A correção nos prêmios de risco, que começou em fevereiro e foi mais forte em março, é fruto das incertezas e falta de confiança do investidor diante de casos de empresas com dificuldades e recuperação judicial e extrajudicial, agravada pela guerra no Oriente Médio, segundo Alexandre Muller, sócio da JGP Asset Management, e Jean-Pierre Cote Gil, da Vinland Capital. No entanto, como antes o financiamento às empresas era muito concentrado em bancos públicos, não se via ajustes tão rápidos no mercado. Mas, agora, como é o mercado de capitais que financia as empresas, “não tem mais tolerância com desvio de rota”, disse Muller.
“O spread [diferença entre a taxa paga pelo emissor e seu índice de referência] aumentou muito porque a incerteza cresceu devido a esses eventos, que minam a confiança e prejudicam o mercado de capitais”, avaliou o sócio da JGP em evento promovido pelo Bradesco BBI. Segundo Muller, a percepção é que estamos dando “passos para trás”, com a campanha do Trump, por exemplo, a insegurança em relação ao funcionamento do sistema jurídico e grandes fraudes no setor bancário. “Mas, no padrão histórico, a confiança se restaura e os prêmios se normalizam.”
Para Cote Gil, a atual Lei de Falências é um convite para o acionista e “as empresas estão perdendo a vergonha” de usar a recuperação extrajudicial. “O país precisava ter um regime de falências mais pró-credor. Nosso investidor médio é pouco aberto a risco”, avaliou. Ele criticou o fato de que o passivo hoje da indústria de crédito privado é de curtíssimo prazo, com muitos fundos em prazo de resgate D+0 e D+1, o que obriga os gestores a manterem nível alto de caixa para honrar resgates. “O prazo médio da indústria deve ser D+5. Temos tentado montar produtos com carências mais longas mas não imagino que isso vai ser relevante no setor em geral.”
De acordo com o sócio da Vinland, a expectativa era de um primeiro semestre tranquilo e de mais volatilidade no segundo, mas agora a previsão se inverteu. Ele vê o aumento dos spreads como um ajuste técnico, seguido de uma reação exagerada, “que se retroalimentou e a guerra do Irã agravou.” Cote Gil disse acreditar que esse ajuste ainda não está perto do fim, mas ressalta que já se verifica correção relevante principalmente em debêntures de infraestrutura, que chegaram a testar níveis muito abaixo da NTN-B, e recomenda cautela. “O mercado foi ficando negligente e aceitando. Precisamos entender esse movimento antes de aumentar as alocações.”
A gente já encontra mais oportunidades, inclusive no ‘high grade’, mas vamos precisar estudar com cuidado”
Os spreads das debêntures incentivadas, que chegaram a 0,8 ponto centesimal abaixo da NTN-B em setembro, subiram 0,34 ponto em março. Em março, a mediana foi de 0,53 ponto abaixo da NTN-B para 0,19. Já as debêntures corporativas, que não têm incentivo, encerraram março a 1,18 ponto percentual acima do CDI (mediana). Victor Tofolo, que lidera a área de gestão de crédito da Bradesco Asset, afirmou no mesmo painel que a correção está acontecendo tanto em incentivadas quanto em debêntures corporativas. “A gente já começa a encontrar mais oportunidades, inclusive no high grade, mas vamos precisar estudar com cuidado esses nomes.”
O executivo comentou que o ajuste em infraestrutura está levando a relação entre risco e retorno a níveis mais adequados e, principalmente, a uma maior dispersão. Antes, explica, os spreads estavam em nível muito semelhante, o que dificultava a geração de valor por parte do gestor.
Já Cote Gil afirmou que seu nível de caixa estava alto, entre 25% e 30% para aproveitar oportunidades. “Mas é um desafio. Ao mesmo tempo em que a oportunidade aparece, vem o resgate porque a mudança no preço piora o desempenho dos fundos e é preciso usar parte para pagar algum resgate.”
Muller, da JGP, adiantou que o Idex, índice criado pela gestora para acompanhar as taxas do crédito privado e que é uma das principais referências do mercado, adiantou que em breve sairá o relatório que já contabiliza a recente alta dos spreads. Segundo ele, o índice voltou ao primeiro quartil, o que indica recuperação dos retornos dos fundos, inclusive superando o CDI.
Fonte: Valor Econômico