A União Europeia (UE) entrou nesta quarta-feira (12) na guerra comercial global de veículos elétricos (VEs), ao anunciar que vai aumentar as tarifas sobre os veículos importados da China para até 48%. Em argumento semelhante ao que os EUA vem usando há meses, a Comissão Europeia prometeu proteger uma indústria fundamental do que considera ser subsídios ilegais.
Só que o bloco europeu precisa de mais VEs, e mais baratos. A decisão da Comissão Europeia vai manter os preços mais altos por mais tempo e funcionará como um impedimento às vendas.
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As reações foram rápidas: isso não ajuda na redução dos altos preços dos VEs e poderá prejudicar as empresas nacionais como a Volkswagen (VW) e a Renault, já que a China ameaça retaliar.
“Proteger as montadoras da concorrência e impedir os consumidores de ter acesso a VEs a preços acessíveis hoje, não os ajudará a cumprir suas metas climáticas, nem ajudará a suas indústrias nacionais”, disse Aleksandra O’Donovan, da equipe de análise de Transporte Eletrificado da BloombergNEF. “No momento, parece que as metas de descarbonização podem não ser uma prioridade.”
Os ambiciosos objetivos verdes da Europa, de eliminar as vendas de novos veículos a gasolina até 2035 já estavam sob pressão. Após um forte crescimento, os VEs continuam caros demais para o consumidor médio, de Berlim à Bulgária. Companhias chinesas lideradas pela BYD e SAIC Motor , vêm se preparando para importações mais baratas, mas com as sobretaxas, continuarão fora do alcance por mais tempo para muitos potenciais compradores.
Em seu relatório anual Electric Vehicle Outlook, divulgado ontem, a BloombergNEF reduziu sua previsão de vendas globais de VEs em 6,7 milhões até 2026, estimando um aumento mais lento do que o previsto há um ano. Alguns países nórdicos e o Estado da Califórnia são os únicos locais que caminham para a eliminação das emissões das frotas de veículos de passageiros até 2050, disse a BNEF.
As sobretaxas da UE provavelmente reduzirão as importações da China em 25%, ou US$ 4 bilhões em automóveis, segundo o Kiel Institute for the World Economy da Alemanha. A SAIC deverá ser a mais atingida, depois que a UE considerou a empresa estatal não cooperante na sua investigação. A montadora começou a embarcar seus modelos elétricos para a Europa há cinco anos e conquistou o mercado com modelos a preços relativamente acessíveis, como seu sedan MG4 vendido por 34.990.
O esforço da BYD para vender o seu carro urbano de baixo custo Seagull na Europa já no final de 2025 por menos de 20 mil também pode estar agora em risco.
O impacto não está limitado às montadoras chinesas. Embora quase um quinto dos VEs vendidos na UE no ano passado tenham sido fabricados na China, as vendas são dominadas pela Tesla, que importa os sedans Model 3 de Xangai. A participação deverá aumentar para 25% este ano, segundo o grupo lobista Transport & Environment, com BMW, Volvo e Renault também vendendo números significativos de veículos.
Estas montadoras também terão de pagar, com aquelas que cooperarem com a investigação sujeitas a uma sobretaxa de 21%, a partir de 4 de julho. A Tesla e outras poderão ter uma sobreta com base em fatores individuais.
“Essa decisão de tarifa adicional de importação é o caminho errado a seguir”, disse Oliver Zipse, presidente-executivo da BMW, em um comunicado. “O protecionismo poderá dar início a uma espiral: tarifas levam a novas tarifas, mais ao isolamento do que à cooperação.”
A China ameaçou retaliar na agricultura, aviação e automóveis com grandes motores, dizendo estar profundamente desapontada e que se opõe veementemente às medidas relacionadas aos VEs.
Mesmo assim, Pequim provavelmente tomará o cuidado de manter o acesso ao mercado europeu, que é um destino lucrativo de suas exportações. Internamente, fabricantes de VEs como a Nio e a Xpeng sofrem com prejuízos em meio a um excesso de capacidade de produção significativo.
“É mais provável que o anúncio de hoje acelere o movimento de fabricantes chineses e seus fornecedores de produzir seus produtos dentro da Europa — algo que já começamos a ver”, disse Andrew Bergbaum, da consultoria AlixPartners.
Por hora, as sobretaxas da UE são provisórias, sinalizando que poderá ajustar o rumo antes do prazo final de 4 de novembro, se novas discussões resultarem num acordo. A virada do bloco para a direita política após as eleições parlamentares do fim de semana também poderá alterar o curso dos acontecimentos.
“Existe agora uma oportunidade para tentar e, esperançosamente, conseguir parar essa espiral que é ameaçadora”, disse o ministro da Economia da Alemanha, Robert Habeck. “Se entrarmos em uma guerra tarifária com a China, então estaremos jogando fora o bebê junto com a água do banho.”
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Fonte: Valor Econômico
