Por Gabriel Roca e Victor Rezende — De São Paulo
10/01/2024 05h02 Atualizado há 5 horas
Ainda que persistam algumas incertezas relacionadas à condução da política fiscal e à manutenção da meta de resultado primário, o Tesouro Nacional deve ter pela frente um ano com menos desafios na gestão da dívida pública. O menor volume de vencimentos em relação a 2023 e a demanda elevada por títulos públicos, já observada em novembro e em dezembro, podem dar sustentação a uma melhora na composição da dívida à frente, com a oferta de títulos de prazos mais longos.
Nos cálculos da Kinea Investimentos, as emissões de papéis da dívida pública em 2023 totalizaram R$ 1,303 trilhão frente a vencimentos da ordem de R$ 1,4 trilhão. E, neste ano, os vencimentos devem alcançar um nível ligeiramente menor, de cerca de R$ 1,25 trilhão. “É um número relativamente sadio de vencimentos em 2024, já que tivemos um número maior em 2023. Além disso, a distribuição dos papéis emitidos no passado e que vencem em 2024 é melhor que a que enfrentamos em 2023”, afirma Leandro Teixeira, gestor de renda fixa da casa.
Ele chama atenção para o grande volume de vencimentos que ocorreu já em 2 de janeiro. Do total, houve o pagamento de cupom de NTN-Fs (títulos prefixados com juros semestrais), de aproximadamente R$ 21 bilhões, além do vencimento de cerca de R$ 280 bilhões em prefixados curtos (LTNs), emitidos, majoritariamente, durante a pandemia. “Foi o bote salva-vidas do Tesouro em 2020 e vamos ver uma queda, do ponto de vista nominal, do colchão de liquidez. Depois, no entanto, há poucos vencimentos e há bastante tempo para esse caixa ser recomposto. É uma situação confortável”, afirma.
O estrategista-chefe da Warren Investimentos, Sérgio Goldenstein, observa, inclusive, que já no fim do ano passado o Tesouro se valeu da melhora para ativos de risco no exterior para aumentar o montante semanal de emissões de títulos. “O volume colocado em dezembro alcançou R$ 119,2 bilhões. Como houve apenas três semanas de ofertas públicas no mês, a média semanal foi de R$ 39,7 bilhões, a maior do ano”, diz, destacando, em especial, as fortes emissões de LTNs e de títulos indexados à taxa Selic (LFTs).
Mesmo com a alta das taxas dos juros futuros em 2024, os dois primeiros leilões do ano foram bastante expressivos. As vendas de LFTs e de NTN-Fs deste ano, inclusive, foram maiores que todas as realizadas em 2023, o que tem ajudado o Tesouro na estratégia de alongar a dívida. No fim de novembro, o prazo médio da dívida mobiliária federal estava em 3,92 anos.
Houve oferta de 7 milhões de NTN-Fs na quinta-feira, com foco nos títulos para 2035, colocada integralmente. Ontem, o Tesouro fez uma grande emissão de LFTs, ao emitir R$ 25 bilhões com a venda de quase 1,8 milhão de papéis. O destaque ficou com a oferta de 1,5 milhão de títulos para março de 2030.
“Olhando à frente, temos visto uma demanda cativa por títulos pós-fixados. Ao contrário de 2020, quando o juro real era negativo, a taxa nominal, mesmo com a queda da Selic, ainda é atrativa e isso gera uma demanda ainda relevante pelas LFTs”, diz Goldenstein. Para ele, mesmo ao se considerar uma Selic de 9% no fim do ano, a taxa de juros média de 2024 deve ficar em torno de 10%. “Ainda é um juro real muito positivo e atrativo”, destaca o estrategista.
Goldenstein também observa que, desde novembro, o apetite por papéis prefixados aumentou de forma significativa diante do ambiente externo mais favorável. “Isso contribuiu para o deslocamento para baixo da curva de juros doméstica e esse aumento do apetite por prefixados. Os volumes de emissões de novembro e dezembro foram bem maiores que os volumes de julho a outubro”, diz. E, para ele, a continuidade dos cortes na Selic deve consumir ainda algum prêmio na parte intermediária da curva de juros.
Na visão do executivo da Warren, o Tesouro deve manter uma estratégia ainda cautelosa, mas pode buscar algum aumento, ainda que discreto, da fatia dos títulos prefixados na dívida pública. “Dada a dinâmica positiva, é algo que o Tesouro deve perseguir.
É o que também diz o estrategista de renda fixa da BGC Liquidez, Daniel Leal, para quem o Tesouro deve manter firme a tentativa de concentrar as emissões em prefixados, mas sem se afastar tão cedo das vendas de LFTs. “Em 2024, vencem mais prefixados e o Tesouro deve pesar um pouco a mão nas emissões. Podemos, inclusive, ver uma piora na composição da dívida devido aos vencimentos maiores de prefixados e as taxas flutuantes devem seguir com participação expressiva, em torno de 40% da dívida”, afirma.
Mesmo assim, Teixeira, da Kinea, considera positivas as novidades no cronograma de leilões de títulos do Tesouro em 2024. Primeiro, a inclusão de vencimentos de LFTs para os meses de junho e dezembro. “Os meses que não têm fluxos de pagamento no Tesouro são esses meses. Mesmo que não tenhamos vencimentos em fevereiro e novembro, há pagamento de cupons de NTN-Bs [papéis atrelados à inflação]. Então, você vê que o próprio Tesouro está buscando uma distribuição de caixa mais homogênea ao longo do ano”, afirma.
No entanto, Goldenstein, da Warren, alerta que o aumento nos vencimentos de LFTs pode diluir a liquidez. “Na medida em que a dívida está crescendo, faz sentido abrir mais um vencimento, mas não ofertar papéis que vencem em uma distância curta entre si, de apenas três meses. Isso pode diluir muito a liquidez entre esses dois títulos”, diz. Além disso, ele se surpreendeu com a emissão de LTNs de prazo mais longo (com vencimento em 72 meses, em janeiro de 2030).
“Se ele está ofertando é porque houve demanda por alguns ‘players’ de mercado. Mas a pré de longo prazo é a NTN-F e a LTN têm prazos mais curtos e médios. Isso pode criar uma concorrência entre as LTNs e as NTN-Fs. A não ser que o Tesouro tenha identificado uma demanda muito expressiva por essa LTN, é um papel que concorre bastante com a NTN-F para 2031. Se tem uma demanda forte por LTN 2030, faz sentido emitir papel para 2031?”, questiona Goldenstein.
Para Teixeira, da Kinea, o Tesouro mostrou maior disposição em emitir prefixados de longo prazo, em uma tentativa de melhorar a previsibilidade da gestão da dívida. Segundo o executivo, ao colocar no mercado um papel como o janeiro/2030, o Tesouro está respeitando sua própria regra de não criar NTN-Fs de vencimento em anos pares, mas, ao mesmo tempo, alonga a curva de prefixados sem cupom. Assim, acrescenta, a dívida é muito mais sadia e de fácil previsibilidade, já que, independentemente do que ocorrer com a Selic ou com a inflação, o Tesouro sabe quanto precisará desembolsar em 1º de janeiro de 2030. “Achei isso muito inteligente da parte do Tesouro”, diz.
Fonte: Valor Econômico


