O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está avaliando opções contra o Irã que incluem ataques direcionados contra forças de segurança e lideranças do país, segundo diversas fontes. O objetivo é incentivar novas manifestações, mesmo enquanto autoridades israelenses e árabes afirmam que o uso exclusivo do poder aéreo não derrubaria o regime teocrático.
Duas fontes dos EUA familiarizadas com as discussões disseram que Trump deseja criar condições para uma “mudança de regime” após uma repressão que esmagou um movimento nacional de protestos no início deste mês, deixando milhares de mortos.
Para isso, ele estaria considerando opções para atingir comandantes e instituições que Washington considera responsáveis pela violência, de forma a dar confiança aos manifestantes de que poderiam tomar prédios governamentais e de segurança, disseram as fontes.
Uma das fontes norte-americanas afirmou que as opções debatidas por assessores de Trump também incluem um ataque muito mais amplo, destinado a causar impacto duradouro, possivelmente contra mísseis balísticos capazes de alcançar aliados dos EUA no Oriente Médio ou contra os programas de enriquecimento nuclear do Irã.
A outra fonte disse que Trump ainda não tomou uma decisão final sobre o curso de ação, incluindo se seguirá o caminho militar.
Na quarta, Trump alertou em publicação na rede Truth Social que “uma imensa armada está a caminho do Irã”. O presidente também afirmou que se trata de uma frota maior do que a enviada à Venezuela, sendo liderada pelo grande porta-aviões Abraham Lincoln. “Ela está pronta, disposta e capacitada para cumprir rapidamente sua missão, com velocidade e violência, se necessário”, ameaçou.
Além disso, o republicano disse esperar que o Irã “sente-se rapidamente à mesa” e negocie “um acordo justo e equilibrado sem armas nucleares”, que seja bom para todas as partes. “O tempo está se esgotando; a urgência é real! O próximo ataque será muito pior! Não deixem que isso aconteça novamente”, concluiu.
A chegada de um porta-aviões dos EUA e de navios de guerra de apoio ao Oriente Médio nesta semana ampliou a capacidade de Trump de potencialmente recorrer à ação militar, após ele ter ameaçado repetidamente intervir diante da repressão no Irã.
Quatro autoridades árabes, três diplomatas ocidentais e uma fonte ocidental de alto escalão, cujos governos foram informados sobre as discussões, disseram temer que, em vez de levar pessoas novamente às ruas, tais ataques possam enfraquecer ainda mais um movimento já abalado pela repressão mais sangrenta desde a Revolução Islâmica de 1979.
Alex Vatanka, diretor do Programa sobre o Irã no Middle East Institute, avaliou que, sem deserções militares em grande escala, os protestos no Irã continuam sendo “heroicos, mas superados em poder de fogo”.
As fontes desta reportagem pediram anonimato por se tratar de assuntos sensíveis. O Ministério das Relações Exteriores do Irã, o Departamento de Defesa dos EUA e a Casa Branca não responderam a pedidos de comentário. O gabinete do primeiro-ministro de Israel também se recusou a comentar.
Um alto funcionário iraniano disse à Reuters que o país está “se preparando para um confronto militar, ao mesmo tempo em que utiliza canais diplomáticos”. Segundo ele, no entanto, Washington não demonstra abertura para a diplomacia.
O Irã, que afirma que seu programa nuclear tem fins civis, está pronto para o diálogo “com base no respeito mútuo e nos interesses comuns”, mas se defenderá “como nunca antes” se for pressionado, afirmou a missão iraniana na ONU em uma publicação na rede X na quarta-feira.
Trump não detalhou publicamente o que espera de um eventual acordo. Pontos defendidos anteriormente por seu governo incluíam a proibição do enriquecimento independente de urânio pelo Irã e restrições a mísseis balísticos de longo alcance e à rede de aliados armados de Teerã no Oriente Médio.
Limites do poder aéreo
Uma autoridade israelense de alto escalão, com conhecimento direto do planejamento entre Israel e os Estados Unidos, disse à Reuters que Israel não acredita que ataques aéreos, por si só, possam derrubar a República Islâmica, caso esse seja o objetivo de Washington.
“Se você quiser derrubar o regime, é preciso colocar tropas em solo”, afirmou, acrescentando que mesmo que os EUA matassem o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, o Irã “teria um novo líder para substituí-lo”.
Segundo ele, apenas uma combinação de pressão externa e uma oposição interna organizada poderia alterar a trajetória política do Irã.
A autoridade israelense afirmou que a liderança iraniana foi enfraquecida pela onda de protestos, mas continua firmemente no controle, apesar da profunda crise econômica que desencadeou as manifestações.
Diversos relatórios da inteligência dos EUA chegaram a conclusão semelhante: as condições que levaram aos protestos permanecem, enfraquecendo o governo, mas sem grandes fraturas internas, disseram duas pessoas familiarizadas com o assunto.
Uma fonte ocidental afirmou que o objetivo de Trump parece ser provocar uma mudança na liderança, e não “derrubar o regime” por completo — um desfecho semelhante ao da Venezuela, onde a intervenção dos EUA substituiu o presidente sem uma mudança estrutural total do governo.
Khamenei reconheceu publicamente a morte de vários milhares de pessoas durante os protestos e atribuiu a agitação aos Estados Unidos, a Israel e ao que chamou de “sediciosos”.
O grupo de direitos humanos HRANA, sediado nos EUA, estima que o número de mortos ligados aos protestos chegue a 5.937, incluindo 214 integrantes das forças de segurança, enquanto números oficiais falam em 3.117 mortos. A Reuters não conseguiu verificar os dados de forma independente.
Khamenei mantém controle, mas com menor visibilidade
Aos 86 anos, Khamenei tem se afastado da gestão diária do país, reduzido aparições públicas e, segundo autoridades regionais, estaria vivendo em locais seguros após ataques israelenses no ano passado terem eliminado muitos líderes militares de alto escalão do Irã.
A administração cotidiana passou para figuras alinhadas à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), incluindo o conselheiro sênior Ali Larijani. A poderosa Guarda domina a rede de segurança do país e grandes setores da economia.
Ainda assim, Khamenei mantém autoridade final sobre guerra, sucessão e estratégia nuclear, o que torna mudanças políticas extremamente difíceis enquanto ele permanecer no poder. O Ministério das Relações Exteriores do Irã não respondeu a perguntas sobre Khamenei.
Em Washington e Jerusalém, alguns funcionários defendem que uma transição no Irã poderia romper o impasse nuclear e, eventualmente, abrir caminho para relações mais cooperativas com o Ocidente, disseram dois diplomatas ocidentais.
Eles alertam, no entanto, que não há um sucessor claro para Khamenei. Nesse vácuo, autoridades árabes e diplomatas acreditam que a IRGC poderia assumir o poder, consolidando um regime ainda mais radical, aprofundando o impasse nuclear e as tensões regionais.
Qualquer sucessor visto como resultado de pressão externa seria rejeitado e poderia fortalecer, e não enfraquecer, a Guarda Revolucionária, disse uma das fontes.
Em toda a região, do Golfo à Turquia, autoridades afirmam preferir a contenção ao colapso do Irã, não por simpatia a Teerã, mas pelo temor de que a instabilidade em um país de 90 milhões de habitantes, marcado por divisões sectárias e étnicas, provoque efeitos muito além de suas fronteiras.
Um Irã fragmentado poderia mergulhar em uma guerra civil, como ocorreu após a invasão dos EUA ao Iraque em 2003, alertaram dois diplomatas ocidentais, desencadeando fluxo de refugiados, alimentando o extremismo islâmico e interrompendo o fluxo de petróleo pelo Estreito de Hormuz, um ponto crítico da energia global.
O risco mais grave, advertiu o analista Vatanka, é a fragmentação em algo semelhante a uma “Síria em estágio inicial”, com unidades rivais e províncias disputando território e recursos.
Repercussões regionais
Países do Golfo, aliados históricos dos EUA e anfitriões de grandes bases americanas, temem ser os primeiros alvos de retaliação iraniana, que poderia incluir ataques com mísseis ou drones, inclusive a partir dos rebeldes houthis do Iêmen, alinhados a Teerã.
Arábia Saudita, Catar, Omã e Egito pressionaram Washington contra um ataque ao Irã. O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, disse ao presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, que Riad não permitirá que seu espaço aéreo ou território sejam usados para ações militares contra Teerã.
“Os Estados Unidos podem puxar o gatilho”, disse uma das fontes árabes. “Mas não serão eles que viverão com as consequências. Nós é que viveremos.”
Mohannad Hajj-Ali, do Carnegie Middle East Center, afirmou que os deslocamentos militares dos EUA indicam que o planejamento deixou de prever um ataque isolado para algo mais prolongado, impulsionado pela crença em Washington e Jerusalém de que o Irã poderia reconstruir suas capacidades de mísseis e eventualmente transformar seu urânio enriquecido em arma.
O desfecho mais provável é uma “erosão lenta e contínua, deserções de elites, paralisia econômica, sucessão contestada, que desgasta o sistema até ele se romper”, concluiu Vatanka.
Fonte: Valor Econômico


