A artilharia pesada tarifária utilizada por Donald Trump desde o início do seu novo mandato permite que o presidente americano seja comparado ao personagem Tyler Durden, de Clube da Luta (1999), segundo o time de multimercados da Kinea Investimentos.
Durden, vivido por Brad Pitt, pregava derrubar o sistema financeiro – e o capitalismo – por dentro, para que assim tudo pudesse recomeçar de forma mais justa. Trump, por sua vez, acredita ser capaz de destruir e refazer por si mesmo o arcabouço comercial global.
De semelhante entre Durden e Trump, está a adoção de ação coordenada e abrupta, assim como a natureza caótica e inesperada das investidas, com o objetivo de criar um abalo sistêmico deliberado para ganhar vantagem, segundo os cinéfilos da gestora.
“Se, em Clube da Luta, a anarquia serve para chacoalhar o sistema financeiro, na economia global atual, Donald Trump promove uma segunda rodada de ofensivas tarifárias como ferramenta de choque estratégico”, destacam os gestores após o presidente americano anunciar sobretaxas generalizadas, entre 15% e 50% a partir da próxima semana, atingindo inclusive grandes parceiros como União Europeia, Canadá e México.
Em julho, o Brasil ganhou um papel central no longa-metragem, com tarifas de até 50% sobre suas exportações, a partir de agosto, ainda que parte dos itens tenha sido isenta.
Segundo a Kinea, o mercado ainda mostra resiliência a Trump, mas os riscos para inflação, juros e atividade estão se acumulando, embora o impacto econômico direto ainda seja limitado. O maior efeito, por enquanto, foi no terreno político e na contramão do esperado por parte do mercado, com o aumento da popularidade do presidente Lula.
No campo de ativos, a Kinea mantém aposta em juros longos nos EUA e no Brasil, onde projeta início do corte da Selic na virada do ano.
A gestora reforça posições em ouro e em ações de tecnologia americanas, beneficiadas pela demanda por inteligência artificial e semicondutores, e mantém proteção contra quedas em setores mais sensíveis a juros altos, como small caps, biotecnologia e imóveis. Em commodities, vê cenário baixista para grãos, café e açúcar, com safra abundante nos EUA e no Brasil, e aposta na queda do petróleo com aumento da oferta global no segundo semestre.
Segundo os gestores, Trump deve resistir à tentação de ser possuído pelo próprio protecionismo que diz combater, citando outra frase do alter ego do narrador de 1999: “as coisas que você possui acabam possuindo você”. Se, no filme, a “primeira regra” do Clube da Luta é não falar sobre o Clube da Luta, na vida real, os investidores precisam fazer o oposto — discutir, se preparar e ajustar portfólios para um embate que pode se estender por todo o mandato Trump.
“A ideia de que a destruição da ordem estabelecida pode abrir caminho para a mudança ressoa curiosamente com o momento atual dos mercados: políticas imprevisíveis do governo Trump e confrontos comerciais desafiando a estabilidade, numa espécie de ‘clube da luta’ geopolítico-econômico, no qual a desordem e imprevisibilidade fazem parte da estratégia”, diz o texto.
Fonte: Valor Econômico