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Empresas sul-coreanas do segmentos de beleza e estética têm olhado o Brasil como mercado de negócios, com aquisições e parceria para lançamento de produtos. O movimento acontece em paralelo à onda de expansão da cultura sul-coreana, chamada de “k-wave”, que também inclui o aumento do interesse por “k-beauty”, como são chamados produtos de beleza e cuidados com a pele, além de dispositivos estéticos coreanos.
A tendência acontece há mais de uma década, mas se intensificou no Brasil nos últimos anos. Segundo a Korea Desk, divisão do escritório Demarest que assessora coreanas interessadas em investir no mercado brasileiro, barreiras na esfera regulatória continham o ritmo do movimento.
“Tínhamos essa resistência sobre se valia a pena e se esse mercado de beleza pegaria no Brasil, que acabou sendo superada, um pouco por conta da ‘k-pop’, da ‘k-culture’ e de toda essa onda de ‘k-wave”, disse Min Gon Kim, sócio na divisão.
O perfil da operação de empresas coreanas do setor de beleza e de dispositivos estéticos tem mudado no país, com maior interesse na presença local, e não apenas na exportação. “Com investimento direto e aquisições estratégicas”, disse o sócio. A segunda opção, junto com a estruturação de “joint ventures”, afirmou, é mais preferida porque permite o aproveitamento de estruturas já existentes para acelerar trâmites na Anvisa, a agência reguladora brasileira, e garantir rápida entrada no país.
No segmento de dispositivos médicos e estéticos, a Jeisys Medical chegou ao Brasil em setembro do ano passado, com a aquisição por cerca de R$ 100 mil de uma empresa de prateleira (“shelf company”), companhias não operantes, mas que já têm licenças e registros para entrar em operação. O país se tornou o primeiro na América Latina a contar com operação direta da coreana e a ambição é a de que o lucro no Brasil chegue a R$ 450 milhões em 2030, com distribuição dos aparelhos para a classe médica.
“O primeiro pensamento foi fazer com que o mundo todo, e não apenas o mercado asiático, tivesse acesso às nossas tecnologias”, disse Ricardo Natali, presidente da Jeisys no Brasil. “Temos aqui em torno de 35 a 40 mil clínicas que são potenciais compradoras.”
A Classys, outra fabricante coreana de dispositivos estéticos, líder do segmento na Coreia do Sul, também chegou ao Brasil com a aquisição da brasileira Medsystems, que importa e vende equipamentos dermatológicos. A operação foi concluída neste mês e a brasileira foi avaliada (“enterprise value”) em R$ 388 milhões no momento da compra. A Medsystems distribuía os equipamentos da coreana, criadora do Ultraformer, máquina conhecida no mercado para tratamentos dermatológicos. Com a aquisição, a Classys passa a operar diretamente no Brasil, na Argentina e na Colômbia.
A companhia conta agora com cerca de 15 mil clínicas parceiras na região e tem o Brasil como maior operação fora da Coreia do Sul. “Eles investem muito em tecnologia e podermos trazer essa tecnologia para o Brasil tem a ver também com essa tendência de ‘k-beauty’ dos consumidores, que têm buscado por tecnologias coreanas”, disse Andrea Gaeta, presidente da Classys para Brasil, Argentina e Colômbia.
Em outra frente, a Hugel, uma das líderes coreanas em toxina botulínica e estética médica, também lançou no ano passado produto em parceria com a Derma Dream, empresa brasileira de estética. No arranjo, ela produz a toxina e a brasileira a distribui.
O Brasil conta com outros atores interessados em seu mercado consumidor, terceiro maior do mundo no segmento de beleza e cuidados pessoais, segundo a Abihpec, entidade do setor.
Em fevereiro, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) se encontrou com as coreanas AmorePacific e LG H&H, divisão do conglomerado para beleza, saúde e cuidados para a casa, em Seul. “Eles queriam muito entender a dificuldade e as barreiras de como entrar no mercado. Sabem que temos um órgão regulador forte, que é a Anvisa”, disse Maria Paula Veloso, gerente de indústria e serviços na agência.
A Korea Desk mantém conversas com três fabricantes de cosméticos coreanas, entre médio e grande portes, também interessadas na operação direta no país. “Os produtos delas estão aqui, mas agora querem entrar no país, para ter maior controle na distribuição”, disse o sócio na divisão, sem citar nomes.
Também pode impulsionar o segmento de beleza coreana a agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente sul-coreano Lee Jae-myung, que em fevereiro resultou na assinatura de acordos de cooperação e de memorando que busca impulsionar a cooperação regulatória no setor de saúde.
Tatiana Sister, sócia de contratos comerciais e franquias do BMA Advogados, disse que o memorando cria canal de aproximação para troca de informações técnicas, que podem tornar análises mais rápidas. Segundo ela, o documento não cria vantagens exclusivas para produtos coreanos e regras sanitárias brasileiras permanecem iguais para os países. Contudo, disse, diminui incertezas regulatórias e pode agilizar processos das coreanas. “Pode, certamente, acelerar a entrada de produtos coreanos, no curto prazo, e especialmente em um mercado brasileiro que já tem forte demanda por ‘k-beauty.”
Levantamento da Abihpec mostra que embarques coreanos de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos para o Brasil quase triplicaram em três anos e somaram US$ 34,6 milhões (R$ 178,7 milhões ao câmbio atual) em 2025, tornando aquele país a 7ª principal origem dessas importações.
A expectativa da ApexBrasil é a de que o fluxo aumente em ambos os sentidos. Segundo a agência, no sentindo oposto, a Coreia do Sul está na 27ª posição como destino desses itens. Para Veloso, a aproximação resultará em futuras negociações e parcerias tecnológicas, mas o tom é de cautela. “Tem muita coisa boa de fato que vem por aí, mas não podemos ser imediatistas.”
Segundo a Anvisa, o principal objetivo do memorando é a troca de informações. “Por se tratar de um acordo inicial, não há impacto imediato previsto sobre requisitos de registro, regras ou prazos de análise no mercado brasileiro”, informou, em nota.
Fonte: Valor Econômico