Apesar do início de ano conturbado para os mercados de ações, o otimismo com a valorização das bolsas globais segue firme na visão da diretora de investimentos (CIO) para as Américas e chefe global de ações na UBS Global Wealth Management, Ulrike Hoffmann, em entrevista ao Valor durante passagem no Brasil para participar do Latin America Investment Conference (Laic). Apesar do noticiário político e econômico movimentado e dos riscos fiscais, o banco espera um rali difundido entre diferentes setores e geografias neste ano com reflexos no S&P 500, diante da previsão de que o índice fechará o ano em 7,7 mil pontos.
Valor: O que explica o otimismo com os mercados de ações?
Ulrike Hoffmann: Temos uma visão positiva para ações porque mantemos um viés positivo para a economia global. Nos Estados Unidos, temos um duplo motor sustentando o crescimento: tanto a política monetária quanto a política fiscal, o que é algo relativamente raro do ponto de vista histórico. Até agora vimos um rali pouco consistente, mas acreditamos que ele irá se ampliar, o que é bem diferente do que dizíamos no ano passado. Antes, éramos otimistas com ações, mas de forma muito concentrada. Neste ano, vemos uma ampliação entre setores, diferentes geografias e também nas oportunidades estruturais de investimento, como a inteligência artificial (IA). Nos últimos anos, tudo girou em torno de poucas empresas sustentando os mercados acionários, mas acreditamos que agora teremos uma participação maior.
Valor: Devemos esperar, então, um retorno maior do S&P 500?
Hoffmann: Temos um preço-alvo de fim de ano de 7,7 mil pontos. Isso seria um pouco menor do que no ano passado, mas ainda assim consideramos um potencial bastante atrativo, especialmente quando comparamos com a renda fixa, onde temos uma recomendação neutra. Com os rendimentos dos Treasuries dos Estados Unidos em torno de 4% a 5% e a inflação ainda perto de 3%, não há um retorno real muito atraente. Ao mesmo tempo, o forte estímulo fiscal também é um fator de risco para o mercado de Treasuries, já que o endividamento dos EUA, assim como o de muitos outros países ocidentais, está em níveis recordes.
Valor: Isso não pode ameaçar os retornos do mercado de ações?
Hoffmann: É um risco. Se houver algum solavanco, o mercado acionário provavelmente não será resiliente. Por isso, defendemos uma maior diversificação entre geografias, como forma de mitigar riscos. Ainda assim, neste momento, não vemos esse risco como iminente, porque tanto a política monetária quanto a fiscal seguem apoiando o crescimento econômico dos EUA. Acreditamos que pequenos solavancos ou tensões geopolíticas podem, inclusive, representar oportunidades de compra, embora isso possa mudar ao longo do tempo.
Valor: Quais os maiores riscos?
Hoffmann: Em última instância, uma perda de confiança nos Estados Unidos. Se os investidores passarem a duvidar da capacidade do governo americano de honrar sua dívida, isso seria um grande problema, mas não vemos isso ainda. O outro grande ponto é a inteligência artificial, que é a segunda grande área para onde fluiu muito capital. Aqui, o maior risco seria que uma monetização seja muito menor do que esperamos ou o risco de uma mudança fundamental no próprio algoritmo de IA, algo que acreditamos ser subestimado pelo mercado. Se o algoritmo mudar e se tornar mais eficiente, pode haver o risco de um excesso de capacidade computacional em IA, com excedente de oferta de chips e de infraestrutura. Seria algo semelhante ao que aconteceu com a internet nos anos 1990, quando não apenas a demanda pela internet cresceu mais lentamente do que o esperado, como também houve um enorme aumento da oferta. Isso certamente pressionaria o mercado. Qualquer frustração ou retração na demanda seria, portanto, um risco claro para o mercado acionário.
Valor: O risco de bolha na IA pode voltar a preocupar o mercado?
Hoffmann: Bolhas sempre fizeram parte dos mercados financeiros. Na minha visão, há sempre três elementos. O primeiro são condições financeiras frouxas, certamente temos isso hoje, e o segundo é uma narrativa transformacional, o que a IA também preenche. O terceiro ponto, para mim, ainda não está totalmente presente: quando as pessoas compram simplesmente porque o preço está subindo, movidas pelo medo de ficar de fora. Hoje, sinto quase o oposto: a discussão sobre bolha e “valuation” é muito frequente. Onde eu vejo mais características de bolha, e isso é menos visível, é no mercado privado.
Valor: O endividamento das big techs não preocupa?
Hoffmann: O principal foco da temporada de balanços será o desempenho das empresas de tecnologia, especialmente a evolução do capex [investimento em capital] e seu impacto sobre margens e geração de caixa. Apenas gastar mais em capex já não é suficiente para ser recompensado pelo mercado. O que empresas ligadas à IA fizeram recentemente foi não apenas vender produtos de IA, mas também usar esses produtos em benefício próprio para aumentar as margens, apesar do capex elevado. A questão agora é: com o capex ainda mais alto, elas conseguirão repetir isso? Na nossa visão, é muito difícil. As margens podem ficar um pouco estagnadas por um período antes de voltar a subir. Esse continua sendo o principal risco para os ‘hyperscalers’ de IA.
Valor: A volatilidade deste começo de ano deve continuar?
Hoffmann: Acho que sim. O ano passado foi bastante intenso, mas não me surpreenderia se este ano fosse ainda mais. Uma dimensão que precisamos considerar são as eleições de meio de mandato nos EUA. Já nos primeiros dias do ano, ficou claro que o mercado tende a reagir de forma significativa às políticas associadas a este ciclo político do presidente Trump. Na nossa visão, esse conjunto de políticas deve ter como foco a acessibilidade. Não nos surpreenderia ver um aumento das iniciativas voltadas a apoiar consumidores de baixa e média renda nos próximos meses. Esse foi um dos motivos pelos quais elevamos a recomendação para o setor de consumo discricionário.
Valor: E como vocês pretendem navegar por essa turbulência?
Hoffmann: Acho que essas correções motivadas por fatores políticos representam oportunidades para aumentar a exposição a ações, especialmente se as carteiras estiverem muito concentradas. Isso vale geograficamente, setorialmente e também de forma estrutural. Essa é a nossa recomendação: permanecer em ações. Continuamos recomendando ouro também. Ele tem sido uma boa proteção geopolítica e nossa visão é que o dólar pode se enfraquecer este ano.
Fonte: Valor Econômico
