Por Júlia Lewgoy, Valor Investe — São Paulo
27/10/2023 06h00 Atualizado há 3 horas
Alguns fundos de ações bateram com folga o Ibovespa de janeiro a setembro, apesar de ser um ano complexo para os mercados . Os gestores desses produtos acertaram atentos a boas companhias que investem há tempos e à caça de descontos nos preços. É assim que eles estão conseguindo navegar em meio à onda de aversão a risco que fez o índice registrar perdas nos últimos meses.
Os fundos de ações chegaram a acumular altas ao redor de 40% em casas como a Organon Capital e a Tarpon Capital, 30% em gestoras como a Guepardo Investimentos e a Alaska Asset Management e 20% em casas como a 4UM Investimentos e a Squadra Investimentos nos primeiros nove meses deste ano. É bem mais que o Ibovespa, que avançou 6% nesse intervalo.
O estudo dos fundos de ações mais rentáveis nesse período foi elaborado por Marcelo d’Agosto, consultor financeiro responsável pelo Guia de Fundos do Valor e blogueiro do Valor Investe, com base em dados da plataforma Morningstar.
Melhores fundos de ações do ano

*Os fundos da lista estão efetivamente disponíveis para os investidores em bancos e corretoras e possuem histórico de pelo menos 12 meses, patrimônio líquido acima de R$ 50 milhões e pelo menos 100 cotistas. Fundos espelhos, que espelham outros fundos de investimentos, foram excluídos dos rankings.
É bom lembrar que até os melhores produtos podem sofrer altas e baixas, o que é importante para o investidor mais conservador ponderar na hora de escolher entrar. Além disso, embora esta lista seja sobre o rendimento de janeiro a setembro, para explicar aos leitores o que aconteceu nos primeiros nove meses deste ano, é aconselhável que o desempenho dos fundos de ações seja avaliado em janelas mais longas.
O ano da bolsa lembra uma montanha-russa. O Ibovespa começou devagar e depois acelerou com a expectativa de redução da Selic, acumulando alta de 8% no primeiro semestre. O avanço, contudo, desacelerou para 3% até ontem diante de diferentes obstáculos. Os mais recentes são o rali dos juros americanos e a eclosão da guerra entre o Hamas e Israel.
O diferencial dos melhores
A Organon Capital, casa criada em 2020 com R$ 451 milhões sob gestão, é a dona do fundo de ação mais rentável de janeiro a setembro. A gestora afirma que é “agnóstica” quanto a fatores macroeconômicos e entende primeiro a companhia, depois o setor e só então vê toda a economia.
Um dos pilares dos seus investimentos é a exposição a empresas que estão passando por um desvio no seu ciclo de negócio. “Acreditamos que, no longo prazo, a volatilidade pode ser positiva para o investidor de bolsa, pois viabiliza a aquisição de empresas por preços que não refletem o valor intrínseco dos ativos”, diz, em sua carta mais recente.
A carteira costuma ter de 15 a 20 ações, mudadas mais ou menos a cada três anos apenas. A Organon acertou comprando especialmente os papéis da Valid e da Marcopolo, que atravessaram difíceis momentos recentemente.
“Gostamos de comprar empresas que estão melhorando e as ações não estão embutindo essa melhora no preço. Apesar de serem de setores totalmente diferentes, essas duas companhias apresentaram balanços muito melhores do que há dois anos”, afirma Raphael Maia, sócio-fundador e diretor de investimentos da Organon.
“Além disso, é comum que as empresas não sejam tão conhecidas pelo mercado. Os investidores não estão dedicando muito tempo a entender essas empresas, o que gera uma oportunidade”, diz. Outros papéis que estão no portfólio são Tupy, OceanPact e Iguatemi.
Já a Guepardo Investimentos, casa criada em 2004 com R$ 3,3 bilhões sob gestão, é a dona do terceiro fundo de ação mais rentável nos primeiros nove meses deste ano. A gestora afirma que a melhor maneira de multiplicar o capital é comprando poucas e boas companhias.
“Nos beneficiamos pelo fato do mercado possuir uma grande impaciência e volatilidade. Isso nos gera oportunidades de tempos em tempos, quando ruídos e narrativas se sobrepõem aos fatos que ocorrem dentro das companhias, fazendo com que o preço se torne o melhor gatilho para efetuarmos boas aquisições”, diz, em sua carta mais recente.
Roberto Esteves, responsável pelas relações com investidores da Guepardo, afirma que o tempo é o grande aliado da casa. Em 22 anos, a gestora passou por diversas crises e o fundo chegou a cair 40% várias vezes, mas sempre se recuperou. “Nessas horas, é bom contar com a disciplina. São esses momentos que geram maravilhosas oportunidades de comprar empresas excelentes, descontadas devido ao mau humor do mercado”, diz.
A carteira costuma ter de 11 a 14 ações, mudadas mais ou menos a cada três anos. As ações que ajudaram o fundo a chamar a atenção foram principalmente Vulcabras, Klabin, Ultrapar e Itaú. “Temos um limite de empresas na carteira, assim comparamos uma empresa com a outra e apenas contamos com o ‘créme de la crème’”, afirma Esteves.
Outro fundo de ações que se destacou foi da Alaska Asset Management, casa criada em 2015 com R$ 8 bilhões sob gestão. O fundo Alaska Black II BDR chegou a desabar 45% no ano de 2020, com a crise do coronavírus, e ainda não alcançou o pico de dezembro de 2019, mas está se recuperando.
A alocação em ações ligadas a commodities como a Petrobras, um movimento iniciado no fim de 2020 e que continua até hoje, foi o principal contribuidor para o desempenho da carteira nos primeiros nove meses deste ano.
Fundos long biased
Existe também uma classe de fundos chamada de long biased, que aposta não apenas na alta das ações, mas também na baixa em alguns cenários. É uma estratégia para minimizar os recuos em ambientes de baixa da bolsa. Esses produtos renderam até 35% de janeiro a setembro, acima do Ibovespa também, conforme o estudo feito por Marcelo d’Agosto.
Melhores fundos long biased do ano

Fonte: Valor Investe