O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaça bombardear usinas de energia e pontes do Irã, caso o país não reabra hoje o Estreito de Ormuz. O ultimato de Trump foi reforçado ontem, após as forças americanas realizarem um ousado resgate no território iraniano de um piloto ferido, cujo caça foi abatido na sexta-feira. O Irã, por seu lado, rejeita tanto que esteja negociando com os EUA quanto a versão americana do resgate do piloto, que qualificou de “farsa”.
O prazo para a reabertura da crucial rota marítima para o fluxo de petróleo se esgota às 20 horas de terça-feira em Washington (21 horas em Brasília), especificou a Casa Branca. “Terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irã”, disse Trump ontem em sua plataforma de internet Truth Social, em uma postagem repleta de insultos. “Não haverá nada igual!!! Abram logo a p… do estreito, seus bastardos malucos, ou vocês vão viver no inferno – Aguardem! Alá seja louvado.”
Diante das novas tensões, os preços do petróleo estavam em alta no momento em que os mercados asiáticos abriam os pregões da jornada desta segunda-feira. O barril do Brent (a referência internacional) subia US$ 2,4, ou 2,2%, para US$ 111,43. Os contratos futuros do petróleo West Texas Intermediate (WTI, o padrão americano) subiram US$ 3, ou 2,7%, sendo negociados a US$ 114,57 o barril.
Trump disse que um acordo com o Irã é possível e que Teerã está negociando, informou mais tarde à Fox News. “Se não chegarem a um acordo rapidamente, estou considerando explodir tudo e tomar o controle do petróleo”, afirmou.
Pela versão iraniana, nenhuma negociação direta está em curso, três aeronaves americanas foram abatidas na tentativa dos EUA de resgatar o piloto e a missão de busca ao tripulante do caça “fracassou completamente”. “A suposta operação de resgate do exército americano foi completamente frustrada”, declarou Ebrahim Zolfaghari, porta-voz do comando central militar iraniano, em meio à guerra de informações e enquanto a TV estatal mostrava imagens de destroços de aeronaves – não identificadas – abatidas.
As forças iranianas haviam iniciado esforços para localizar e capturar o aviador desaparecido, e forças americanas e iranianas se envolveram em tiroteios na área do acidente (ver FT: Resgate de aviador, considerado ‘heroico’ pela Casa Branca, envolveu até ‘fake news’ da CIA).
Na entrevista à Fox News, Trump também disse que os EUA enviaram armas para membros da oposição ao regime no Irã. “Enviamos muitas armas para eles. Enviamos por meio dos curdos. Mas acho que os curdos ficaram com elas”, disse.
Ataques contra “estruturas críticas à sobrevivência da população civil”, como usinas e pontes que asseguram suprimento de alimentos, são proibidos pelo direito internacional, e juristas disseram ao jornal britânico Financial Times que as ações ameaçadas por Trump podem configurar crimes de guerra.
“Nenhum outro presidente americano recente falou tão abertamente sobre a prática de potenciais crimes de guerra, no entender de especialistas jurídicos, historiadores e ex-funcionários do governo americano”, destacou outro jornal, o americano The New York Times.
O principal comandante militar do Irã alertou que “os portões do inferno se abririam” caso os EUA e Israel prossigam com ataques à infraestrutura energética iraniana.
“Atacaremos sem restrições toda a infraestrutura usada pelos militares terroristas dos EUA, bem como a infraestrutura do regime sionista, com ataques devastadores e contínuos”, disse o general Ali Abdollahi, do principal centro de comando das Forças Armadas.
O Irã tem sustentado que a passagem de Ormuz não está fechada para “países não hostis” e, na quinta-feira, anunciou que estabeleceria com Omã as “normas” para o tráfego marítimo no local após a guerra – sinalizando a perspectiva de um restabelecimento próximo desse trânsito. Ontem, um petroleiro carregado com petróleo iraquiano passou por Ormuz, próximo à costa iraniana, um dia após o Irã afirmar que o Iraque estava isento de qualquer restrição para transitar pela rota.
Ao mesmo tempo, o Irã tem espalhado os ataques pela região. As operações na fábrica petroquímica de Borouge, em Abu Dhabi, foram suspensas após três incêndios provocados por destroços de aeronaves interceptadas, informou o emirado. Um ataque anterior do Irã à fundição de alumínio da Emirates Global Aluminium, em Abu Dhabi, pode levar até um ano para ser reparado.
No final da noite de sábado, o Irã lançou ataques contra infraestruturas essenciais de água e energia no Kuwait, afirmou o país do Golfo, causando “sérios danos materiais” a instalações de eletricidade e dessalinização.
O Complexo de Ministérios do Kuwait, sede das pastas de Petróleo e Finanças, também foi alvo de um ataque com drones. Não houve feridos em nenhum dos episódios.
Israel afirmou ter bombardeado uma planta petroquímica iraniana que, segundo o país, era utilizada para a produção de materiais destinados a armamentos, incluindo mísseis balísticos. Em declaração em vídeo, o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, classificou a Zona Petroquímica Especial de Mahshahr como parte da “máquina de fazer dinheiro” de Teerã.
Fonte: Valor Econômico