O cessar-fogo de duas semanas acordado entre EUA e Irã gerou otimismo nos mercados. O preço do petróleo despencou e as bolsas dispararam. A expectativa parece ser que a trégua desbloqueará o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz e que será sucedida por um acordo de longo prazo. Isso pode acontecer, mas não é uma certeza. E, ainda que aconteça, não está claro se a guerra terá apenas um impacto econômico de curto prazo ou se os danos causados repercutirão por mais tempo.
Autoridades dos EUA vêm sugerindo que, com a reabertura de Ormuz, o fluxo de commodities vitais para a economia mundial, como petróleo, gás e fertilizantes, deverá logo se normalizar. Nesse caso, os efeitos econômicos negativos da guerra seriam apenas um solavanco, que passará rapidamente. É o que tem sugerido o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent. Segundo ele, a guerra está causando apenas uma volatilidade de curto prazo.
Muita coisa ainda pode dar errado. Irã e Israel discordaram sobre a inclusão do Líbano no cessar-fogo, e Israel realizou ontem o seu mais forte ataque ao país. Já o Irã atacou a Arábia Saudita horas depois do anúncio, atingindo o oleoduto que é hoje a única rota de exportação de petróleo saudita. Ou seja, a trégua é frágil.
Também não está claro como será o processo de reabertura de Ormuz. Não há detalhes nem um cronograma. O Irã anunciou que a passagem de navios pelo estreito está sujeita a autorização prévia pelo país. Apenas uns poucos navios já teriam sido autorizados. Também não se sabe se Teerã vai cobrar para autorizar a passagem, como passou a fazer durante a guerra, a título de indenização pelos danos causados ao país.
Por fim, há o risco de não haver um acordo nas próximas duas semanas, o novo prazo dado pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Mas, sobretudo, há muitas incertezas sobre o estrago e os problemas já causados pela guerra e quanto e por quanto tempo eles repercutirão na economia global.
Ainda que os preços do petróleo recuem depois do acordo de cessar-fogo (ontem o Brent caiu 13,28%, para US$ 94,75 o barril), é pouco provável que voltem aos cerca de US$ 60 do começo deste ano. A demanda deverá continuar alta, pois os países terão de repor seus estoques nos próximos meses. Além disso, houve danos às instalações de produção e exportação no Oriente Médio, o que deverá manter a oferta reduzida por um período ainda incerto. Ou seja, mesmo abaixo de US$ 100, os combustíveis mais caros continuarão impulsionando a inflação.
A Iata (entidade que reúne as empresas de transporte aéreo), alertou ontem que a oferta de combustível de aviação continuará apertada por muitos meses e que a normalização da produção e dos estoques vai demorar, mesmo com a reabertura de Ormuz.
Algo parecido deve ocorrer com os fertilizantes, o que irá impactar os preços dos alimentos pelo menos pela próxima safra.
Essa pressão nos preços deverá fazer com que os principais bancos centrais revejam seus planos de redução das taxas de juros nos próximos meses, até que o cenário inflacionário esteja mais claro. Alguns BCs sinalizaram até com a possibilidade de elevar juros. Ou seja, a tendência é que o custo do capital recue menos do que se imaginava no começo do ano.
A guerra piorou piora as contas públicas pelo mundo, num momento em que muitos países, como Brasil, EUA, China e França, já estão com nível elevado de déficit público. Governos adotaram medidas para proteger a população dos aumentos dos combustíveis, como subsídios (ou seja, mais gasto público) e redução de carga tributária (ou seja, menos arrecadação). Isso deverá retardar o processo de ajustes das contas públicas, com impacto direto nos juros.
Também não está claro como a guerra e as incertezas afetaram as empresas. A insegurança em relação ao abastecimento de energia deverá gerar cautela por algum tempo. Dados divulgados ontem mostraram que as construtoras britânicas tiveram em março a maior inflação mensal já registrada no setor, ao mesmo tempo em que as novas encomendas desabaram, com a queda na confiança e no poder de compra dos consumidores. Isso tende a inibir investimentos.
Há o risco de um cenário parecido com a crise da covid, cujos efeitos persistiram por anos mesmo depois do afrouxamento das restrições adotadas contra o vírus. O pico da inflação da covid nos EUA ocorreu em junho de 2022, mais de dois anos depois da pandemia.
Fonte: Valor Econômico
