A história das chamadas canetas emagrecedoras começa longe das prateleiras das farmácias e dos consultórios. A sua origem está no deserto. Na década de 1980, cientistas ficaram intrigados com a capacidade do monstro-de-gila, um lagarto de cerca de 50 centímetros, se alimentar poucas vezes ao ano.
Ao investigarem o fenômeno, o bioquímico John Pisano, o gastroenterologista Jean-Pierre Raufman e o endocrinologista John Eng identificaram na saliva do réptil uma molécula semelhante ao hormônio humano responsável pelo controle da glicose no sangue. A descoberta levantou à hipótese de uso no tratamento do diabetes, de acordo com informações da Universidade de Queensland.
A substância, conhecida como exendina-4, apresentava cerca de 50% de semelhança com o GLP-1 – hormônio intestinal ligado à saciedade -, segundo a professora-instrutora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Andressa Heimbecher Soares.
Apesar do potencial, a indústria farmacêutica inicialmente ignorou a descoberta. Somente em 2005, os primeiros medicamentos tiveram a aprovação da vigilância sanitária dos Estados Unidos e chegaram ao mercado. O que chamou a atenção, porém, foi o efeito colateral: a perda de peso dos pacientes.
A partir daí, a história vira uma corrida industrial. O primeiro grande salto foi dado com a liraglutida, desenvolvida pela Novo Nordisk. Mais potente, o medicamento inaugurou uma nova fase ao ser usado diretamente para a perda de peso. “Foi uma revolução”, diz a professora Soares. Embora eficaz, o tratamento ainda enfrentava barreiras, como o custo e a necessidade de injeções frequentes.
A resposta veio com a evolução das moléculas. Alterações estruturais aumentaram sua estabilidade, permitindo reduzir a frequência de aplicação. A semaglutida, aprovada anos depois, consolidou esse avanço ao possibilitar o uso semanal.
Em seguida, a concorrente Eli Lilly desenvolveu a tirzepatida, uma molécula que combina a ação de dois hormônios. Mais recentemente, a indústria tem estudado terapias com ação tripla, como a retatrutida. Paralelamente, uma nova fronteira começa a se desenhar: a das pequenas substâncias que buscam reproduzir o mecanismo de ação de forma mais simples. A promessa é tornar os tratamentos mais baratos e estáveis.
Fonte: Valor Econômico