28 Aug 2023 LUÍZA LANZA E-INVESTIDOR
“Buscamos empresas que tenham um certo padrão. Lucrativas, altamente rentáveis, com um balanço sólido, em administradas, com potencial de crescimento”
Desde que o mercado brasileiro começou a precificar que a taxa de juros do País cairia no segundo semestre deste ano, as ações da B3 passaram a ensaiar o movimento de alta. Entre as small caps, aquelas empresas de menor capitalização, há nomes com altas acumuladas em 80% – e, para muitos analistas, é esse o grupo de papéis que vai sair como o grande beneficiado pelo ciclo de queda na Selic.
Tiago Reis, analista e fundador da Suno Research, tem outra visão. A preferência do terceiro maior influenciador digital de finanças do País, segundo pesquisa da Anbima, são ações “lucrativas, altamente rentáveis, que tenham um balanço sólido, sejam bem administradas, com potencial de crescimento e que tenham um valuation barato”. Independentemente do tamanho da companhia. É por isso que a carteira de recomendações da Suno está focada em Vale e Banco do Brasil.
Mas tem ainda um outro setor entre as preferências: o agronegócio, especialmente nomes como 3tentos, Boa Safra e Kepler Weber. Essa é, inclusive, a grande aposta de Reis do que pode despontar no longo prazo, mas que está passando batido pelo mercado brasileiro.
A Bolsa brasileira vem em um rali acentuado nos últimos meses. Qual a sua avaliação desse movimento?
Isso faz parte de um movimento de regressão à média, porque os múltiplos das empresas brasileiras estavam extremamente descontados. Nos períodos em que a Bolsa negociou com desconto semelhante, em 2008, 2015 e em alguns dias da pandemia, quem comprou fez um bom negócio. Se as coisas voltarem ao normal, e elas sempre voltam, os múltiplos também deveriam voltar. O que está acontecendo é consequência da redução dos ruídos que existiam. Os investidores tinham preocupações e ainda têm, mas de maneira menos intensa, dos chamados riscos de cauda, sobretudo do lado fiscal. Como o governo caminhou para o centro e não seguiu a linha mais radical, os múltiplos também caminharam para a média. Esse rali de alta é consequência da redução de percepção de risco por parte dos investidores.
Ainda dá tempo de fazer um bons negócios?
De maneira geral, a resposta é sim. Estamos indo em direção à média, mas ainda abaixo em termos de múltiplos. Quando olhamos ação por ação, vemos boas oportunidades inclusive em nomes que são relevantes para o índice, como a Vale e Banco do Brasil. Se estivermos certos e essas empresas subirem, certamente vão carregar junto o Ibovespa.
Muitos analistas têm apontado as small caps como aquelas ações que mais podem subir, dado o contexto de queda de juros. Mas você mencionou empresas já bem consolidadas. Por que essa preferência?
Buscamos empresas que tenham um certo padrão. Lucrativas, altamente rentáveis, que tenham um balanço sólido, sejam bem administradas, com potencial de crescimento e um valuation barato. É difícil encontrar tudo isso simultaneamente, mas dá para montar uma carteira que tenha a maior parte dessas características.
De certa forma, a Suno é conhecida por fazer algumas apostas ousadas. Vocês têm alguma oposta “contra a maré” nesse momento?
Fico feliz de ter essa reputação. O que temos um pouco de diferente hoje é uma visão positiva do agro e acreditamos que o mercado está sendo muito duro com nomes como 3tentos, Boa Safra, Kepler Weber, que gostamos bastante. O agro sofre de um desconhecimento. Como o setor é, de certa forma, é um pouco jovem na Bolsa, veio uma leva boa no último ciclo de IPOs (oferta de ações), mas ainda são poucas empresas, algumas de pouca capitalização, então esse segmento fica meio de lado dentro dos departamentos de análise. Por conta disso, talvez existam oportunidades. E repito, um pouco diferente do que era lá atrás quando fomos na contramão da opinião do mercado, eu acho que nesse ponto o mercado sequer tem opinião.
Então o agro é a sua aposta?
Muitas dessas ações estão quase no mesmo patamar do IPO e são companhias que duplicaram, triplicaram suas operações de lá para cá. E por conta disso os múltiplos estão extremamente deprimidos. A longo prazo, o agro brasileiro continua sendo bastante competitivo e vai continuar crescendo bastante. Quando o mercado ver que essas empresas não vão sofrer tanto quanto está precificado, provavelmente essas ações vão se valorizar. •
Fonte: O Estado de S. Paulo