Brasil é o primeiro país no mundo a oferecer o imunizante no sistema público de Saúde
Por Victoria Nogueira Rosa*, Valor — São Paulo
A vacina Qdenga, que protege contra o vírus da dengue, foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). A população terá acesso gratuito ao imunizante, que, no primeiro momento, será disponibilizada para o público e regiões considerados prioritários a partir de fevereiro. O Brasil é o primeiro país no mundo a oferecer o imunizante no sistema público universal.
O Brasil registrou 1.601.848 casos de dengue até novembro de 2023, segundo dados do Ministério da Saúde. O número é 15,8% superior ao do mesmo período de 2022 (1.382.665). Quanto às mortes por dengue, foram 1.053 em novembro — um aumento de 5,4% em relação ao mesmo período de 2022. Apesar disso, a taxa de letalidade teve redução de 13%, passando de 0,072% em 2022 para 0,065% no ano passado.
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Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a vacina Qdenga é recomendada para as pessoas de 4 a 60 anos. São duas doses, com intervalo de três meses, administrada via cutânea. Todas as pessoas vão poder receber a vacina, mesmo aquelas que já tiveram dengue.
Ainda de acordo com a agência reguladora, que aprovou o registro da vacina em março do ano passado, a Qdenga apresentou eficácia de 66,2% nos testes aplicados no público que nunca foi diagnosticado com a doença. Entre aqueles que já foram, o percentual de eficácia foi de 76,1%.
Como a Qdenga age no corpo?
Em entrevista ao Valor, Diego Allonso, professor da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta que, antes de entender o modo como a vacina age no corpo, é importante destacar que existem quatro sorotipos diferentes do vírus da dengue.
“Existem 4 sorotipos distintos do vírus da dengue (DENV1-4). Ou seja, apesar de todos serem o vírus da dengue, eles apresentam algumas diferenças moleculares que os distinguem entre si. Essas desigualdades estão associadas a diferenças no processo infeccioso e consequentemente nos sintomas e gravidade da doença, como também na forma como nosso sistema imunológico reage contra o vírus”.
O especialista acrescenta que “quando somos infectados com um sorotipo do vírus da dengue, desenvolvemos anticorpos neutralizantes [resposta imunológica] contra esse sorotipo para o resto da vida. Esses anticorpos neutralizantes, como o próprio nome diz, são capazes de neutralizar o vírus e com isso impedir que ele se espalhe pelo corpo e cause a doença. No entanto, ao sermos infectados por um vírus da dengue de outro sorotipo, o nosso sistema imune é capaz de reconhecer esse novo vírus. Porém, os anticorpos produzidos durante a primeira infecção não são capazes de neutralizá-lo. Portanto, a resposta imunológica é ineficiente e isso possibilita que o vírus atue de forma mais agressiva, resultando em sintomas mais graves, como, por exemplo, hemorragia e, no caso mais grave, a síndrome do choque, que costuma ser fatal”.
Ele completa que “a vacina contra a dengue visa justamente induzir a produção de anticorpos neutralizantes contra o vírus, de modo que, ao ser infectado com o vírus da dengue, rapidamente nosso sistema imune o reconhece e o neutraliza, impedindo que ele se replique e se espalhe pelo organismo, impedindo, consequentemente, a doença. A Qdenga é uma vacina baseada em vírus atenuados, a mesma tecnologia da vacina que usamos há anos contra a febre amarela, e é tetravalente, ou seja, capaz de induzir anticorpos neutralizantes contra os quatro sorotipos do vírus da dengue”.
Vale destacar que a proteção da Qdenga está restrita à dengue. Portanto, ela não atua contra outras doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, como zika, febre amarela e chikungunya.
“Todas as vacinas são específicas. São vírus diferentes. Quando uma vacina é feita são selecionados os antígenos daquele vírus que são capazes de desencadear a resposta. Ou seja, as proteínas do vírus da dengue que têm uma boa resposta de anticorpo, de proteção, são selecionadas para fazer o vírus atenuado, enfraquecido. Então, os anticorpos são direcionados para essas estruturas específicas. Não vai funcionar para chikungunya, febre amarela ou zika” explicou Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) em entrevista ao Valor.
Quando começa a vacinação?
Dourados, no Mato Grosso do Sul, foi a primeira cidade brasileira a iniciar a vacinação. A escolha do município para começar a proteção se deu após uma parceria entre a Secretaria de Saúde local e o laboratório japonês Takeda, responsável pela fabricação da vacina. Por conta disso, o acesso do município ao imunizante foi antecipado.
No restante do Brasil, o Ministério da Saúde prevê que a vacinação comece a partir de fevereiro, com calendário a ser divulgado. Apesar disso, no primeiro momento, a imunização não será em larga escala. Mas sim, para o público e regiões considerados prioritários.
Isso porque, de acordo com a pasta, o Takeda afirmou ter uma capacidade restrita de fornecimento da Qdenga. Um cronograma de entrega dos imunizantes já foi definido pelo laboratório. Ao todo, a previsão é de que 5,082 milhões de doses sejam fornecidas em 2024, seguindo o fluxo abaixo.
- Fevereiro: 460 mil doses;
- Março: 470 mil doses;
- Maio: 1,6 milhão;
- Agosto: 1,6 milhão;
- Setembro: 431 mil;
- Novembro: 421 mil.
Ao Valor, o Ministério informou que está trabalhando, junto com os municípios, para fixar quais são as regiões prioritárias e o número de doses que devem ser enviadas para cada local. A definição deve acontecer ainda em janeiro, de acordo com a pasta. Em relação ao custo de cada dose, a entidade diz que, durante as negociações com o fabricante, foi obtida uma redução de 44% no custo por dose, passando da oferta inicial de R$ 170 para R$ 95.
Quais são os sintomas da dengue e como se prevenir?
Os principais sintomas da dengue são:
- Febre acima de 38ºC;
- Mal-estar;
- Manchas vermelhas no corpo;
- Dor nos olhos;
- Dor no corpo e articulações;
- Dor de cabeça;
- Falta de apetite.
O Ministério da Saúde recomenda que a população siga alguns cuidados para impedir a proliferação do Aedes aegypti, que se reproduz na água parada. São eles:
- Não acumular água em lajes ou calhas
- Evitar o acúmulo de itens sem serventia;
- Não estocar pneus em áreas descobertas;
- Colocar areia nos vasos de planta e cobrir bem tonéis e caixas d’água;
- Receber a visita dos agentes de saúde.
Perguntado sobre os riscos de sequelas, Allonso destaca que “os relatos de sequelas duradouras após a infecção por dengue são muito raras. O grande perigo da dengue é ser infectado mais de uma vez por vírus de sorotipos diferentes. A segunda infecção pode induzir um fenômeno chamado de tempestade de citocinas, que basicamente é a indução de um processo inflamatório agudo de alta intensidade que afeta o funcionamento do organismo como um todo, podendo resultar em eventos de hemorragia grave e choque hipovolêmico”.
Apesar disso, o especialista ressalta que “uma vez identificando os sinais de gravidade da dengue, com manejo clínico adequado, o paciente pode ser curado”.
Fui diagnosticado com dengue. Posso tomar dipirona?
O professor Diego Allonso destaca que não existe um medicamento antiviral específico para a dengue. A melhor forma de tratar a dengue, segundo o especialista, é fazendo repouso durante o período sintomático, mantendo a hidratação. O uso de dipirona e/ou paracetamol é indicado no caso de febre alta e dores no corpo.
“A febre alta e as dores no corpo costumam ser fortes e gerar um grande incômodo ao indivíduo. Nesses casos, o que costumamos fazer é tratar os sintomas febris e a dor. Neste caso, o uso da dipirona e/ou paracetamol é indicado. O que não deve ser administrado em hipótese alguma em pacientes com dengue são medicamentos contendo ácido acetilsalicílico na composição”.
*Estagiária sob supervisão de Diogo Max
Fonte: Valor Econômico