A área reúne cinco das oito moedas de melhor desempenho do mundo em 2023, beneficiadas pela atuação antecipada e decisiva dos bancos centrais da região, que aumentaram os juros e vêm mantendo as taxas altas mesmo com a queda da inflação. Os retornos totais dos bônus em moeda local também subiram bem mais que os dos países desenvolvidos, uma vez que os altos rendimentos ajustados pela inflação chamam a atenção dos investidores.
“A cada mês que passa, o rendimento real fica cada vez maior”, disse Paul Greer, gestor de carteira de câmbio e títulos de países emergentes na Fidelity. “Logo, cada vez mais investidores querem colocar seu dinheiro em moedas da América Latina por esse motivo.”
Greer, cujo portfólio tem peso maior em títulos em moeda local do Brasil, México, Colômbia, Peru e Uruguai, disse que, para ter exposição tanto em dívida governamental quanto em moedas, a América Latina é “o lugar onde se estar”. Uma exceção, diz, é a Argentina, sem acesso aos mercados internacionais após o calote da dívida e com inflação acima de 100%.
Os bancos centrais da América Latina tomaram as ações mais rápidas e decisivas no mundo quando as pressões inflacionárias surgiram após a pandemia, o que ajudou a conter o avanço dos preços de forma muito mais rápida do que em outras regiões.
Os juros altos, porém, não sufocaram o crescimento econômico. Brasil e México – as duas maiores economias da região em termos de PIB e as mais populares entre investidores internacionais – superaram as previsões de crescimento no primeiro trimestre deste ano, o que levou economistas a elevarem suas projeções para o fim de 2023.
No Brasil, maior exemplo de altas de juros antecipadas e agressivas, a inflação anual está abaixo de 4%, em comparação a mais de 13% no mesmo período de 2022, enquanto as taxas de juros estão em 13,75% desde agosto de 2022. No México, os juros estão em 11,25% desde março, com a inflação tendo caído para 6% em maio.
“Em lugares como Brasil ou México, agora estamos falando de rendimentos reais de 6% e 4%, com base nas expectativas inflacionárias, o que é um argumento realmente convincente para estar comprando essas moedas”, disse Iain Stealey, diretor de investimentos de renda fixa global da J.P. Morgan Asset Management.
“Se é uma operação lotada? Se todo mundo se jogou nisso? Não acho que seja o caso ainda”, disse, acrescentando que a participação de estrangeiros em títulos de moeda local de emergentes ainda é baixa no pós-pandemia e que investidores em multiativos “ainda não migraram para a dívida” desses países.
Uma das razões para investidores estarem de volta à América Latina é que o nervosismo do mercado ante governos de esquerda no Brasil, Chile, Colômbia e Peru foi amenizado pela falta de maioria nos respectivos Congressos, que os impediu de executar muitas de suas políticas. E os bancos centrais mantiveram sua independência, ignorando os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, e Andrés Manuel López Obrador, no México, que defendiam o corte de juros alegando que as taxas sufocam o crescimento econômico. “Apesar de toda a retórica dos políticos, isso não afetou as decisões dos bancos centrais”, disse Geoffrey Yu, estrategista sênior de câmbio no BNY Mellon.
Yu disse que outro motivo para o sucesso das moedas e títulos da América Latina este ano é que investidores estrangeiros vinham evitando a região há anos. “Praticamente não havia posicionamento, então é uma operação fácil. É um bom momento para comprar títulos antes que os cortes de juros comecem.”
Agora, a preocupação para os investidores em moedas é que a onda de valorização perca força quando os BCs começarem a cortar os juros antes de outras regiões. O Chile está prestes a começar a reduzi-los neste mês, segundo investidores, seguido pelo Peru e Brasil, em agosto, e pela Colômbia e México, até o fim do ano.
“A estes níveis, temos um pouco menos de convicção em relação ao peso [mexicano], que teve uma combinação de desempenho muito forte e de volatilidade relativamente baixa”, disse Daniel Ivascyn, diretor de investimentos da Pimco. Ele acrescentou, porém, que os títulos no México e no Brasil “estão começando a parecer interessantes”, à medida que a inflação recua e a perspectiva de cortes dos juros se aproxima. “Eles entendem o custo de se atrasar na inflação. Pelo menos a oportunidade de um desempenho mais sustentável está lá”, disse.
Embora alguns investidores digam que o peso mexicano começa a parecer supervalorizado, se os BCs reduzirem as taxas lentamente, as moedas em toda a região poderiam continuar a ter bom desempenho. Greer disse estar ainda apostando nas principais moedas da América do Sul porque “a inflação continuará caindo mais rápido do que os bancos centrais se atreverão a cortar as taxas de juros”.
O México, em especial, tem algumas vantagens estruturais de longo prazo, como grande beneficiário tanto do chamado “friendshoring” (a terceirização da produção para países amigos) de empresas americanas saindo da China para mercados de trabalho de baixo custo mais próximos quanto do aumento das remessas externas ao país, impulsionadas pelo baixo desemprego dos EUA. Também tem as finanças mais estáveis da região, fortalecidas pela contenção de gastos públicos na resposta à pandemia, embora seja um dos emergentes mais sensíveis a qualquer desaceleração da economia dos EUA.
Apesar dos riscos, Jim Cielinski, chefe mundial de renda fixa da Janus Henderson, disse que os mercados emergentes e em desenvolvimento “parecem muito mais bem posicionados no agregado” do que os mercados desenvolvidos. “Nossa expectativa seria de um peso mexicano e um real brasileiro mais fortes no fim do ano”, disse.
Fonte: Valor Econômico


