Por Peter Millard — Bloomberg
09/09/2022 05h02 · Atualizado
Da Arábia Saudita ao Texas, empresas petrolíferas aumentam produção para lucrar com o salto nos preços. Mas a América Latina, que abriga um quinto das reservas mundiais, não está aproveitando essa nova onda do petróleo.
Em toda a região, os benefícios de preços que chegaram a ultrapassar US$ 100 o barril foram minados por políticas nacionalistas que reforçaram o controle governamental do setor de energia e marginalizaram investidores estrangeiros que haviam ajudado a aumentar a produção.
Os volumes têm crescido no Brasil e na Guiana, mas na região como um todo a produção caiu tanto que mal atende à demanda. México e Argentina agora importam mais petróleo e gás natural do que exportam.
Líderes de países latino-americanos produtores de petróleo se tornaram alvo de tensões políticas com a dependência de importações caras de combustíveis. Após enfrentar a revolta de caminhoneiros e consumidores com alta de preços da gasolina e do diesel no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro está atrás de Luiz Inácio Lula da Silva nas intenções de voto para a eleição de outubro. No Equador, Guillermo Lasso quase sofreu impeachment após protestos contra os preços de combustíveis e inflação. O México tem gastado bilhões para subsidiar a gasolina.
Isso significa que o mundo não pode contar com a América Latina para aumentar a produção de petróleo e gás natural à medida que a invasão da Ucrânia pela Rússia reduz a oferta global. Embora produtores nos EUA e no Oriente Médio estejam aumentando produção, esse esforço ainda não é suficiente para deter a alta de preços que ameaça desencadear racionamento de combustível e desencadear recessão nas economias.
Trata-se de um forte contraste com o boom anterior de commodities na América Latina. Nos anos 2000, líderes como Hugo Chávez, da Venezuela, usaram dinheiro extra de petróleo e gás para reforçar sua popularidade em casa e expandir sua influência regional. Mas essas receitas descomunais só foram possíveis por causa dos investimentos estrangeiros que elevaram a produção. Quando Chávez nacionalizou o setor do petróleo, grandes projetos foram mal administrados e o dinheiro secou.
“A indústria petrolífera foi vítima do nacionalismo de recursos que prevaleceu durante o superciclo”, disse Francisco Monaldi, professor de economia energética do Instituto Baker de Políticas Públicas da Universidade Rice e especialista em América Latina. “Agora eles não têm capacidade para fazer o que Chávez fez em 2003 e 2004, para acumular gastos maciços”.
Os saldos comerciais seriam ainda piores para as estatais exportadoras da América Latina se os preços do petróleo não tivessem disparado neste ano. A Petrobras e até mesmo a endividada Pemex divulgaram lucros robustos e pagaram dividendos altos.
Mas os benefícios econômicos mais amplos da alta do petróleo não foram suficientes para impedir uma nova guinada para a esquerda na América Latina. A Colômbia elegeu recentemente um presidente que quer banir o fraturamento hidráulico (“fracking”). No Brasil, Lula, que presidiu uma expansão econômica em seu primeiro governo graças em parte às commodities, é o favorito para suceder a Bolsonaro. O líder do México, Andrés Manuel López Obrador, procurou fortalecer estatais eliminando regras que promoviam um mercado mais competitivo.
Monaldi estima que os poços da América Latina teriam o potencial de bombear 20 milhões de barris por dia, mais que o dobro dos níveis atuais, se os produtores da região tivessem os mesmos benefícios das empresas no Texas, que têm regras mais favorável aos negócios, como fácil acesso ao capital, impostos baixos e regras mais frouxas. Em vez disso, as políticas intervencionistas – como o confisco de participações em campos de petróleo de parceiros estrangeiros, aumento de impostos e embargo à exploração de áreas prontas para perfuração – estão voltando com força. “Os riscos acima do solo são impressionantes e o quanto afetaram o potencial do setor.”
O maior destaque deste ano na região é a recém perfuração offshore na Guiana. Mas a América Latina não verá mais aumentos na produção até 2023, quando chegará o próximo petroleiro de produção flutuante da Exxon Mobil. A produção de petróleo da Venezuela se recuperou sob a aplicação mais branda das sanções dos EUA em 2021, mas não está claro se pode expandir ou mesmo manter os níveis atuais – produção que ainda é uma sombra do que era apenas cinco anos atrás. Os ganhos do Brasil, que possui recursos offshore significativos que ainda não foram explorados, foram modestos.
É improvável que mesmo o aumento da produção de petróleo da Argentina para o maior volume em uma década traga algum alívio aos mercados, já que o país é apenas um produtor de médio porte. Restrições de infraestrutura e controles de preços domésticos limitam a rapidez com que ela pode se expandir, apesar dos depósitos de xisto de classe mundial.
No total, a Agência Internacional de Energia (AIE) espera um adicional de apenas 400 mil barris por dia neste ano da América Latina, um terço do crescimento esperado nos EUA. A principal história de sucesso na região neste século é o Brasil, mas mesmo assim a produção do país seria o dobro dos níveis atuais se o primeiro governo de Lula não tivesse parado o desenvolvimento por cinco anos para reescrever a legislação do petróleo, segundo alguns analistas.
Se Lula vencer, como se espera, a principal preocupação é que o governo atrase o desenvolvimento de grandes descobertas para aumentar a participação do Estado, disse André Fagundes da Welligence. A Petrobras está atualmente se preparando para perfurar uma região offshore pouco explorada perto da margem equatorial.
Se o Brasil fizer novas descobertas importantes, como os sucessos recentes na Guiana e no Suriname, um governo Lula poderia retardar o desenvolvimento para aumentar a arrecadação, disse Fagundes.
Fonte: Valor Econômico

