Empresas de papel cartão no Brasil estão reduzindo a produção e paralisando projetos de expansão em resposta ao excesso de oferta no mercado interno e às incertezas no comércio exterior. A indústria nacional diz enfrentar pressão crescente devido ao avanço das importações – principalmente da China e da Europa -, e teme que a situação piore com as tarifas impostas pelo presidente americano, Donald Trump.
Esse tipo de papel é muito usado na confecção de embalagens para diferentes produtos, como medicamentos e alimentos, e para fins gráficos, entre outras aplicações.
De janeiro a maio, a Papirus, uma das quatro maiores produtoras de papel cartão do país, deixou de produzir o equivalente a 36 dias. Amando Varella, coCEO e diretor comercial e de marketing da empresa, afirma que a medida reduziu a rentabilidade, levando à suspensão da compra de uma nova máquina, que ampliaria a produção de 100 mil para 250 mil toneladas.
“A entrada de importados baratos reduz a rentabilidade. No nosso caso, a queda de preço reduziu o Ebitda em 32% de janeiro a maio”, disse Varella. O Ebitda mede o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Segundo a Papirus, as 150 mil toneladas que seriam incorporadas à capacidade total equivalem justamente ao volume de importação de papel cartão previsto para 2025.
De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as importações de três tipos de papel cartão (NCMs) totalizaram 98 mil toneladas no primeiro semestre. Segundo a pasta, entre 2020 e maio de 2025, a participação do produto importado no mercado brasileiro foi de 780 mil toneladas, o equivalente a 1 ano de vendas domésticas da indústria nacional.
A entrada de papéis estrangeiros no país não é recente, mas se intensificou nos últimos anos, especialmente após a pandemia. Enquanto a China aumentou consideravelmente sua capacidade de produção, e hoje tem excesso de oferta, a Europa vem sofrendo com a queda na demanda desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. “Com o restabelecimento da logística mundial pós-pandemia, os fluxos de papel voltaram a fluir, e tanto Europa quanto China começaram a enviar produtos para a América do Sul, especialmente para o Brasil”, diz Varella.
Paralelamente, em junho de 2023, entrou em operação a máquina de papel 28 (MP28) da Klabin, em Ortigueira (PR). Com capacidade de produzir 460 mil toneladas anuais de diferentes tipos de papéis – incluindo cartão branco e marrom e ‘kraftliner’-, a unidade também aumentou a oferta do produto no mercado interno.
Diante desse cenário, os principais produtores de papel cartão do país se reuniram com a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) para solicitar ao governo federal a elevação da tarifa de importação de 12,4% para 25% em três tipos de mercadoria. O governo, por sua vez, elevou a tarifa para 16,5% em apenas duas categorias. A medida tem validade até outubro deste ano.
“Vimos que ocorreu um desvio de NCM, pois as descrições são vagas. Além disso, o preço de importação em 2024 foi ainda menor que em 2023”, disse Varella. Durante a teleconferência de resultados do segundo trimestre, Cristiano Teixeira, diretor-geral da Klabin, afirmou que há “invasão” de produtos chineses no mercado, mas que a maioria é do tipo “folding” (cartão para caixas dobráveis) e de qualidade inferior. De acordo com Teixeira, 80% do papel cartão da Klabin é direcionado para produtos de alto valor agregado, como o cartão para embalagem de líquidos, e apenas 20% é “folding”.
O executivo disse que o mercado de cartão “tem sofrido com volume”, mas que a Klabin está “compensando” essa queda com o aumento da produção de “kraftliner”, aproveitando-se da flexibilidade da MP28. De acordo com informações públicas, a máquina deve produzir 402 mil toneladas este ano. O percentual entre cartão e “kraftliner” não é divulgado. Somado a isso, teve início o tarifaço do presidente americano, Donald Trump, que impôs restrições e forçou rearranjos no comércio internacional. A medida acendeu o alerta na Ibema, outra importante produtora de papel cartão no país.
Em 2024, a empresa abriu escritório em Miami para expandir o mercado consumidor de seus produtos para EUA, Canadá, México, América Central e Caribe. “Temos que aguardar um pouco e ver para onde as coisas vão. A tarifa pressionou muito a operação e prejudicou nossa competitividade”, disse William Bauer, diretor financeiro da Ibema.
Tendo em vista a proximidade do fim do prazo da alíquota vigente e o cenário internacional “convulsionado”, a Ibá apresentou uma nova proposta ao governo federal. Desta vez, a entidade pede o aumento da tarifa para 35% e a inclusão da terceira NCM. “Estamos pedindo para aumentar significativamente [a tarifa], mas a ordem de grandeza é o governo que define”, afirma o embaixador José Carlos da Fonseca, presidente-executivo da Empapel e diretor de relações internacionais da Ibá.
De acordo com Fonseca, empresas de médio porte já consideram interromper parte da produção e implementar férias coletivas em resposta a esse cenário. Por ora, reuniões estão sendo conduzidas para discutir os impactos no setor e não há perspectiva de decisão por parte do poder executivo federal, afirmou.
Fonte: Valor Econômico