Após três anos de saques gigantes nos fundos de maior volatilidade, como os de ações e multimercados, ainda não dá para enxergar uma virada desse cenário, segundo Carlos André, presidente da Anbima. Em contrapartida, as carteiras de renda fixa têm captações expressivas e o cenário de busca por retornos extras em crédito privado ajudou a desenvolver o mercado de capitais, avaliou.
Para o executivo, o que fez com que o dinheiro saísse dos fundos mais arriscados foi menos o apelo tributário e mais a potencialização do retorno que o prêmio em cima de uma Selic em dois dígitos proporciona ao investidor.
“O principal fator é ter um instrumento com rentabilidade bastante alta. E que tem um fator adicional, que é a isenção tributária”, comentou.
Ele lembrou que houve redução de disponibilidade desses ativos, na média, porque o Conselho Monetário Nacional (CMN) impôs restrições a lastros para emissão de certificados e letras de crédito imobiliário e do agronegócio (CRI, CRA, LCI, LCA). O efeito colateral foi acelerar outras linhas de negócio, como os próprios fundos com debêntures incentivadas e as carteiras administradas de títulos com vantagem tributária.
Nos últimos três anos, os multimercados tiveram resgates líquidos de R$ 623,7 bilhões, enquanto os de ações perderam R$ 34,9 bilhões. Em 2022 e 2023, a renda fixa também teve o seu freio, com saídas de R$ 102,7 bilhões para no ano passado atrair R$ 243 bilhões.
Pauta antiga da entidade, o fim da assimetria entre instrumentos financeiros, por ora, não está na pauta, afirmou André. “Principiologicamente, a gente acha que redução de assimetrias de tratamento tributário tendem a ser saudáveis para o mercado”, afirmou. “Tratamento tributário é uma ferramenta de governo, não só para o mercado financeiro.”
O que é preciso ponderar e traz preocupações é “se determinadas assimetrias, de fato, influenciam na tomada de decisão do investidor e se tornam, talvez, um dos principais catalisadores para onde o dinheiro vai”, disse.
Com mais de 1.100 gestoras de recursos no Brasil, a direção da Anbima considera normal que as casas busquem complementariedades, seja criando novas áreas seja buscando alguma consolidação via fusões ou aquisições. Apesar disso, novas gestoras continuam a surgir em nichos de mercado.
A performance dos fundos de ações e multimercados também foi crucial para o encolhimento dessas classes, num cenário que foi mais volátil no Brasil e no exterior. O fim do diferimento tributário em fundos fechados exclusivos e restritos, com a incidência do come-cotas, o imposto semestral para carteiras de renda fixa e multimercados, coincidiu com essa fase mais desfavorável.
O que a Anbima colocou na mesa junto com outras entidades é nova regra da reforma de tributária no que diz respeito à tributação do consumo, o IBS e o CBS, atuando para que o Legislativo derrube o veto do presidente Lula. “Como a gente defendia e o texto original trazia uma interpretação de que fundos de investimento na prática não são sujeitos à tributação. E acabou que esse item foi vetado pelo Executivo. A nossa expectativa é ter o Parlamento atuando no sentido de derrubar esses vetos.”
Nos seus fóruns de discussão, a Anbima também estuda como apoiar a indústria para que consiga ter resiliência enquanto esse cenário de reversão do ciclo de alta de juros ou de volta de fluxo de investidores não ocorre. Também avalia iniciativas para melhorar a conscientização sobre o setor.
“Há um espaço gigante para melhorar o conhecimento mínimo que o público em geral tem em relação ao funcionamento da indústria, os benefícios de ter um gestor profissional cuidando do seu recurso”, disse André.
Fonte: Valor Econômico


