15 May 2023 JENNE ANDRADE
Em 2021, a respeitada Verde Asset chegou ao pico histórico no número de cotistas e ativos sob gestão. Com um patrimônio de R$ 52,4 bilhões e 44,5 mil investidores nos fundos, a gestora era a quinta maior do País fora do universo dos cinco principais bancos de varejo.
Entre dezembro de 2021 e abril de 2023, entretanto, a Verde perdeu R$ 24 bilhões em ativos sob gestão e viu a evasão de 20,3 mil cotistas. O levantamento do histórico de patrimônio foi realizado por Filipe Ferreira, diretor financeiro da ComDinheiro, enquanto os dados sobre o número de cotistas foram obtidos por Einar Rivero, do TradeMap.
Levando em conta os dados de abril de 2023, a gestora de Luis Stuhlberger conta com 24,2 mil cotistas e tem um patrimônio total de R$ 28,1 bilhões. A queda recente fez a Asset perder 14 posições no ranking das maiores do Brasil.
Até o final de 2021, concorrentes como Absolute Gestão, Ibiuna, Opportunity, Western Asset, Julius Baer, Legacy Capital, Icatu, Kinea e SPX, olhavam a Verde de baixo para cima. Hoje, passaram à frente, com alguns bilhões a mais sob gestão.
Certamente, parte do montante perdido pela Verde Asset foi direcionado para a renda fixa. Entre março de 2021 e agosto de 2022, a taxa básica de juros (Selic) saiu de 2% para os atuais 13,75% ao ano. O juro de dois dígitos impulsiona os rendimentos dos ativos conservadores e afasta os investidores da renda variável.
Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os fundos multimercados registraram saída líquida de R$ 87,6 bilhões no ano passado.
Em um horizonte de curto prazo, a rentabilidade de alguns dos produtos mais proeminentes da Verde não bate o CDI. O Verde FIC FIM, o carro-chefe da casa, acumula retorno de 82% do CDI entre janeiro de 2021 e março deste ano.
O Verde AM Scena, que concentra a maior quantidade de cotistas (8,2 mil), também perde para o CDI no intervalo: a rentabilidade do fundo é de 8,07% contra um CDI de 21,13% no período. Em paralelo, fundos multimercados de gestoras concorrentes, que ultrapassaram os ativos sob gestão da Verde Asset, entregaram retornos superiores a 150% do CDI nessa mesma janela.
“Tentamos sempre passar a ideia de um longo prazo, de dar tempo ao tempo, dar a chance do trabalho ser feito. Mas a decisão é sempre do investidor”, diz Guilherme Martins, head de alocação do escritório Teros Investimentos.
Resgatar dinheiro de um fundo com um histórico excelente em função de um momento pouco favorável, sem mudanças relevantes na gestão, pode não ser o melhor caminho para o investidor. De janeiro de 1997 a abril de 2023, o fundo Verde acumula um retorno de incríveis 21.842,30%, ou seja, uma rentabilidade oito vezes maior do que o CDI (Certificado de Depósito Interbancário) do período.
“Um multimercado jamais deveria ser julgado por uma janela única de tempo ou pela saída de cotistas. Na janela móvel de três anos, o Verde quase nunca perdeu pro CDI”, afirma Luciana Seabra, CEO da Indê Investimentos e colunista do E-Investidor. “Você não deveria retirar da carteira a aplicação porque talvez aquele fundo só esteja no ponto baixo do ciclo para aquele tipo de estratégia, como é o caso do Verde.”
Fora a questão macroeconômica e de rentabilidade, um terceiro fator pode entrar nessa equação. Um gestor, que não quis se identificar, apontou que pode haver uma diferença considerável de remuneração aos assessores pela indicação de diferentes fundos de investimento e produtos financeiros.
“É importante considerar a questão de incentivo, do quanto a Verde paga para ter o seu fundo vendido versus quanto o assessor recebe para vender um outro produto”, afirma o gestor. “Outros produtos, por exemplo, pagam até 3% de comissão, enquanto o fundo da Verde, na melhor das hipóteses, vai pagar 0,5%.”
A estrutura de incentivos também foi citada por outros gestores ouvidos pela reportagem. Procurada, a Verde Asset não respondeu os questionamentos do E-Investidor.
Recomendação Resgatar dinheiro de um fundo com um histórico excelente pode não ser o melhor caminho
Fonte: O Estado de S. Paulo


