Os resultados das companhias de capital aberto brasileiras no primeiro trimestre devem mostrar continuidade de tendências vistas no fim de 2024, com as atenções do mercado voltadas às declarações de executivos sobre potenciais impactos que as “tarifas recíprocas” impostas pelos Estados Unidos terão nos seus números daqui para a frente.
Analistas de bancos ouvidos pelo Valor acreditam que as companhias do setor doméstico permanecerão como destaque positivo, dado que a economia não mostrou sinais claros de desaquecimento e o consumo permanece elevado por causa das baixas taxas de desemprego.
Companhias exportadoras de commodities, por sua vez, devem ter os resultados mais afetados, com os preços dos produtos pressionados nos três primeiros meses do ano, além de efeitos cambiais expressivos em decorrência da valorização de mais de 6% do real no período.
“Muito provavelmente, a foto será parecida com a do quarto trimestre, mostrando continuidade de crescimento nos resultados das empresas domésticas, mas números estáveis ou até caindo na comparação anual para exportadoras”, diz Ricardo Peretti, estrategista de ações do banco Santander.
Ele acredita que as empresas vão sofrer deterioração em seus números ao longo do ano, por conta do desaquecimento natural da economia que virá com os juros elevados, atualmente em 14,25% ao ano, o que reduzirá a oferta de crédito, com consequente diminuição do consumo.
“A impressão que eu tenho é que teremos uma desaceleração. O quarto trimestre sofreu efeitos mais com as incertezas que geraram um estresse no mercado e as expectativas se deterioraram muito rapidamente”, comenta Carlos Sequeira, chefe de pesquisa do BTG Pactual.
No caso das exportadoras de commodities, o analista prevê que as incertezas no cenário externo e a falta de visibilidade da política de comércio exterior dos Estados Unidos afetarão as projeções das companhias e a forma como isso será comunicado ao mercado. “É difícil fazer uma previsão mais firme.”
A Vale divulgou resultados operacionais de janeiro a março na semana passada, com queda de 4,5% na produção de minério de ferro, para 67,7 milhões de toneladas, impactadas pelos efeitos sazonais típicos da temporada de chuvas. Já as vendas da mineradora subiram 3,6%, para 66,1 milhões de toneladas.
Os analistas avaliaram que os resultados do primeiro trimestre ficaram dentro do esperado, com a companhia conseguindo mover estoques e não sentindo uma desaceleração acintosa da demanda da China pela commodity, apesar da queda relativa nos preços realizados do minério de ferro no período.
A tônica dos resultados deve ser parecida para outras companhias exportadoras. Siderúrgicas ainda sentem efeitos de preços mais baixos do aço no mercado doméstico, enquanto produtoras de petróleo e celulose são pressionadas pelas cotações reduzidas de seus produtos.
A impressão que tenho é que teremos uma desaceleração. As expectativas se deterioraram”
“O Banco Central está puxando os juros pra cima, mas ainda não vai bater nos resultados do primeiro trimestre. As empresas devem permanecer mostrando resultados positivos”, comenta André Mazini, diretor de pesquisa do Citi. “Uma redução de consumo deve acontecer somente no segundo semestre”, prevê o analista.
Entre as empresas domésticas, o varejo pode ser uma surpresa positiva, com os resultados vindo melhores do que o esperado por conta da atividade econômica ainda elevada. As ações vêm reagindo a essa expectativa, com o índice das empresas de consumo na B3 (Icon) avançando 12,3% em março, superando o desempenho do principal índice, o Ibovespa, que subiu 5,1%.
No dia 2 de abril, o presidente dos EUA, Donald Trump, proclamou o chamado “Dia da Libertação”, quando anunciou tarifas sobre seus parceiros comerciais, incluindo 10% sobre produtos do Brasil. Uma semana depois, ele recuou, estabelecendo uma taxa fixa de 10% para todos os países, com exceção da China, onde a encargo chega a 145%.
Os analistas esperam que as declarações das empresas brasileiras que exportam produtos aos Estados Unidos sobre possíveis efeitos, positivos ou negativos, dessas tarifas em seus resultados sejam importantes para tentar nortear as expectativas para o restante do ano.
“A mensagem que as empresas passam sempre é importante para avalizar as expectativas”, pondera Peretti, do Santander. Ele destaca que, uma análise qualitativa das falas durante as teleconferências de resultados no quarto trimestre, já mostrou uma redução na menção de palavras que demonstram otimismo.
“O Brasil ‘saiu ganhando’ em termos relativos. Já vi leituras positivas que me parecem otimistas demais, mas pode ser algo bom para nosso setor industrial”, afirma Mazini, do Citi. “O lado ruim dessas tarifas é o risco maior de recessão global, que pode derrubar os juros americanos.”
Entre as companhias brasileiras que podem sentir mais efeitos com as tarifas impostas pelo governo americano estão as inseridas no setor de bens de capital, transporte de grãos e proteínas animais, segundo relatório recente do J.P. Morgan. Esses efeitos, no entanto, podem ser mitigados por meio de flexibilidade na cadeia de produção.
Fonte: Valor Econômico


