26/02/2024 05h02 Atualizado há 5 horas
Ao vencer as primárias de sábado sobre Nikki Haley na Carolina do Sul, Estado natal da oponente e onde ela foi governadora por dois mandatos, o ex-presidente Donald Trump pavimentou ainda mais o caminho para se tornar novamente o candidato do Partido Republicano à Casa Branco, reeditando em novembro próximo a disputa de quatro nos atrás com Joe Biden.
Tratou-se da quarta vitória seguida de Trump nas disputas por sua nomeação republicana, pós ter superado os rivais internos nos Estados de Iowa, New Hampshire e Nevada. A vitória na Carolina do Sul, contudo, era crucial para as pretensões de Haley. No caso do ex-presidente, o resultado foi considerado por analistas como fundamental para eliminar de vez a oponente como uma ameaça real.
“Não é o final de nossa história”, assegurou Nikki Haley, que vem sendo pressionada por correligionários a abandonar a corrida pela indicação Republicana.
Em dezembro, Haley dizia publicamente que seria na Carolina do Sul que ela finalmente venceria o ex-presidente e daria a volta por cima na disputa pela indicação. Em vez disso, ela pode ser lembrada como o Estado em que sua campanha sofreu o golpe fatal.
Diferentemente de 2016, Trump estava enfrentando um rival que havia conquistado dois mandatos como governadora do Estado e ainda é popular no local. O plano da campanha de Trump era isolar Haley politicamente, obtendo o endosso de várias autoridades – inclusive o atual governador do Estado, também republicano – o mais rápido possível para demonstrar que ela não tinha caminho para a presidência através da Carolina do Sul.
Chris LaCivita, um dos gerentes da campanha de Trump, afirmou que a série de endossos de grandes nomes desempenhou um papel fundamental na eliminação da concorrência no Estado. LaCivita disse ainda que outra parte crucial do sucesso foi a coleta de dados sobre os milhares de eleitores que compareceram aos comícios.
“A disputa republicana não é uma competição, é uma coroação” – — Lisa Lerer
A equipe da campanha vem se esforçando há meses para usar os dados dos eleitores para se comunicar diretamente com eles. Trump usou um plano semelhante para vencer em Iowa e New Hampshire.
“Nunca vi o Partido Republicano tão unido como agora”, afirmou o ex-presidente após a vitória de sábado por uma diferença de mais de vinte pontos percentuais.
Ex-embaixadora do governo Trump na ONU, Nikki Haley classificou o antigo chefe como um personagem “arriscado, velho, ocupado com suas batalhas judiciais” e próximo do russo Vladimir Putin, mas uma pesquisa da agência AP mostra o porquê do rechaço do eleitor do Estado às ideias da ex-governadora: metade dos votantes na Carolina do Sul querem os EUA com um papel menos ativo no mundo, em especial enviando, por exemplo, menos ajuda à guerra da Ucrânia. É a visão de Trump.
Como escreveu neste domingo no “The New York Times” a jornalista Lisa Lerer, a “disputa pela indicação republicana não é uma competição, é uma coroação”.
A leitura óbvia entre analistas é que Trump não tem oponente à altura no Partido Republicano para barrar seu favoritismo e impedir sua segunda candidatura à Presidência americana.
A próxima votação primária – republicana e também do Partido Democrata, do presidente Biden – ocorrerá amanhã, em Michigan, mas a data mais importante a curto prazo, conhecida como “ Super Terça”, ocorrerá em 5 de março. Trata-se de um dos calendários mais tradicionais da política americana, esse ano com votação em 15 Estados.
Essa deve ser a ocasião em que a candidatura de Trump será definitivamente referendada pelo seu partido, já que um terço de todos os delegados republicanos vota nessa data.
Ao passar na Carolina do Sul no fim de semana, Trump continuou acumulando polêmicas. Ele comparou suas 91 acusações criminais em quatro casos distintos à discriminação enfrentada pelos negros americanos e disse que eles passaram a “abraçar” a foto de sua ficha policial.
Ele estava falando com um grupo conservador negro no Estado: “E aí eu fui indiciado uma segunda vez, uma terceira e uma quarta vez. Muitas pessoas disseram que é por isso que os negros gostam de mim, porque foram gravemente feridos e discriminados”, disse Trump. “Eles realmente me viam como se eu estivesse sendo discriminado”.
Cerca de 60% dos participantes da disputa republicana de sábado eram eleitores brancos que se consideram evangélicos ou cristãos, mostraram as pesquisas de boca de urna. Na disputa de 2020, o atual presidente Joe Biden recebeu a maior parte do voto negro.
Biden, aliás, criticou Trump pelas declarações, classificadas por ele de “racistas e vergonhosas”, que geram “ódio e divisão”.
Os desafios legais de Trump, incluindo acusações federais sobre seus supostos esforços para tentar anular a derrota eleitoral em 2020 e como ele administrou documentos confidenciais, entre outras acusações e processos civis, são bem diferentes das desigualdades históricas que os negros americanos vivenciaram no sistema de Justiça.
Fonte: Valor Econômico


