
As novas políticas do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, estão mexendo nas placas tectônicas do portfólio de grandes investidores institucionais ao redor do globo. Com o dólar mais fraco, investidores antes concentrados nos EUA passaram a prestar mais atenção aos mercados emergentes, o que amplia o fluxo de investimentos para esses países.
O maior interesse dos estrangeiros ficou perceptível em evento tradicional do UBS BB, realizado na última semana, em Nova York. A conferência ‘Global Emerging Markets One-on-One’ cresceu e, pela primeira vez, foi realizada no luxuoso Lotte New York Palace Hotel.
Participaram mais de 200 investidores e quase 90 companhias, com forte presença de América Latina, que respondeu por cerca de 70% do total. O resultado foram mais de 700 reuniões e quase 2 mil pontos de contato.
“O cenário de dólar mais fraco está estimulando algum tipo de realinhamento no portfólio dos grandes clientes institucionais, e mercados emergentes acabam recebendo mais atenção”, disse o responsável pela corretora institucional do UBS BB, Marcelo Okura, em entrevista à Broadcast, em Nova York. Nesse cenário, o Brasil chama a atenção por ser um dos principais mercados emergentes, afirmou.
Por outro lado, a guerra tarifária de Trump, que impôs tarifa de 50% ao País com motivações políticas, somada ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, faz com que o investidor estrangeiro fique em ‘compasso de espera’, de acordo com o executivo.“Os investidores estrangeiros estão mais interessados no Brasil, mas cautelosamente observando, porque essa questão de tarifas impõe tensão maior e eles vão estar bastante atentos, principalmente agora, em relação às eleições”, acrescentou Okura.
Eleições
A disputa pelo Planalto tende a estar no centro das atenções dos investidores, já que os impactos tarifários são mais limitados, observa o responsável pelo banco de investimento do UBS BB, Anderson Brito. “A eleição tem impacto em 100% da economia versus um ruído momentâneo que afeta 10% da economia. Então, a eleição é muito mais importante no fim do dia”, afirma.
Até aqui, o apetite do investidor estrangeiro não foi afetado pelo contexto político e comercial. Prova disso foi a demanda bilionária pela emissão externa do Tesouro Nacional e das companhias brasileiras que vieram a reboque, o que pressionou para baixo o custo das captações.
A expectativa de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) volte a cortar os juros em setembro também serve de gatilho. “Tínhamos uma expectativa muito boa dessa janela, e correspondeu. E o Tesouro vindo, a gente sabe que ele puxa a fila para emissões de empresas brasileiras”, diz a responsável pela área comercial do UBS BB, Fernanda Arraes. “É o cenário perfeito”, acrescenta.
Na área de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês), as incertezas tarifárias têm feito os negócios demorarem mais para fechar, mas não têm melado as transações, conforme Brito. No acumulado do ano, o volume cresceu quase 25% em dólar ante 2024, mostram dados da consultoria americana Dealogic.
Luxos e Mimos
No último mês, entraram mais de dez operações na plataforma do UBS BB. O mercado de dívida local segue em expansão, impulsionado pelos juros altos no Brasil e pela entrada “forte” de recursos em fundos de crédito privado, explica Arraes.
Já o segmento de ofertas de ações deve voltar apenas no segundo trimestre de 2026. A queda dos juros no Brasil e nos EUA, além de maior clareza no xadrez eleitoral doméstico, deve impulsionar as aberturas de capital. “Temos um pipeline de mais ou menos 60 empresas locais querendo acessar o mercado, tanto dos Estados Unidos como do Brasil”, projeta Brito. Cerca de 20% delas miram Wall Street e têm perfil mais “tech”, segundo ele.
O evento em Nova York marcou ainda cinco anos da joint venture do UBS e o Banco do Brasil. A primeira edição conjunta da conferência foi em 2023, pós-pandemia. Dois anos depois, o número de empresas participantes dobrou, de 45 para quase 90, e o total de reuniões saltou de 390 para mais de mil. “Isso deixa muito claro o interesse do investidor em mercados emergentes”, diz Brito.
Além de mudar o local da conferência, o UBS BB ofereceu mimos adicionais aos participantes: camarote no US Open e tour privado no MoMA, seguido de jantar no restaurante The Modern, com duas estrelas Michelin e vista para o Jardim de Esculturas Abby Aldrich Rockefeller.
Fonte: Estadão


