Com o início da paralisação da máquina pública (“shutdown”) nos Estados Unidos, a maior incerteza para os mercados — e também para o Federal Reserve (Fed) — está na interrupção da divulgação de indicadores econômicos.
Os dados do Bureau of Labor Statistics (BLS) eram especialmente aguardados, já que o relatório semanal de pedidos de seguro-desemprego, divulgado todas as quintas-feiras, tem movimentado os ativos financeiros. E, nesta sexta-feira, 3 de outubro, seria conhecido o relatório oficial de empregos (“payroll”) de setembro, visto como um teste essencial da tese de desaceleração do mercado de trabalho.
Sem o “payroll” para balizar os investidores já nesta semana, tanto os agentes financeiros quanto o próprio Fed devem recorrer a indicadores “alternativos” — o que tende a ampliar a incerteza, dado que muitos deles refletem apenas o sentimento dos agentes econômicos. Não faz muito tempo, a desconexão entre “hard data” (dados efetivos) e “soft data” (expectativas e surveys) estava em níveis bastante elevados.
“Estamos às cegas em relação aos dados econômicos”, diz Jim Reid, estrategista do Deutsche Bank. “Se ficarmos paralisados por muito tempo, o relatório de inflação de 15 de outubro também poderá ser afetado. E isso não está fora de questão, já que o último ‘shutdown’, em 2018-19, durou um recorde de 35 dias”, alerta.
Sem alternativas, mercados e Fed devem acompanhar outros termômetros de atividade e preços a serem divulgados nesta semana. Ganham importância, assim, os números de criação de empregos no setor privado da ADP — cuja distância para o “payroll” tem diminuído após as fortes revisões do relatório oficial — e a abertura de dados de emprego e inflação nos índices de atividade industrial e de serviços do ISM.
Ainda assim, nenhum desses indicadores carrega o mesmo peso histórico do “payroll” ou do CPI [índice de preços ao consumidor], reforçando a percepção de que os mercados — e, em última instância, a condução da política monetária americana — estarão navegando com visibilidade reduzida enquanto o “shutdown” durar.
Fonte: Valor Econômico