“Este é um momento bom para se investir no Brasil tanto em renda fixa como em variável. Os juros estão atraentes, a inflação parece sob controle e a balança externa positiva é um sinal de que muitos investidores externos estão olhando para o país. De certa forma, o Brasil está alguns passos à frente das economias desenvolvidas, onde ainda existe o temor de uma recessão.”
Para Andersen, os títulos da dívida brasileira são uma boa opção de investimento, principalmente os de curto prazo, com baixo risco de “duration” [prazo], pouca sensibilidade aos juros e altos retornos. Segundo ele, o real valorizado beneficia as operações de carrego. “O real, que é o maior risco para o investidor estrangeiro, está mais estável, o que dá segurança e cria um cenário atraente. Então, se o real não se desvalorizar ante o dólar ou o euro, os títulos brasileiros seguirão no foco”, afirma.
A projeção do banco é que o dólar se valorize até R$ 4,60 no curto prazo e depois volte para o nível de R$ 5 daqui a 12 meses.
O executivo chama atenção para a subvalorização das ações dos países emergentes em relação aos EUA. Enquanto o Ibovespa teve alta de cerca de 7% neste ano até agora, o S&P 500 subiu 16% e o Nasdaq teve valorização de 30%. Já o Xangai Composto da China recuou 3%. “No Brasil e em outros países emergentes, as ações estão muito baratas. Os mercados emergentes estão operando com um desconto de até 40% em relação aos desenvolvidos, o que é uma diferença significativa e uma ótima oportunidade de investimento”, diz.
Entre os setores, segundo ele, o de petróleo está sendo olhado com muita atenção porque a expectativa é de alta nos preços nos próximos meses “com a maior demanda em um cenário em que vários países, como Arábia Saudita e Rússia, estão cortando a produção. Andersen recomenda a venda de opões de venda (put) em petróleo. “A volatilidade é alta e vender opção de venda pode gerar um bom retorno.”
Algumas ações de empresas de tecnologia do mundo desenvolvido também estão no radar do gestor, principalmente aquelas que irão se beneficiar do desenvolvimento da inteligência artificial (IA). “As empresas diretamente ligadas a IA estão caras, mas aquelas que serão mais bem capacitadas e terão melhor produtividade em decorrência a IA ainda estão atraentes”, afirma. Ele também cita as companhias de produtos de consumo tradicionais e algumas empresas europeias de automóveis e itens de luxo. “São empresas que estão tendo bons resultados mesmo em um cenário desafiador.”
Os juros elevados globalmente também beneficiam o setor bancário. “Os juros elevados permitem que os bancos elevem seus spreads e incrementem seus lucros”, diz. Segundo ele, o sistema bancário está sólido e tem boas provisões, principalmente na zona do euro. “Depois da crise financeira de 2008, os bancos passaram a agir de forma mais conservadora. Enquanto nos Estados Unidos o governo Donald Trump afrouxou a regulamentação bancária, tirando algumas obrigações dos bancos de manter reservas, causando problemas como o do Silicon Valley Bank, isso não aconteceu na Europa”, afirma.
Se durante a pandemia o setor bancário teve momentos difíceis com juros negativos, agora o cenário mudou de forma dramática. “Os resultados dos bancos europeus no segundo trimestre foram bastante positivos.”
Mesmo com um afrouxamento monetário esperado para os próximos anos, Andersen acredita que os juros não voltarão para os níveis baixos de antes, devendo ficar um ou dois pontos percentuais acima do patamar anterior, “o que é um bom nível para os bancos conseguirem bons lucros”.
Andersen afirma, contudo, que um risco para o setor bancário é a ocorrência de uma recessão. “Em caso de recessão, aumenta o potencial de perdas das reservas provisionadas”, explica.
Porém, o executivo observa que o cenário de uma recessão grave parece cada vez mais improvável. Segundo ele, nem EUA nem Europa devem enfrentar uma recessão nos moldes clássicos. “Até o Federal Reserve (Fed, banco central americano) já descartou o cenário recessivo previsto anteriormente. Já na Europa, teremos uma leve recessão no fim deste ano e um crescimento muito lento nos próximos”, diz.
Enquanto o Fed parece estar caminhando para o fim de seu aperto monetário, podendo iniciar os cortes de juros já no segundo semestre de 2024, Andersen vê um cenário mais delicado na zona do euro. Segundo o economista, enquanto o banco central americano tem um duplo mandato, de manter a inflação na meta e o máximo emprego, o Banco Central Europeu (BCE) só se preocupa com a inflação, e a inflação está elevada num momento em que negociações salariais estão sendo feitas, o que pode pressionar mais a inflação europeia. “Não acredito que o BCE irá muito mais longe no aumento dos juros, mas não vejo cortes em 2024 ou enquanto a inflação seguir elevada.”
A China também segue no radar do UBS, que tem aumentado a exposição no país asiático. Embora a recuperação econômica chinesa pós-pandemia não tenha acontecido conforme esperado, Andersen afirma que o governo de Xi Jinping está se esforçando para restaurar a confiança na economia. “Vejo o governo chinês determinado a apoiar a economia através de vários canais e buscar investimentos dos governos locais. O problema é que a China é um grande produtor de bens e, com o consumo fraco, os preços caíram e reduziram os lucros das empresas, o que impactou negativamente as ações, que ficaram baratas. Acredito que parte dessas perdas pode ser revertida com as medidas do governo”, ressalta.
Para Andersen, diferentemente do que se viu no ano passado, o principal risco nos mercados globais hoje não é a inflação, mas a geopolítica. “Não porque exista um risco real de guerra, mas porque essas questões envolvem sanções comerciais, restrições como a recente proibição de venda de chips americanos para China, o que dificulta os negócios e impacta todo o mercado.”
Fonte: Valor Econômico


