O “tarifaço” anunciado pelo presidente americano Donald Trump provocou uma freada brusca no movimento firme de recuperação global dos investimentos de private equity, de acordo com relatório da Bain & Company, consultoria global com sede nos EUA. No primeiro trimestre do ano, o volume de negócios havia quase dobrado em relação ao mesmo período de 2024 e atingido US$ 189 bilhões em novos investimentos, o maior nível desde o segundo trimestre de 2022. Em abril, o número de transações caiu 22% e o montante, 24% frente à média mensal de janeiro a março. “Foi um banho de água fria, um abril que não terminou”, resume Gustavo Camargo, líder da prática de private equity na Bain América do Sul.
Segundo ele, as medidas comerciais de Trump foram mais intensas que o esperado e se assemelharam ao impacto da pandemia, em 2020. “Não é que ficou ruim do dia para a noite. Ficamos sem cenário, o que é pior, e desde então temos vivido assim”, comenta. Camargo explica que o Relatório Semestral de Private Equity de 2025, o primeiro que já quantifica os reflexos práticos do tarifaço no segmento, considera um private equity mais abrangente, incluindo, por exemplo, venture capital (investimentos em startups), mercado imobiliário e infraestrutura. “Estávamos em um ambiente de negócios que parecia estar levando para um retorno à normalidade.”
Outra pesquisa feita em abril, da Campbell Lutyens, mostrou que 33% dos players que costumam alocar no setor disseram que estavam reduzindo seus investimentos em resposta às tarifas americanas, enquanto 8% estavam paralisando completamente. Com isso, a previsão da Bain é que 2025 termine estagnado ou ligeiramente acima de 2024, mesmo que os negócios voltem a acontecer no terceiro trimestre. Camargo considera o segundo trimestre perdido, já que, passados dois meses do tarifaço, ainda não é possível prever o futuro dado esse novo realinhamento macroeconômico mundial. “Tem um movimento acontecendo de investidores saindo dos Estados Unidos com mais intensidade para outras moedas, e um pedaço é para emergentes.”
Ele lembra que a guerra comercial beneficia o agronegócio brasileiro, por exemplo, e os setores afetados, como o aço, têm reflexos em menor nível que em outros países. O Brasil, no entanto, tem cenário diferente, avalia, por ter incertezas políticas que levam a movimentos econômicos, caso dos temores em relação à política fiscal e dos juros altos. O executivo diz que o canal direto de transmissão é o custo de capital alto, já que o tarifaço “não está fazendo mercado”.
Para Camargo, o investidor do segmento está exposto no Brasil a um ambiente regulatório que muda muito, mas ainda assim os bancos de investimento estão buscando gestoras para aplicar recursos. “Os negócios estão acontecendo em teses de aceleração de crescimento.”
Ele cita o exemplo da fusão da Skala, controlada pelo fundo de private equity Advent, e da Lola from Rio, anunciada no dia 6 de junho, que criou um grupo de R$ 2 bilhões em itens para cabelo. Outro caso é o da captação de R$ 3,2 bilhões da Vinci Compass, braço da Vinci Partners, para seu quarto fundo de private equity, maior veículo da história da gestora. “Essa engrenagem segue girando.”
Não é que ficou ruim do dia para a noite. Ficamos sem cenário, o que é pior, e desde então temos vivido assim”
Segundo Camargo, com o custo de capital alto, porém, o perfil das fusões e aquisições mudou: no passado, a busca era por empresas em dificuldades e, agora, é por firmas já estabelecidas. Os setores mais resilientes, destaca, são de saúde, educação e serviços para empresas, além de bens de consumo não essenciais, puxados pela expectativa de crescimento do PIB. Em venture capital, o foco é em soluções de tecnologia e inteligência artificial generativa, como no resto do mundo. “Nos próximos anos teremos vento a favor para trazer capitais, mas no curto prazo estamos vendo um quadro que é resultado dessas incertezas e do custo de capital alto.”
Conforme o relatório da Bain, a captação global para fundos de private equity teve queda pelo quinto trimestre seguido de janeiro a março. E foi o primeiro trimestre em dez anos sem o fechamento de nenhum fundo superior a US$ 5 bilhões. Para a consultoria, é um sinal claro da redução de 3% no tamanho médio e do número de fundos fechados. Camargo avalia que essa dificuldade de captação vem em um caminho com uma bifurcação. Boas gestoras conseguem levantar recursos e outras não conseguem, o que cria uma distância maior entre as que tiveram bons resultado as que não tiveram.
O executivo conta que um movimento que está acontecendo nas gestoras de private equity é olhar para o portfólio para identificar as empresas em que elas já têm em carteira e que merecem mais injeção de recursos, para melhorar o resultado e vender melhor lá na frente. “Essa tendência de olhar para dentro começou em 2023 e está acontecendo.” E também de buscar as próprias vocações, como, por exemplo, acelerar o crescimento de uma empresa ou transformar quem não está indo bem. “Eu tenho que contar para o meu investidor que fiz isso bem no passado porque eu vou fazer de novo no futuro, senão eu não tenho dinheiro novo.”
A Bain calcula que há US$ 3 de demanda para cada US$ 1 de capital atualmente disponível, em mais de 18 mil fundos em esforço de captação, num total de US$ 3,3 trilhões. Por outro lado, conforme a consultoria, há hoje no mercado US$ 1,2 trilhão disponíveis para investir, conhecido no mercado como “dry powder”, sendo que quase 25% estão à espera há quatro anos ou mais, o que coloca pressão cada vez maior sobre os gestores para realizarem negócios. “O estoque está alto e, conforme o tempo passa, piora.”
Completa o cenário desafiador a escassez das operações de abertura de capital nas bolsas, principal canal de saída de investimentos, o que trava um pedaço da engrenagem, enquanto o mercado secundário para venda de participações representa menos de 5% dos ativos sob gestão, globalmente, conforme dados da Bain. Com as empresas há muito tempo em seus portfólios, os gestores têm limitada a capacidade de devolver capital aos investidores e, consequentemente, menor chance de captar novos recursos. “Há a necessidade de vender empresas que foram compradas nos últimos sete, oito anos, para que esse dinheiro retorne ao investidor.”
Fonte: Valor Econômico


