Mais de um ano após seu retorno à Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se sente mais confortável do que nunca em conduzir sua política externa com base no uso da força. A avaliação é de Elliott Abrams, ex-representante especial para o Irã e a Venezuela durante o primeiro governo Trump — que atribui essa postura aos resultados que considera positivos dos ataques a alvos iranianos no ano passado e à captura de Nicolás Maduro, em Caracas. As ações teriam aberto caminho para um segundo mandato mais “ousado”.
“Claramente ele está mais disposto a usar a força”, diz Abrams, hoje pesquisador sênior em estudos do Oriente Médio no Council on Foreign Relations (CFR), em Washington. “No primeiro mandato, ele só usou a força uma vez, no caso do bombardeio que matou o Qassem Soleimani [chefe de uma unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã], e foi um grande sucesso. Depois veio a operação Midnight Hammer [o ataque as supostas instalações nucleares iranianas em junho de 2025], também um grande sucesso. Em seguida, a Venezuela, somando outro sucesso.”
Essa lógica, segundo Abrams — que também foi vice-conselheiro de segurança nacional no governo do presidente George W. Bush — aplica-se à atual guerra contra o Irã. Ele explica que, no primeiro mandato, a estratégia de Trump para conter o avanço nuclear iraniano se baseava na “pressão”, com o presidente apostando que teria quatro anos adicionais após a eleição de 2020 para forçar negociações. Com o fracasso eleitoral de então, Trump retorna agora para seus últimos anos no poder com a lógica do “tudo ou nada”.
O especialista também avalia que Trump encara a política internacional como uma grande competição entre potências e demonstra impaciência com “regras antigas” que limitariam a capacidade dos EUA de proteger seus interesses de segurança nacional. Na Venezuela, essa abordagem reflete uma visão do “esfera de influência” inspirada na Doutrina Monroe, visando neutralizar potências como Rússia e China.
Em entrevista ao Valor, Abrams analisa os precedentes da política de força de Trump à luz dos conflitos recentes e discute os desafios para negociações de encerramento da guerra no Irã, além das perspectivas para a Venezuela.
A seguir os principais pontos da conversa:
Valor: Considerando sua experiência no governo, o senhor vê alguma mudança na política externa de Trump em seu segundo mandato em comparação ao primeiro?
Elliott Abrams: Os objetivos não são diferentes. Em relação ao Irã, por exemplo, ele chegou à conclusão de que o país estava usando a diplomacia como uma cobertura, uma fachada por trás da qual continuava a desenvolver seu programa nuclear e seus programas de mísseis. Mas no primeiro mandato a política era a de pressão máxima. Ele pensava o seguinte: “Vamos manter essa política em relação ao Irã até a eleição de 2024”. Ele achava que, depois da eleição, poderia dizer ao Irã: “temos mais quatro anos disso. Ou vamos destruir sua economia com sanções, ou vocês negociam um bom acordo”. Mas ele não venceu a eleição. Agora ele volta ao poder e tem um problema: este é o último mandato dele. Ou seja, o que ele não fizer agora não será feito.
Valor: O senhor acha que isso tem alguma influência para que Trump seja mais impulsivo?
Abrams: Não tenho certeza se concordaria com a palavra “impulsivo”. Ele certamente está sendo mais ousado — talvez essa seja uma palavra mais neutra. Ele está mais disposto a usar a força. No primeiro mandato, ele só usou a força uma vez, no caso de Soleimani, e foi um grande sucesso. Depois veio a operação Midnight Hammer, também um grande sucesso. Depois a Venezuela, outro grande sucesso. E acho que essas coisas acabam se reforçando. Ou seja, ele se sente mais confortável em usar a força e, certa ou erradamente, mais confortável com a ideia de que isso funciona.
Valor: Com isso em mente, ele poderia tentar fazer algo semelhante, por exemplo, na Groenlândia ou em outros lugares?
Abrams: Eu não acho. Mas, com Trump, nunca se sabe completamente. No primeiro mandato, havia uma frase famosa que dizia que você nunca deve interpretar Trump literalmente, mas deve levá-lo a sério. É assim que vejo a questão da Groenlândia, por exemplo. Acho que ele nunca teve a menor intenção de invadir a Groenlândia, mas foi uma forma de exercer pressão. Agora, onde mais ele poderia usar a força? Espero que não precise usar em lugar nenhum. Espero, por exemplo, que os russos não ataquem um país da Otan. Espero que Xi Jinping não tente nada em Taiwan, mas quem sabe?
Valor: O senhor vê alguma diferença na influência dos conselheiros de Trump sobre a tomada de decisões em guerras e conflitos?
Abrams: Sim, no sentido de que, no primeiro mandato, o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Mark Milley, era muito mais contrário ao uso do poder militar, e a diretora da CIA, Gina Haspel, era muito mais cautelosa em relação a ações secretas. Acho que John Ratcliffe, na CIA, e o general Dan Caine estão mais dispostos e são menos propensos a dizer ao presidente “não, isso é uma má ideia, não faça isso”.
Valor: Como o senhor definiria a atual ordem internacional, na qual um governo dos Estados Unidos, em apenas três meses, remove dois chefes de Estado — Nicolás Maduro e Ali Khamenei?
Abrams: Fundamentalmente, eu diria que Trump é impaciente com regras antigas que o impedem de agir da maneira que ele acredita proteger os interesses de segurança nacional dos EUA. Ele vê a política internacional como uma grande competição, na qual outros atores vão tirar vantagem de você se você não se proteger. Você vê isso na visão dele sobre comércio. Nas estratégias de segurança e defesa nacional, ele adotou uma visão do Hemisfério Ocidental que, em certa medida, remete à Doutrina Monroe. O que quero dizer com isso é o desejo de expulsar potências e regimes de fora do hemisfério e derrubar governos que estejam aliados a essas potências.
Valor: Como isso se aplicou a operação na Venezuela?
Abrams: No caso da Venezuela, havia uma aliança considerada perigosa com Rússia, China e Irã. E o próximo passo lógico, nesse raciocínio, seria Cuba — algo sobre o qual Trump também fala. Acho que há uma boa chance de que, talvez ainda este ano, ou certamente dentro dos quase três anos que ele ainda tem de mandato, aquele regime acabe caindo.
Valor: Como você avalia o sucesso da operação em Caracas?
Abrams: Passaram-se apenas dez semanas. Acho que vamos julgar essas coisas muito melhor no dia em que Trump deixar o cargo, em janeiro de 2029. Por exemplo, se Delcy Rodríguez ainda estiver governando a Venezuela, veremos isso como um fracasso completo. Se até lá o país tiver realizado eleições e tiver um governo democraticamente eleito, retornando à democracia que existia antes de Chávez e Maduro, veremos isso como uma política bem-sucedida.
Valor: O que o senhor acha que esse intervencionismo significa para as relações exteriores dos EUA?
Abrams: Acho que nenhum governo está lamentando por Maduro ou Khamenei. Esses são dois regimes realmente terríveis. Eu não compro o argumento que às vezes se ouve de que isso encorajaria Putin e Xi Jinping. Não concordo com isso, porque acho que eles não precisam de encorajamento. Afinal, Putin invadiu a Geórgia em 2005 e depois tomou a Crimeia da Ucrânia. Ele não precisou do caso do Irã nem de Trump para fazer o que está fazendo. E eu diria o mesmo sobre Xi Jinping. Ele nunca se deixará limitar pelo direito internacional ou por regras internacionais. Ele fará o que quiser fazer. E espero que essas duas demonstrações de poder dos EUA dissuadam ambos de novas aventuras militares.
Valor: Sobre a situação no Irã, onde o senhor acha que Trump quer chegar com essa guerra?
Abrams: O que o governo americano quer é que o Irã pare de enriquecer urânio, que não avance mais no programa nuclear, que não reconstrua o enorme sistema de mísseis, que pare de interferir nos assuntos internos de seus vizinhos e que abandone o apoio ao terrorismo.
Valor: O senhor acha que Israel concorda com esses objetivos?
Abrams: Acho que os israelenses não gostariam que a operação parasse antes de haver uma mudança de regime, mas eles também sabem que mudar um regime apenas com ataques aéreos é algo novo. Além disso, a guerra precisará terminar em algum momento. Então, embora se fale sobre um possível descompasso entre os objetivos, acredito que essa diferença é, na prática, bastante pequena.
Valor: Trump também já disse que quer garantias de que o Irã não será capaz de construir uma arma nuclear no futuro. O senhor acha que isso é possível?
Abrams: Não enquanto o regime atual estiver no poder. Ainda assim, é possível atrasar bastante o programa — como já foi feito na operação Midnight Hammer — praticamente levando o cronograma deles de volta a zero. Com isso, acho que não há possibilidade de que consigam construir uma arma nuclear enquanto Trump for presidente, e ele estabeleceu um precedente que talvez outro presidente siga, que é: nós não permitiremos isso e atacaremos se necessário, algo que nenhum presidente anterior fez. O próximo presidente poderá dizer: “vocês não vão conseguir uma arma nuclear, podem gastar bilhões e bilhões de dólares nisso, mas estarão sob sanções, destruindo sua própria economia, e, se chegarem perto de conseguir, nós vamos bombardear vocês”. Portanto, não seria mais sensato buscar um acordo?
Valor: O senhor acha viável um fim negociado para a guerra, especialmente diante da eleição do novo líder supremo, Mojtaba Khamenei?
Abrams: Não. Acho mais provável que a guerra termine quando Trump declarar que todos os alvos necessários já foram atingidos, e que, a partir daí, as operações parem. Todas as sanções permaneceriam. Reitero que, se o Irã começar a reconstruir suas capacidades, seremos obrigados a atacá-lo novamente. Mas quase todas as guerras acabam em negociações, então vamos ver.
Valor: Quais são os pontos sensíveis que precisam ser superados para que se chegue a um acordo?
Abrams: Considerando os objetivos americano, acho plausível imaginar o Irã dizendo que não irá interferir nos vizinhos — isso até seria fácil de negociar. Mas, na prática, o que os EUA querem é que parem de enviar armas e dinheiro para grupos como Hezbollah e Hamas; poderiam apoiá-los moralmente, mas nada mais — e os americanos têm maneiras de monitorar isso. Outro ponto complexo: o Irã dirá que é um país soberano e tem direito a se defender, o que torna difícil negociar a limitação de mísseis, já que todo país tem direito à defesa. Além disso, há uma questão ainda mais difícil: Eu não gostaria de ver os EUA abandonando o povo iraniano. Se dissermos “ok, chegamos a um acordo em certos pontos e agora vamos suspender as sanções”, estaríamos abandonando o povo do Irã. A menos que a negociação inclua questões sobre os assuntos internos do país, isso será muito difícil de acertar.
Valor: O senhor acredita que a guerra ainda pode se intensificar, especialmente com o possível envolvimento de outros países?
Abrams: Não. Acho que, na verdade, vai se desescalar. Ou seja, os iranianos vão ficar sem mísseis. Eles vão diminuir, em parte porque têm menos armamento, e em parte porque os EUA e Israel estão bombardeando os lançadores, os depósitos e as fábricas. Sobre o envolvimento de outros países, a única possibilidade que consigo enxergar são os Estados árabes do Golfo, que já foram atingidos pelo Irã, decidindo retaliar — o que, até agora, ainda não aconteceu. Pessoalmente, acredito que a guerra continuará talvez por mais uma semana.
Fonte: Valor Econômico
