Embora a manutenção dos juros pelo Federal Reserve (Fed) fosse amplamente esperada pelo mercado, o tom utilizado pelo presidente do banco central americano, Jerome Powell, para comentar a decisão foi visto como mais “hawkish” (propenso a juros altos) do que o esperado por agentes financeiros. Assim, os rendimentos dos Treasuries e o dólar engataram alta firme, o que pesou sobre os principais índices acionários em Nova York, que fecharam sem direção única.
No fim do dia, o rendimento da T-note de dez anos operava perto das máximas intradiárias, a 4,371%, de 4,326% no fechamento anterior. O mesmo movimento era visto na T-note de dois anos, que ia a 3,947%, de 3,875%. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes, subia 1,05%, aos 99,96 pontos.
No início da tarde, os juros operavam perto das mínimas intradiárias e o dólar se afastava das máximas, depois de uma manhã em que a divulgação de dados de atividade acima do esperado tinha estimulado um movimento de alta. A deterioração se deu após Powell afirmar que a economia americana não apresentava desempenho condizente com uma política monetária restritiva – fala vista pelo mercado como dura.
“A conferência de imprensa de Powell foi relativamente hawkish, ou pelo menos não foi ‘dovish’ [inclinada a juros baixos]”, disse Kunj Padh, estrategista do J.P. Morgan. “De fato, o mercado de juros futuros americano se reprecificou de forma hawkish e agora mostra um corte [de juros] cheio apenas em dezembro, ante outubro previamente”, acrescentou.
Durante a coletiva, Powell afirmou que a política monetária está “moderadamente restritiva” e, questionado se isso significaria que há pouco espaço para cortes caso os requisitos para um afrouxamento fossem atingidos, foi pouco enfático em sua resposta. Ao comentar se o Sumário de Projeções Econômicas (SEP) do Fed ainda representaria a visão do comitê, deu outra resposta reticente, em meio a pausas. “Você pergunta sobre SEP de junho. Eu não poderia apontá-lo seis semanas depois como expressão do pensamento das pessoas. Não posso substituí-lo na minha própria estimativa do que o SEP poderia ser. Não temos”, disse.
A recusa de Powell a fornecer orientações sobre as perspectivas para os juros, mantendo-se dependente de dados, reforçou a leitura de uma postura hawkish, na avaliação de Richard Clarida, consultor econômico global da Pimco e ex-dirigente do Fed.
“A abordagem do presidente Powell, dependente de dados, soou um tanto hawkish em relação às expectativas consensuais de que ele pudesse dar uma pista sobre um possível corte nas taxas na próxima reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) em setembro”, afirmou Clarida.
O presidente do Fed ainda amenizou o fato de os dirigentes Michelle Bowman e Christopher Waller terem votado a favor de um corte de 0,25 ponto percentual, indo contra a maioria do comitê. Powell afirmou que ambos deram boas justificativas para seus votos e que explicações serão dadas nos próximos dias.
O dissenso entre os membros nesta reunião era esperado pelo mercado. Waller, conhecido por sua postura mais conservadora, já acenava para uma abordagem mais flexível há meses, ao mesmo tempo que sinalizava seu interesse em se candidatar à sucessão de Powell. Bowman também já havia mencionado sua inclinação para um corte de juros nesta reunião.
Nesse contexto, Wall Street operou a maior parte do dia no campo positivo, impulsionada por dados do mercado de trabalho do setor privado acima do esperado e pela primeira leitura do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA para o segundo trimestre acima das projeções de analistas, enquanto o dólar e os Treasuries já registravam ganhos, mesmo que contidos.
A piora no mercado de renda fixa e o tom mais duro de Powell levaram os principais índices acionários em Nova York a devolver grande parte de seus ganhos. O Dow Jones fechou em queda de 0,38%, aos 44.461,28 pontos. O S&P 500 caiu 0,12%, aos 6.362,92 pontos; e o Nasdaq subiu 0,15%, aos 21.129,67 pontos.
Com a pauta econômica robusta, a agenda comercial, com o anúncio de tarifas dos EUA sobre a Índia e o Brasil, ficou em segundo plano em Wall Street.
Fonte: Valor Econômico


