairou sobre o mundo por décadas. Quando fui para a universidade, na década de 80, estudantes faziam passeatas contra a instalação de armas nucleares na Inglaterra. Meus filhos cresceram em uma atmosfera diferente. A ameaça de guerra nuclear recuou com o fim da Guerra Fria.
Mas agora a corrida nuclear voltou com força total. Durante um chá com veteranos militares, Vladimir Putin recentemente se gabou do teste bem-sucedido de um drone subaquático “único no mundo” capaz de carregar uma ogiva nuclear. Depois, Donald Trump anunciou ter decidido retomar testes nucleares dos EUA – o que poderá por um fim a uma moratória de mais de 30 anos.
Foi a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 que trouxe a ameaça nuclear de volta ao centro da política mundial. Desde o início, Putin usou a retórica nuclear belicosa para intimidar o Ocidente. E suas ameaças foram levadas muito a sério. Em um determinado momento no final de 2022, as agências de inteligência dos EUA estimaram em 50% a probabilidade de a Rússia usar armas nucleares táticas no campo de batalha.
Mas, embora Putin seja uma peça central dessa nova história nuclear, há outras tramas secundárias ameaçadoras. Desde 2020, a China mais que dobrou seu arsenal nuclear, para cerca de 600 ogivas – e tudo indica que esse número dobrará na próxima década. O avanço de Pequim é o mais impressionante, mas todos os nove países que possuem armas nucleares – do Reino Unido à Coreia do Norte – estão modernizando e, em muitos casos, ampliando seus arsenais. Enquanto isso, os tratados de controle de armas nucleares vão sendo abandonados um após o outro.
Os defensores do “equilíbrio do terror” poderiam argumentar que esta nova era nuclear não é necessariamente ruim. A Guerra Fria entre a União Soviética e a aliança ocidental nunca chegou a esquentar – em grande parte pelo medo da destruição mútua assegurada.
Os atuais programas de desenvolvimento nuclear são potencialmente ainda mais perigosos que os da Guerra Fria por duas razões principais. A primeira é a crescente ameaça de proliferação nuclear. O ataque de uma Rússia armada com ogivas nucleares a uma Ucrânia desarmada – e a postura ambígua do governo Trump em relação a aliados – colocou a possível aquisição de armas nucleares na pauta de países que temem perder a proteção do guarda-chuva de segurança americano.
Os possíveis novos Estados nucleares incluem Arábia Saudita, Coreia do Sul, Japão e até a Alemanha.
O desenvolvimento da inteligência artificial aumenta os riscos, tornando mais fácil para os países, ou mesmo atores não estatais, desenvolver as armas mais letais do mundo. Também cresce a preocupação com a possibilidade de que sistemas de comando e controle de arsenais nucleares sejam hackeados ou desativados por ataques cibernéticos.
Muita coisa pode depender do desfecho da guerra na Ucrânia.
A Ucrânia agora está sendo incentivada a atacar alvos em território russo usando mísseis e informações de inteligência ocidentais, algo totalmente impensável em 2022. Essa mudança de postura reflete uma convicção crescente de que o limiar para o uso de armas nucleares pela Rússia é muito mais alto do que Putin gostaria que o mundo acreditasse.
Se a Rússia for vencida na Ucrânia, o mundo, que observa atentamente, poderá concluir que as armas nucleares não são tão úteis quanto muitos acreditavam.
Mas se a Rússia acabar derrotando a Ucrânia enquanto o Ocidente permanece à margem, a conclusão dominante poderá ser a de que a simples posse de armas nucleares permite a um país travar uma guerra convencional contra um país que não possui armas nucleares – sem o risco de uma intervenção externa decisiva para conter o agressor. Outros Estados nucleares, como Coreia do Norte e China, provavelmente tomariam nota disso – assim como seus vizinhos não nucleares.
Fonte: Valor Econômico
