Por Lucianne Carneiro e Marta Watanabe — Do Rio e de São Paulo
14/04/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
O varejo ganhou fôlego no início de 2022, com um crescimento acumulado de 3% nos dois primeiros meses do ano, mas o resultado reflete principalmente uma base de comparação baixa após um segundo semestre de 2021 fraco. O bom desempenho de fevereiro no varejo restrito, com alta de 1,1% frente a janeiro se deu antes do início da guerra na Ucrânia, que aumentou a incerteza e os riscos para a inflação, apontam especialistas. Para 2022, ainda vão pesar para o comércio indicadores como juros altos e renda comprimida, além da maior pressão inflacionária, ressaltam economistas.
O crescimento de fevereiro foi o segundo seguido do varejo restrito, que não inclui veículos nem material de construção. Em janeiro, o aumento tinha sido de 2,1% (revisado a partir de variação inicial de 0,8%), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com isso, o varejo restrito voltou a ficar acima do patamar pré-pandemia (1,2%), em fevereiro de 2020, mas ainda 4,9% abaixo do observado no pico da série histórica da pesquisa, em outubro de 2020, quando o setor vinha de trajetória de recuperação expressiva a partir de julho daquele ano. No conceito ampliado, que incluem vendas de veículos e de material de construção, a expansão foi de 2% em fevereiro, ante janeiro.
A despeito dessa reação mais recente, o comércio não recuperou nem mesmo as perdas dos últimos meses. Entre agosto e dezembro de 2021, a queda acumulada do varejo restrito foi de 7,2%. Ou seja, o ganho acumulado de 3% em janeiro e fevereiro ainda não foi suficiente para compensar essa retração do segundo semestre do ano passado.
Em fevereiro, a principal influência veio dos combustíveis, com alta de 5,3% das vendas, enquanto a receita das empresas do segmento avançou 3,2%. O gerente da Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE, Cristiano Santos, apontou ainda o efeito do setor de supermercados (alta de 1,1%) por causa do seu peso – responde por quase metade (49,6%) do varejo restrito) – e também uma estratégia de empresas de alguns setores de promoverem promoções para atrair o consumidor, como tecidos, vestuário e calçados, móveis e eletrodomésticos e outros artigos de uso pessoal e doméstico, após um segundo semestre fraco.
Com este contexto, analistas apontam que, apesar da boa notícia, não se alteram as perspectivas para o ano. “O cenário macroeconômico não permite esperar que essas duas altas sejam tendência para os próximos meses. O consumidor tem muita cautela, o poder de compra está baixo e esse conjunto de fatores deve ditar o ritmo da recuperação do comércio”, disse o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) Rodolpho Tobler, apontando que os resultados positivos do volume de vendas do varejo no início de 2022 representam mais uma recomposição da perda ao fim de 2021 e devem ser vistos com cautela.
Outro ponto de destaque é que os resultados de janeiro e fevereiro, diz ele, são predominantemente anteriores à deflagração da guerra na Ucrânia, que aumentou o nível de incerteza e também há os riscos de efeitos em preços, aumentando o desafio de controle da inflação.
Na avaliação do economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, a despeito da surpresa positiva neste início de ano, o varejo ainda deve enfrentar os efeitos da perda de renda, inflação e alta de juros em 2022. O varejo como um todo, segundo ele, tende a sofrer mais claramente a partir do segundo trimestre os efeitos da reorganização das famílias e da mudança de padrão de consumo resultante do cenário macroeconômico, com aceleração da inflação e perspectiva de alta maior de juros.
O impacto negativo desses fatores também é ressaltado pelo economista da XP Rodolfo Margato, que cita inflação, condições monetárias mais apertadas, salários reais deprimidos e elevação do endividamento das famílias como “ventos contrários significativos” para o varejo no ano. A curto prazo, ele pondera que novas medidas de estímulo anunciadas pelo governo, como a liberação de saques do FGTS, deve contribuir para a sustentação do consumo privado.
Fonte: Valor Econômico