Por Fernanda Guimarães e Mônica Scaramuzzo — De São Paulo
03/04/2023 05h04 Atualizado há 6 horas
Acionistas de companhias listadas em bolsa estão buscando liquidez para seus papéis com a venda de ações em bloco na B3, operação conhecida no mercado como “block trade”. Só neste ano, foram sete transações desse tipo, com negócios envolvendo papéis da PetroRecôncavo, Inter, Raízen, M. Dias Branco, GPS, Vivara e Smartfit, e movimentação financeira de R$ 2,58 bilhões.
Com muita discrição, para evitar vazamentos de informações no mercado, as vendas de ações em bloco – feitas por meio de leilão no ambiente de bolsa de valores – estão marcando presença no mercado brasileiro mesmo com a volatilidade que tem afastado as tradicionais ofertas de ações.
Neste ano, apenas uma oferta subsequente de ações foi realizada na bolsa – o grupo francês Casino embolsou cerca de R$ 4 bilhões com a venda do atacarejo Assaí. As empresas de saúde Dasa e Hapvida devem fazer “follow-ons” nos próximos dias. Todas essas ofertas, contudo, têm por trás a necessidade de caixa, ou do controlador, caso do Casino, ou das próprias empresas.
A seca no mercado de capitais tem levado acionistas de companhias abertas a buscar saída pela venda de seus papéis em bloco, sobretudo os fundos de “private equity” que querem se desfazer de participação de projetos mais maduros. Foi o caso de Warburg Pincus na venda da sua fatia no grupo GPS este ano e do Gávea na mesma empresa, ano passado. Na rede Smartfit, o Pátria também vendeu uma parte de sua fatia. Esses fundos costumam utilizar esse instrumento na fase final de desinvestimento, momento em que há apenas uma participação remanescente na companhia investida.
Um dos grandes atrativos é que esse tipo de transação pode ser rapidamente colocada na rua. Quando um banco de investimento, por exemplo, recebe uma sondagem de um acionista para vender um bloco de ações de determinada companhia, primeiro se observa a liquidez diária do papel, parâmetro importante para saber se será possível encontrar demanda a um determinado volume de ações no mercado.
Identificada essa premissa inicial, é formado um comitê para analisar o perfil da movimentação diária dessas ações e se há uma frequência de grupo de investidores institucionais que compram e vendem o papel, algo fundamental para conseguir dar vazão a uma operação de grande porte. Faz parte da análise a leitura de que há, por exemplo, fundos com interesse em ampliar participação na empresa.
Com essa demanda identificada, acionista e banco contratado definem o preço que a ação vai ser vendida em relação ao valor de tela. Se no leilão a ação fica a um valor abaixo, o banco garante o preço acertado com o vendedor. Se ficar acima, se divide essa “gordura”. No “block trade”, diferentemente de uma oferta de ação, o acionista já sabe, antes da operação, quanto vai embolsar na transação.
“Esse tipo de transação está cada vez mais comum na bolsa brasileira por causa da maior maturidade do mercado”, diz Bruno Saraiva, corresponsável pelo banco de investimento do Bank of America. “Há dez anos, esse tipo de operação não acontecia no mercado brasileiro. Quanto mais liquidez há no mercado, mais participantes, fundos de private equity, mais se tem block trade”, comenta.
Até aqui, o maior block trade da história do mercado brasileiro foi a venda em 2020 de uma participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na Vale, em uma transação que somou R$ 8 bilhões. Pelas proporções bilionárias e pelo simbolismo envolvido, esse foi um dos blocos que deixou mais em evidência esse tipo de operação por aqui.
De 2020 até março deste ano, foram 47 transações, movimentando cerca de R$ 45 bilhões em vendas de ações em bloco.
Segundo o executivo do Bank of America, a tendência é a de que o número de transações de block trade siga em crescimento no Brasil, a exemplo dos Estados Unidos, onde o total de operações desse tipo supera o número de “follow-ons”. Por lá, no entanto, ao contrário do mercado brasileiro, são permitidas operações primárias, ou seja, que injetam capital no caixa da empresa. “Se por aqui tiver essa permissão, haverá uma disparada de operações”, diz Saraiva.
Hoje a Lei das S.A. no Brasil estabelece que uma emissão primária exige direito de preferência aos atuais acionistas, modelo incompatível com o block trade, mas sim com os follow-ons.
Como os bancos tomam risco nesse tipo de operação, já que um preço é fechado junto ao vendedor, a ideia é sempre fazer uma operação na menor janela de tempo possível. Quando o acionista vendedor não é o controlador, é possível vender uma fatia maior em um leilão de uma hora, seguindo as regras do regulador.
“Alguns investidores com participações menores têm utilizado a ferramenta do block trade para monetizar participações. Essas operações devem continuar acontecendo”, afirma o chefe global do banco de investimento do Itaú BBA, Roderick Greenless. Segundo ele, uma das principais vantagens do block trade em relação a vendas graduais feitas na bolsa é que, dependendo da liquidez da empresa, é possível vender um volume grande de ações em um único pregão.
O responsável pela área de mercado de capitais e renda variável do Citi, Marcelo Millen, explica que a pouca exposição do block trade ao mercado, já que é uma operação mais fácil de ser executada, acaba encontrando espaço para ocorrer apesar da maior volatilidade do mercado, ao contrário das ofertas públicas, que precisam de mais tempo para serem operacionalizadas. “Uma transação com uma execução maior precisa de um mercado menos volátil”, diz.
Fonte: Valor Econômico


