Por Rhiannon Hoyle e Julie Steinberg — Dow Jones Newswires, de Adelaide e Londres
26/02/2024 05h02 Atualizado há 5 horas
Quando a empresa de lítio mais valiosa do mundo anunciou no ano passado planos para construir uma fábrica de US$ 1,3 bilhão na Carolina do Sul, as autoridades locais consideraram a iniciativa transformadora para o Estado.
O projeto da Albemarle, sediada em Charlotte, no Estado do sul dos EUA, foi elaborado para processar diferentes fontes de lítio, inclusive baterias recicladas, e servir de fornecedora desse mineral para a indústria de veículos elétricos.
Menos de um ano depois, esses planos foram prejudicados por uma queda nos preços dos metais para baterias, enfraquecidos por uma desaceleração no crescimento das vendas de veículos elétricos nos EUA e na China. A Albemarle adiou gastos com o projeto, em meio ao corte de custos geral na companhia que inclui demissões.
Os produtores de lítio e níquel, usados nas baterias de íons de lítio para veículos elétricos, vêm paralisando projetos e fechando minas para economizar dinheiro após queda nos preços das commodities. O preço do lítio caiu até 90% desde o começo de 2023, enquanto o do níquel caiu à metade.
A trader e mineradora suíça Glencore disse na semana passada que a produção será suspensa em uma mina de níquel e unidade de processamento na Nova Caledônia, um grupo de ilhas francesas no Pacífico responsável por mais de 6% do fornecimento mundial. Ela vai procurar um comprador para sua participação na operação, o que a companhia atribuiu aos altos custos e ao mercado fraco.
Dias depois, o BHP Group, maior mineradora do mundo, disse que poderá ter de fechar sua operação australiana de níquel por um período não especificado, alertando que não prevê uma recuperação rápida do mercado. A BHP tem acordos de fornecimento com a Tesla e a Ford.
O mundo se vê subitamente inundado por metais depois que os produtores lançaram novos projetos para alimentar a indústria global de veículos elétricos, num momento em que as vendas desses veículos perdem força.
“A situação global do níquel é terrível e é uma ameaça à segurança nacional” — Zumwalt-Forbes
Várias montadoras, incluindo a Ford, a General Motors e a Volvo, estão adiando investimentos e adotando um tom mais cauteloso em relação às perspectivas da demanda do consumidor por carros elétricos. Os negócios da fabricante britânica de veículos elétricos Arrival entraram com um pedido de recuperação judicial este mês, alegando condições macroeconômicas e de mercado que atrasaram a chegada de seus produtos.
Analistas veem a escala do problema como moderada até agora, uma possível indicação de que algumas mineradoras continuam otimistas no longo prazo.
A adoção dos veículos elétricos está acontecendo, mas não tão rápido quanto o previsto. A desaceleração da mineração poderá levar à escassez de metais se a demanda aquecer rapidamente, deixando mais uma vez as montadoras lutando por suprimentos.
A maioria dos fornecedores de lítio vem preferindo suspender novos projetos em vez de fechar operações existentes. Eles estão se apoiando nos grandes volumes de dinheiro que ganharam nos últimos anos, quando os preços da commodity estavam em alta.
Autoridades ocidentais temem que a situação atrapalhe os esforços para diversificar as cadeias de abastecimento de minerais críticos para longe da China, que refina mais da metade do lítio mundial e liderou o boom do níquel na Indonésia com grandes investimentos.
Também temem que os mercados globais fiquem cheios de metais de baixos custos, mas altamente poluidoras, se os produtores que obedecem a padrões mais rígidos forem excluídos do mercado.
“A situação global do níquel é terrível e é, na minha opinião, uma ameaça extrema à segurança nacional e internacional, assim como ao meio ambiente”, disse Ashley Zumwalt-Forbes, vice-diretora de baterias e materiais críticos do Departamento de Energia dos EUA.
Até recentemente, a gigante americana do lítio Albemarle estava com planos agressivos de expansão. Agora, o preço de sua ação está 57% menor em relação há um ano.A Albemarle não disse por quanto tempo poderá segurar os investimentos na unidade da Carolina do Sul, que deveria começar a ser construída este ano e produzir lítio suficiente para 2,4 milhões de veículos elétricos por ano.
Alguns produtores de lítio estão tentando tirar vantagem do tumulto. A Sigma Lithium, que tem operações no Brasil, está abocanhando participação de mercado em razão de seus custos mais baixos de processamento, diz a presidente Ana Cabral. “Estamos investindo. Se o mercado cair mais, continuaremos produzindo. Vamos ganhar menos dinheiro, mas ganharemos dinheiro”, afirma ela.
Algumas mineradoras de níquel não têm essa opção. Desativar qualquer mina é uma escolha difícil, afirmam executivos do setor, uma vez que as companhias têm custos contínuos de manutenção que podem chegar a milhões de dólares por mês quando elas não estão produzindo nada.
Fonte: Valor Econômico


