Por Pinelopi Koujianou Goldberg
25/07/2022 05h01 Atualizado há 4 horas
Com a inflação nos Estados Unidos atingindo novos patamares, os economistas estão debatendo até onde o Federal Reserve (Fed) terá de aumentar as taxas de juros para conter a demanda e segurar o aumento dos preços. Alguns comentaristas acreditam que o Fed terá que ser tão agressivo quanto o seu presidente no começo dos anos 80, Paul Volcker, que acabou elevando as taxas de juros para até 20%.
Compreensivelmente esses números despertam temores de que o esforço para conter a inflação venha resultar em uma recessão e um grande aumento do desemprego. Como observa um recente resumo de política do Peterson Institute for Internacional Economics, as reduções nas vagas de empregos projetadas por meio de políticas contracionistas, empiricamente andam de mãos dadas com o aumento do desemprego.
Pior ainda, embora os aumentos das taxas de juros provavelmente elevem o desemprego com o tempo, elas serão insuficientes para conter a inflação no curto prazo. Os aumentos recentes dos preços podem ter sido desencadeados pela demanda extraordinariamente alta que se seguiu à pandemia, mas fatores do lado da oferta – especialmente a escassez de mão de obra e a crise energética causada pela invasão da Ucrânia pela Rússia – também desempenharam papel significativo. A inflação não poderá ser contida se esses dois fatores também não forem abordados.
O governo de Joe Biden e os democratas do Congresso estão certos ao se preocuparem com as eleições de meio de mandato deste ano – o que torna ainda mais surpreendente que eles não tenham adotado estratégias de combate da inflação no lado da oferta
A situação exige três iniciativas complementares. Primeiro, o conflito na Ucrânia precisa ser reduzido. Embora a guerra não tenha “causado” inflação, ela certamente contribuiu para o aumento dos preços – especialmente nos setores de alimentos e energia – ao exacerbar a escassez que antes se esperava que diminuiria à medida que as restrições da covid-19 fossem levantadas.
Enquanto a guerra continuar, os preços da energia e dos alimentos permanecerão altos e a incerteza continuará abalando os mercados. Os fluxos comerciais podem ser reorientados para eliminar gradualmente as importações de energia de países “hostis” (para usar o jargão corrente); mas esses realinhamentos não podem acontecer com rapidez suficiente para amenizar a atual escassez de alimentos e energia. A diplomacia ainda poderá amenizar o conflito (uma vez que todos os lados têm grandes incentivos para fazê-lo), mas o tempo está se esgotando. A cada semana que passa, torna-se mais difícil chegar a um acordo para salvar as aparências.
Em segundo lugar, a América precisa superar a covid-19 para lidar com a escassez de mão de obra em setores específicos. As vacinas estão amplamente disponíveis e demonstraram prevenir doenças graves na maioria dos casos. Já passou da hora de abandonar regras exigindo que os trabalhadores tirem vários dias de folga se testarem positivo, mesmo quando estão assintomáticos. Essas políticas resultaram em gargalos severos em setores importantes, com a indústria aérea sendo um exemplo de destaque.
Em terceiro lugar, os EUA precisam urgentemente de políticas para elevar sua taxa de participação da força de trabalho de volta ao nível pré-covid. Muitos comentaristas vêm traçando paralelos entre o cenário econômico atual e o cenário estagflacionário da década de 70. Mas uma característica que é única do nosso tempo é a “Grande Demissão”. A pandemia deixou os americanos cansados, desmoralizados e indispostos a aceitar empregos que não atendam a um padrão mais alto de satisfação no trabalho.
As pessoas estão cada vez mais exigindo “bons empregos” com salários decentes, benefícios e segurança (o que muitas vezes significa que elas estão protegidas da concorrência estrangeira desenfreada). Mas esses não são os tipos de empregos que muitas empresas oferecem. Muitos empregos essenciais não são particularmente lucrativos nem satisfatórios – seja carregar e descarregar caminhões ou navios de contêineres, lavar pratos e limpar mesas de restaurantes, ou trabalhar nos setores da construção ou indústria pesada. Além disso, mesmo empregos nos setores financeiro e de tecnologia em Nova York e San Francisco, podem ficar aquém das expectativas dos trabalhadores se exigirem longos deslocamentos diários.
Em um mercado de trabalho apertado, não surpreende que mais americanos estejam dizendo “não” aos trabalhos que eles percebem como desagradáveis. Mas alguém tem que fazer isso e para cada americano que melhora de emprego ou abandona a força de trabalho, há vários imigrantes que ficariam felizes em fazer os trabalhos rejeitados. Esses imigrantes, por definição, não tiram empregos dos americanos; em vez disso, eles proporcionam um benefício líquido à economia. E o mesmo vale para o comércio internacional, que pode aliviar gargalos de produção e problemas na cadeia de suprimentos – efetivamente “importando” mão de obra sem imigração.
Infelizmente, o governo do presidente Joe Biden manteve grande parte da retórica protecionista usada por seu antecessor. Ao prometer aos trabalhadores americanos empregos seguros e bem pagos, o governo pouco fez para aumentar a imigração ou permitir uma maior competição estrangeira, contribuindo assim para a atual escassez de mão de obra. Fomos lembrados mais uma vez que o protecionismo acaba prejudicando as pessoas que deveria ajudar – especialmente durante períodos de escassez no lado da oferta.
Essa lógica econômica indiferente pode parece inconsistente com os ideais progressistas e o compromisso do governo Biden de empoderar os trabalhadores americanos. Mas precisamos nos lembrar do que está em jogo aqui. A inflação alta mina toda a agenda progressista. Ela piora toda a situação do trabalhador médio e quando ela aparece nos preços dos alimentos e da gasolina, é um retrocesso profundo. Como as famílias mais pobres precisam gastar uma parcela maior de suas rendas limitadas com as necessidades básicas, elas ficam ainda mais distantes dos abastados.
Em uma era de juros em rápido aumento, os custos mais altos dos serviços das dívidas inevitavelmente levarão a cortes nos gastos fiscais, incluindo os tão necessários investimentos em infraestrutura. Políticas para enfrentar as mudanças climáticas e estimular o crescimento “verde” já estão sendo abandonadas à medida que as autoridades se concentram em aliviar os problemas de curto prazo da população (por meio de gestos performáticos como o feriado fiscal da gasolina). O governo Biden e os democratas do Congresso estão certos ao se preocuparem com as eleições de meio de mandato deste ano – o que torna ainda mais surpreendente que eles não tenham adotado estratégias de combate da inflação no lado da oferta. (Tradução de Mário Zamarian).
Pinelopi Koujianou Goldberg, ex-economista-chefe do World Bank Group e editora-chefe da “American Economic Review”, é professora de economia na Universidade Yale.
Fonte: Valor Econômico