Psiquiatra Anna Lembke diz que crise pode estar chegando ao Brasil
Por Márcio Ferrari — Para o Valor, de São Paulo
A chamada epidemia dos opioides nos Estados Unidos começou na virada do século e não dá sinais de terminar. Atualmente os opioides — a maioria receitada legalmente como analgésicos — são responsáveis por 100 mil mortes anuais, incluindo vítimas pré-adolescentes. A crise pode estar chegando ao Brasil. Um sinal disso é que foram realizadas neste ano as primeiras apreensões no país de frascos de Fentanyl, um opioide cem vezes mais forte do que a morfina que estava em mãos de traficantes de drogas ilegais. Supõe-se que tenham sido desviados ou roubados de hospitais.
Os opioides levaram a psiquiatra americana Anna Lembke, professora da faculdade de medicina da Universidade Stanford, a escrever o livro “Nação tarja preta”, lançado recentemente pelo selo Vestígio da editora Autêntica (208 págs., R$ 69,80). Lembke — que estará em São Paulo na próxima segunda-feira — ampliou o foco para todas as drogas que necessitam de prescrição médica, incluindo as psicoativas (antidepressivo, antipsicóticos, estabilizadores de humor e remédios contra insônia), também sujeitas a causar dependência decorrente de uso abusivo. Ela havia publicado anteriormente “Nação dopamina” (Autêntica, 2022), sobre a busca de prazer por fatores exógenos, especialmente os fármacos, nas sociedades contemporâneas.
Para Lembke, o excesso de prescrição de drogas se deve principalmente a dois fatores. Primeiramente, a ideia, presente em quase todas as sociedades modernas, de que a dor precisa ser solucionada a qualquer custo — e rapidamente. Em segundo lugar, uma rede formada pela grande indústria farmacêutica (conhecida como Big Pharma), médicos e planos de saúde dribla tentativas de resolver a crise com sensatez e parcimônia no uso de opioides, psicoativos e outros medicamentos que causam adicção. Só de opioides, calcula-se que 300 milhões de receitas sejam prescritas por ano nos EUA.
Nos últimos anos, a epidemia gerou algumas obras audiovisuais. “All the beauty and the bloodshed” (literalmente “toda beleza e derramamento de sangue”) é um documentário premiado em 2022 no Festival de Veneza e indicado ao Oscar. O filme acompanha a luta da fotógrafa Nan Goldin em favor da responsabilização da família Sackler pela dependência e pelas mortes causadas por opioides. Os Sackler são os fundadores e proprietários da farmacêutica Purdue, fabricante do principal analgésico ligado à epidemia, o OxyContin.
Esse medicamento é o principal tema de “Império da dor”, minissérie da Netflix lançada recentemente. Entre os personagens está um dependente que começou a tomar o medicamento para tratar a dor provocada por uma queda, desenvolveu tolerância — como em geral acontece —, consumindo cada vez mais OxyContin, e chegou a inalar e injetar opioides, na forma de drogas prescritas ou ilegais, como a heroína. Outro personagem é uma funcionária da Purdue encarregada de convencer médicos, com argumentos e presentes, a receitar o OxyContin.
A série “A Queda da Casa de Usher”, baseada em textos de Edgar Allan Poe, também aborda a crise dos opioides ao mostrar uma família cuja fortuna vem de uma empresa farmacêutica que os produz.
Na entrevista a seguir, Lembke apresenta o estágio atual da epidemia de opioides e seus componentes sociais, e fala também sobre o abuso de drogas psicoativas.
Valor: Como a sra. descreveria o atual estágio da epidemia dos opioides nos Estados Unidos?
Anna Lembke: A crise está em sua terceira onda. A primeira, de 2000 a 2012, foi marcada pela adicção em opioides e mortes por overdose resultantes de prescrição médica para curar condições de dores leves e crônicas. A segunda onda, de 2012 a 2015, foi marcada principalmente pela heroína, que é um opioide, mas ilegal, quando os pacientes que haviam se tornado adictos mudaram para alternativas mais baratas e disponíveis. A terceira onda, de 2015 até agora, é causada majoritariamente pelo Fentanyl ilícito, um opioide barato e altamente poderoso que hoje representa a maior parte das mortes por overdose nos EUA, que passa de 100 mil por ano.
Valor: Por que a crise começou nas últimas três décadas?
Lembke: Porque antes havia um reconhecimento bem difundido na classe médica e em outras áreas de que os opioides frequentemente causam dependência, mesmo quando são receitados para tratamento da dor ou outras condições médicas, e portanto precisam ser usados com parcimônia. Os opioides eram estritamente regulados e os médicos estavam apropriadamente informados das consequências maléficas. No fim de 1999, a Purdue Pharma, que fabrica o OxyContin, e outras empresas da indústria de opioides sequestraram a educação médica e lançaram uma bem-sucedida campanha de desinformação que levou a um aumento disseminado de prescrições de opioide, não apenas para dor severa ou pacientes terminais, mas para toda e qualquer dor.
Valor: Por que aconteceu principalmente nos EUA?
Lembke: Os EUA têm um sistema de saúde que incentiva a prescrição de medicamentos e os procedimentos diretos, mais rentáveis do que educar os pacientes ou ministrar tratamentos mais lentos — fisioterapia, psicoterapia e educação psíquica —, que têm maior eficiência contra distúrbios de dor crônica em longo prazo. O mesmo sistema procura satisfazer os pacientes que vão dar cotações altas na internet para médicos, clínicas e hospitais, numa cultura que considera a dor um crime e uma patologia, em vez de uma parte da vida.
Valor: O abuso de opioides está chegando ao Brasil?
Lembke: É bem possível. As taxas de prescrição de opioides estão crescendo no Brasil e em vários outros países. Algumas pesquisas indicam que a Purdue Pharma e suas subsidiárias lançaram campanhas de desinformação fora dos EUA.
Valor:Ultimamente, a Purdue e a família Sackler, fundadora e proprietária da companhia, ganharam grande visibilidade. Por quê?
Lembke: Tanto a empresa quanto os membros da família estiveram envolvidos em investigações federais sobre o papel que desempenharam na epidemia de opioides.
Valor: Por que o OxyContin ainda está à venda depois de tantas mortes?
Lembke: O OxyContim em si não é o culpado. É o modo como foi vendido e empurrado tanto para médicos quanto para pacientes como sendo mais eficaz do que realmente é, e mais seguro do que realmente é. O Fentanyl, que é 50 vezes mais potente do que o OxyContim, é também comumente usado nos sistemas médicos, por exemplo em cirurgias. Não queremos um mundo sem opioides. Eles são ferramentas importantes do arsenal médico. O que nós precisamos é usá-los de modo mais consciente.
Valor: Por que a instituição das prescrições médicas não conseguiu controlar abusos de drogas legais?
Lembke: A campanha de desinformação espalhou mentiras sobre os opioides legais a ponto de convencer médicos e pacientes de que não se viciariam se os estivessem usando para casos de dor. Isso é falso. Um em cada quatro pacientes que tomam opioides vão desenvolver algum problema de abuso e um em dez, uma dependência severa. Quanto maior a dose e mais contínuo o uso, maior o risco.
Valor: Por que temos que mudar nossa concepção de dor e como?
Lembke: Tentar viver sem dor é uma fantasia inatingível, potencialmente levando a mais dor. Dito isso, é claro que precisamos tentar ajudar pessoas que estão com dores terríveis e encontrar remédios para aliviar o sofrimento. Contudo, em nossa procura por remédio, precisamos evitar as soluções rápidas que funcionam em curto prazo, mas podem causar mais problemas em longo prazo.
Valor: Existem números relativos à dependência de antidepressivos, antipsicóticos e estabilizadores de humor?
Lembke: Não que eu saiba. A noção de que esses medicamentos podem ser administrados abusivamente ou que podem causar dependência física ainda é bem recente.
Valor: Quais são os principais efeitos colaterais de medicamentos psicotrópicos?
Lembke: Todo medicamento tem efeitos colaterais. A questão é se os benefícios superam os riscos num determinado indivíduo. Os psicotrópicos ainda podem ser ferramentas úteis para muitos pacientes, contanto que sejam adequadamente prescritos e monitorados.
Valor:Qual seria o perfil típico dos adictos em drogas prescritas?
Lembke: Não há tipicidade. Qualquer pessoa pode se tornar dependente de um medicamento adictivo, sendo ou não prescrito por um médico. Mas há fatores de risco como histórico pessoal ou de dependência, transtorno mental ou dor crônica, além de doses altas e contínuas.
Valor: Socialmente, qual é a diferença entre a dependência de drogas legais e ilegais?
Lembke: A adicção a drogas ilícitas é mais estigmatizada do que a de drogas prescritas. Por isso, a dependência de drogas prescritas pode ser ignorada por mais tempo.
Valor: De acordo com seu livro, há um rede invisível, mas poderosa que dá apoio à atual epidemia de adicção em drogas prescritas. Como rompê-la?
Lembke: Seria necessária uma reformulação total do sistema médico para prevenir que a indústria de dispositivos farmacêuticos e os próprios médicos influenciem a ciência e a educação médica. Um passo importante nessa reformulação seria que a medicina priorizasse os cuidados de longo prazo em vez de remédios imediatistas.
Valor: A sra. menciona que existe uma parceria entre a Big Pharma e os médicos. Como isso ocorre?
Lembke: A Big Pharma identifica os principais líderes na medicina, usualmente médicos, mas também farmacêuticos, enfermeiros etc., e paga a eles para promover suas drogas usando pseudociência como ferramenta promocional. A indústria farmacêutica também faz lobby junto a instituições médicas para que espalhem informações falsas e ajam para afrouxar regulações e pôr em dúvida as pesquisas sobre as prescrições.
Valor: Por que os sistemas de saúde, públicos e privados, resistem em reconhecer e tratar a dependência química?
Lembke: As pessoas em geral resistem em aceitar que uma droga prescrita possa representar uma doença. O que não se percebe é que, com o tempo, as drogas prescritas mudam o cérebro de modo que as pessoas percam muito ou quase totalmente a habilidade individual de parar de usá-las.
Valor: Quais são os tratamentos mais eficazes da adicção em drogas legais?
Lembke: A dependência de qualquer substância ou comportamento é um transtorno que requer intervenção biológica e psicológica e mudança de hábitos sociais.
Valor: A sra. também menciona um efeito político das drogas prescritas, anestesiando as massas e evitando mudanças na sociedade. Já estamos no “admirável mundo novo” de Aldous Huxley?
Lembke: Sim, de certa forma.
Fonte: Valor Econômico