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Wall Street viveu um dia de tensão no pregão de ontem. O susto gerado por dados de emprego bem mais fracos que o esperado nos Estados Unidos motivou uma fuga de ativos de risco e uma correção de excessos bastante relevante. Não só ativos mais arriscados, como as bolsas de Nova York, foram penalizados, mas também o bitcoin, o ouro e a prata, que seguiram em um movimento agressivo de correção, o que ajudou a fortalecer a demanda pelo dólar.
O salto do índice de volatilidade VIX, considerado o “termômetro do medo” de Wall Street ajuda a dar dimensão do movimento: o indicador subiu 16,79%, para 21,77 pontos, mas, na máxima do dia, chegou a disparar 23%.
Antes mesmo da abertura dos negócios à vista em Nova York, o mercado já apontava para uma continuidade da liquidação recente em ativos que se beneficiaram do chamado “debasement trade” anti-dólar, como o bitcoin e os metais preciosos. Esse movimento se intensificou ao longo do dia e levou a criptomoeda a ficar abaixo de US$ 70 mil pela primeira vez em dois anos. Entre os metais preciosos, o contrato futuro do ouro com entrega para abril fechou em queda de 1,24%, cotado a US$ 4.889,5 por onça-troy, e a prata com vencimento em fevereiro caiu 9,07%, a US$ 76,52.
Assim como no fim da semana passada, a piora no sentimento nas commodities e no bitcoin se espalhou para outros ativos de risco, como as bolsas de Nova York, e, em especial, para as ações de tecnologia em meio às investidas da Alphabet para um aumento do investimento em inteligência artificial (IA). Com os mercados acionários já frágeis, dados de emprego nos EUA mais fracos que o esperado pesaram adicionalmente e deixaram os índices no vermelho.
O índice Dow Jones teve queda de 1,20%, aos 48.908,17 pontos; o S&P 500 recuou 1,23%, aos 6.798,11 pontos; e o índice Nasdaq caiu 1,59%, aos 22.540,59 pontos.
De acordo com o indicador de “ativos cruzados” do J.P. Morgan, o posicionamento geral em ações permanece elevado, apesar de um amplo desmonte em posições concentradas mais recentemente. Isso tornou as ações americanas mais vulneráveis a movimentos de desvalorização no curto prazo.
E, desta vez, o cenário macroeconômico contribuiu de forma bastante expressiva. Já nas primeiras horas do dia, o relatório mensal da Challenger, Gray & Christmas mostrou que as empresas dos EUA anunciaram o maior número de cortes de empregos em um mês de janeiro desde 2009. Na mesma linha, o número de vagas de trabalho em aberto na economia americana ficou em 6,5 milhões em dezembro, representando uma queda de 386 mil em relação a novembro, cuja leitura foi revisada para baixo, de acordo com o relatório Jolts, do Departamento do Trabalho americano.
Também divulgado ontem, o número de pedidos de seguro-desemprego somou 231 mil na semana passada, bem acima da estimativa mediana de 212 mil, em um possível sinal de fragilidade do mercado de trabalho dos EUA.
Os dados recentes de emprego parecem minar a visão otimista do presidente do Fed, Jerome Powell”
Para o Citi, os dados de emprego indicam a continuidade de um ambiente de “poucas contratações e poucas demissões” destacado por dirigentes do Federal Reserve (Fed, banco central americano) e participantes do mercado nos últimos meses. “Isso, no entanto, não significa que esse arranjo no mercado de trabalho deixe de representar riscos negativos para o emprego”, avalia o economista-chefe para EUA do banco, Andrew Hollenhorst.
E foi mirando os riscos ao emprego que o mercado viu uma queda firme dos juros americanos de mercado. No fim da sessão, os rendimentos dos Treasuries de dois anos caíam para de 3,576% para 3,471% e a taxa da T-note de dez anos cedia de 4,269% para 4,186%. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de outras seis moedas fortes, subia 0,30%, aos 97,91 pontos, no fim da tarde, ao se beneficiar do “risk-off” nos mercados.
“Os dados recentes do mercado de trabalho parecem minar a visão otimista do presidente do Fed, Jerome Powell, apresentada na última reunião do Fomc [Comitê Federal de Mercado Aberto, o comitê de política monetária do Fed]”, afirmam os estrategistas Anshul Pradhan e Demi Hu, do Barclays, em relatório. Eles avaliam que a estabilidade no mercado de trabalho mencionada recentemente por Powell permanece “frágil” e acreditam que os participantes do mercado podem começar a precificar mais cortes de juros nos EUA ainda neste ano.
Para a reunião de março do Fed, os futuros dos fed funds passaram a indicar 24,3% de probabilidade de uma redução de 0,25 ponto percentual nos juros. Na quarta-feira, a chance era bem menor, de 9,4%. Já em relação a junho, quando Powell não deve mais ser o presidente do Fed, houve um salto ainda mais expressivo e a chance de haver ao menos uma redução na taxa passou de 57,5% para 81,3%, de acordo com dados do CME Group.
Nas bolsas, o sentimento de aversão a risco se somou ao movimento de venda de ações ligadas ao desenvolvimento de inteligência artificial, especialmente as empresas de software – algo que já acontecia nos últimos dias.
As ações de tecnologia estiveram nos centro das perdas desta semana, na qual o índice Nasdaq caminha para ter seu pior desempenho em dez meses, com participantes do mercado reagindo a balanços de empresas importantes do setor, em um momento que os analistas estão mais exigentes quanto à rentabilidade dos investimentos elevados em inteligência artificial.
Estrategistas do Goldman Sachs observam que os investidores também começaram a se atentar para os riscos de disrupção na IA, à medida que o modelo de negócios das empresas pode se tornar obsoleto ou pouco lucrativo do que o esperado, e destacam um movimento de rotação para outras oportunidades na bolsa.
“Após anos de foco na identificação de ações com maior potencial de exposição à IA, as preocupações com a disrupção levaram os investidores de volta a setores da chamada economia real”, afirmam, destacando ainda que as empresas de software acumularam uma queda de 15% ao longo da última semana e de 29% em relação às máximas históricas atingidas em setembro.
Fonte: Valor Econômico

