Versão mais barata de remédios representa cerca de 90% do mercado americano
Vozes na indústria de remédios genéricos têm alertado para o risco de que as tarifas alfandegárias dos Estados Unidos provoquem a falta de produtos, inclusive de tratamentos contra o câncer, e de que façam certos medicamentos deixarem de ser lucrativos, o que poderia levar fabricantes a parar de produzi-los.
Os genéricos, que são versões mais baratas de remédios já sem a proteção de patente, representam cerca de 90% do mercado de fármacos nos EUA. A maioria tem fabricação fora dos EUA, em países de baixo custo, como a Índia. Os princípios ativos usados nos produtos muitas vezes são provenientes da China.
Até agora, os produtos farmacêuticos escaparam das novas tarifas dos EUA, mas o presidente do país, Donald Trump, disse repetidas vezes ter planos para também aplicá-las ao setor. O Departamento de Comércio dos EUA informou ter uma investigação em andamento sobre as implicações de segurança nacional das importações farmacêuticas.
O departamento tem até nove meses para publicar suas conclusões, mas o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, disse que as tarifas podem ser adotadas antes, nos “próximos um ou dois meses”.
John Murphy, executivo-chefe da Associação de Medicamentos Acessíveis (AAM, na sigla em inglês), um grupo setorial americano de fabricantes de genéricos, disse que as tarifas não beneficiariam os pacientes nem melhorariam a segurança do sistema de saúde. Também destacou que medicamentos injetáveis mais antigos, como quimioterápicos contra o câncer, são “particularmente vulneráveis”.
“Para aqueles genéricos já vendidos com margens muito estreitas, você poderia chegar a uma situação em que se torna financeiramente inviável trazer certos produtos ao mercado se eles forem perder dinheiro”, disse ele.
Murphy afirmou estar fazendo lobby na Casa Branca para que o setor seja tratado de forma diferente, sob o argumento que há outras maneiras de incentivar a produção local e que impor custos a uma indústria já em dificuldades para conseguir investimentos em bens de capital não funcionará.
“De onde vem o capital para mudar a produção se já estamos [operando] com custos quase no limite? […] e, por causa das tarifas, potencialmente no prejuízo no curto prazo?”, acrescentou.
O sistema de saúde dos EUA já enfrenta dificuldades com o suprimento de alguns produtos cujas margens de lucro são particularmente baixas. O número de medicamentos em falta atingiu o recorde de 323 no primeiro trimestre de 2024, segundo a Sociedade Americana de Farmacêuticos do Sistema de Saúde (ASHP), a maior associação de profissionais da área no país.
Segundo o executivo-chefe da Associação Britânica de Fabricantes de Genéricos (BGMA), Mark Samuels, os custos das tarifas seriam difíceis de absorver porque, com a concorrência acirrada, os preços já estão “significativamente contidos”, o que poderia elevar o “potencial para mais escassez”.
Até agora, produtos farmacêuticos escaparam das novas tarifas, mas Trump já disse ter planos para aplicá-las ao setor
A Índia seria particularmente afetada pelas tarifas farmacêuticas. O país detém uma participação de 20% na exportação global de medicamentos genéricos e de 60% no fornecimento de vacinas de baixo custo, segundo a Aliança Farmacêutica Indiana (IPA), uma associação de empresas do setor.
Alguns na indústria dizem que as tarifas dos Estados Unidos poderiam até tirar fabricantes indianas do mercado.
“Os produtos farmacêuticos indianos ficarão mais caros no mercado dos EUA, o que pode resultar em uma perda substancial de participação de mercado para nossas empresas farmacêuticas indianas”, disse B. Partha Saradhi Reddy, presidente do conselho de administração da fabricante de genéricos Hetero e membro da Câmara Alta do Parlamento indiano, em março.
Isso poderia reduzir as margens de lucro dos medicamentos genéricos de baixo custo e fazer com que deixem de ser competitivos e “viáveis” para as fabricantes, segundo Saradhi Reddy.
A Premier, uma organização de compras em grupo que adquire medicamentos para mais de 4 mil hospitais nos EUA, também acredita que pode haver aumento na escassez, mas destacou que seus contratos de três anos fixam os preços com os fabricantes de genéricos e, muitas vezes, incluem cláusulas obrigando as fabricantes que não conseguem fornecer a cobrir o custo de comprar alternativas.
As tarifas também devem provocar aumentos de preços para os consumidores. O banco holandês ING estima que uma prescrição de 24 semanas para um medicamento genérico contra câncer pode custar de US$ 8 mil a US$ 10 mil a mais se forem impostas tarifas de 25%.
De acordo com Stephen Farrelly, chefe global da área de farmacêuticos e saúde do ING, as pessoas “mais afetadas” seriam aquelas sem seguro, que pagam pelos próprios medicamentos, mas as pessoas com seguro-saúde também poderiam sofrer com prêmios mais altos no futuro.
Prashant Reddy, coautor de “The Truth Pill” (a pílula da verdade), um livro sobre a indústria farmacêutica da Índia, disse que os EUA muitas vezes não têm escolha a não ser comprar da Índia. “Muitos desses medicamentos não são fabricados em nenhum outro lugar. Eles estão atirando nos próprios pés porque isso só vai aumentar os preços nos EUA”, disse o escritor.
Fonte: Valor Econômico