Desde a virada do ano, os conflitos geopolíticos voltaram ao centro das discussões nos mercados financeiros, mas gestores veem esse fator mais como pano de fundo do que como o principal motor da recente rotação de portfólios. Tensões envolvendo Venezuela, Groenlândia e Irã dominaram as manchetes em janeiro — um período marcado por maior busca por diversificação. A leitura que predomina, contudo, é a de que o movimento recente reflete, sobretudo, a procura por ativos descontados, diante da percepção de “valuations” esticados nas bolsas americanas em um mundo de maior risco diante do governo de Donald Trump nos Estados Unidos.
“A rotação de portfólios busca por yield [retorno]. É importante separar ruído de sinal e a geopolítica tem sido mais ruído do que sinal”, afirma o diretor de investimentos (CIO) do ASA, Rogério Freitas.
Para ele, embora o chamado “excepcionalismo” americano seja justificável — com empresas dos Estados Unidos ainda exibindo crescimento robusto de lucros e a economia avançando com inflação relativamente controlada —, os investidores podem ter reduzido marginalmente a exposição a ativos americanos após um longo período de desempenho superior.
Essa avaliação é compartilhada pelos ex-diretores do Banco Central Rodrigo Azevedo e Bruno Serra Fernandes, que participaram de um evento promovido pelo USB BB na semana passada. Para eles, a rotação atual está mais ligada ao forte desempenho dos ativos dos EUA no pós-pandemia do que propriamente aos choques geopolíticos recentes.
Apesar de reconhecer que os conflitos associados ao governo de Donald Trump influenciam a realocação de recursos, Azevedo, que é sócio e gestor da Ibiuna Investimentos, ressaltou no evento que o crescimento americano muito acima dos pares do G20 e dos mercados emergentes após 2020 atraiu naturalmente fluxos para os ativos do país — um movimento que agora começa a se reverter parcialmente. “Foi um ‘outperforming’ que atraiu muitos recursos e fez com que o dólar se mobilizasse para cima.”
Nesse contexto, Azevedo lembrou que o investidor global médio já entrou no governo Trump com uma sobrealocação em ativos americanos, o que torna natural um processo de diversificação. “Esse processo de tirar uma parcela [das alocações em ativos] dos EUA está gerando um descolamento de preços gigante, e um dos preços que se move é a moeda”, disse, ao comentar a desvalorização do dólar neste início de ano.
Já Bruno Serra Fernandes, que comanda a família de fundos Janeiro da Itaú Asset Management, deu ênfase aos efeitos econômicos das políticas recentes de Trump complementar sua análise sobre o desempenho recente da economia e dos mercados.
“O choque [das políticas] do Trump causou a redução do crescimento nominal. Os americanos estão pagando a maior parte da conta. Isso reduz o crescimento real do país e o menor volume de migração faz o crescimento nominal diminuir”, afirmou o gestor. “Enquanto isso, o resto do mundo, apesar do choque de tarifas, está se saindo surpreendentemente bem.”
Fonte: Valor Econômico
