Por Sérgio Tauhata — De São Paulo
27/02/2024 05h03 Atualizado há 5 horasPresentear matéria
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As bolsas brasileira e americana têm potencial de sustentar as altas mesmo que pareçam já ter avançado significativamente nos últimos meses, afirma Todd Jablonski, executivo-chefe global de investimentos (CIO) da Principal Asset Management, gestora americana com mais de US$ 500 bilhões em ativos sob o guarda-chuva. “Na verdade, estamos testemunhando uma nova força secular de longo prazo que vai mover estas empresas de multitrilhões de dólares, acredito que esses gigantes só vão crescer”, diz em entrevista ao Valor.
Segundo o especialista, “este é o momento certo para se posicionar em cada uma dessas ‘Sete Magníficas’ ”, afirma, se referindo a Apple, Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla. No longo prazo, Jablonski acredita que vai ficar cada vez mais difícil para empresas de menor porte na área de tecnologia competir com as gigantes.
O CIO da Principal afirma ainda estar “muito otimista” com as ações no Brasil. “Estamos ‘overweight’ [alocação acima da média] nos papéis do país”, diz. “Em 2023, obtivemos um retorno superior a 30% no Brasil. Certamente, temos visto uma valorização significativa, mas acredito que [o avanço] pode continuar [ao longo deste ano].” A seguir leia os principais trechos.
Valor: Quais os principais riscos atuais para os mercados?
Todd Jablonski: Penso que estamos numa fase muito interessante nos mercados. O crescimento está saindo do ponto de ebulição, certo? Há um ano, todos pensavam que estaríamos em recessão. Esperávamos uma recessão global. Evitamos a recessão. Mas, neste momento, estamos numa fase de desaceleração econômica e no ritmo mais lento que poderíamos desejar. Ao mesmo tempo, estamos num ponto de convergência dos bancos centrais [no rumo de um afrouxamento monetário]. Isso está acontecendo no Brasil, está acontecendo no México. Está acontecendo nos Estados Unidos: os bancos centrais estavam apertando e, agora, estamos no limiar da flexibilização [monetária]. Acredito que a economia global alcançará um pouso suave. Nós podemos chamar esse cenário de vitória das políticas monetária e fiscal. Conseguimos evitar a recessão, ao mesmo tempo que trouxemos a inflação global quase de volta a meta. Portanto, acho que é um bom momento para investir. Encontramos oportunidades em ações nos EUA, em particular. E estamos ‘overweight’ [acima da média] na América Latina. No entanto, estamos ‘underweight’ [abaixo da média] na China, Europa e Reino Unido.
Valor: Qual o cenário base para a política monetária do Federal Reserve (Fed, o BC americano)?
Jablonski: Acho que o início dos cortes [de juros] será em junho. E penso que teremos três cortes nas taxas este ano de 0,25 ponto percentual cada. Se tivessem me perguntado há dois meses, eu teria dito quatro cortes nas taxas. Mas agora estamos reduzidos a três. O presidente [do Fed, Jerome] Powell na reunião mais recente foi muito claro na sua linguagem: precisamos ver as pressões inflacionárias recuarem. Acho que ele vai manter o nível dos juros até que o Fed esteja muito confiante de que é hora de cortar. Nossa expectativa é que o Fed seja uma ajuda aos investidores este ano, porque, finalmente, vemos o vento favorável da flexibilização [monetária]. Isso é bom para ações.
Valor: Quando foi a última vez que a política monetária teve tanto sucesso?
Jablonski: Acho que teríamos de voltar várias décadas, provavelmente, aos anos 60 e 70, para ser capaz de encontrar outros pousos suaves. Mas o indicador de probabilidade de recessão do Fed, da regional do BC de Nova York, nunca esteve tão alto na história, sem que houvesse uma recessão. Então digo aos investidores: eles poderão contar aos netos sobre o momento em que todos pensavam que o mundo entraria em recessão, mas que as políticas conseguiram salvar. Mas [a situação] é também [fruto da] reabertura das cadeias de abastecimento, que ajudou a reduzir a inflação rapidamente.
Valor: As bolsas americanas estão caras ou ainda há espaço para mais apreciação?
Jablonski: Há espaço para o avanço, mas a maior parte desse ganho vem da tecnologia. Não creio que haja uma bolha nas ações de tecnologia. Agora é um momento caro, particularmente dentro da ótica de capitalização, para comprar ações nos EUA. No entanto, ainda estou ‘overweight’ no caso da tecnologia. Na verdade, penso que esta é uma força secular de longo prazo. Quando olhamos para a criação destas empresas de trilhões e multitrilhões de dólares, acredito que esses gigantes só vão continuar a crescer. E vai ficar cada vez mais difícil para médios e pequenos competir. A ascensão das ‘Sete Magníficas’ [Apple, Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla], que só estão disponíveis nos EUA, é um fenômeno de longo prazo. Portanto, embora as ações estejam caras no momento, vejo vantagens contínuas e crescimento à frente.
Valor: Mas há ainda espaço para mais ganhos no curto prazo?
Jablonski: Se olharmos todos os períodos de pousos suaves no passado, no período zero até seis meses, o S&P normalmente se sai muito bem, proporcionando um retorno superior a 10% em seis meses. Além disso, normalmente há um crescimento de 8% nos lucros nos anos após um pouso suave. Neste momento, globalmente, no mercado de ações mundial há expectativa de crescimento de lucros de 10% [das companhias]. Mesmo se fizermos uma pequena revisão para baixo, esse crescimento é suficiente para apoiar a expansão do [múltiplo] P/E [preço sobre lucro]. Os investidores deveriam observar a tendência secular da tecnologia. Acho que focar no topo do mercado nos EUA é fundamental. Este é o momento certo para se posicionar em cada um dos Sete Magníficas. Gostaria que estivessem um pouco mais baratos – isso me deixaria mais animado com o ponto de entrada. Mas, ao mesmo tempo, eu prefiro esse grupo em vez de ‘mid-caps’ [empresas de capitalização média] e small caps [de menor capitalização].
Valor: E as bolsas fora dos EUA?
Jablonski: Estamos ‘underweight’ em ações fora dos EUA. Estamos abaixo da média no Reino Unido e na Europa. Estamos neutros no Japão e nos mercados emergentes. Mas tenho uma forte preferência pela América Latina entre os emergentes. Também estamos abaixo da média na China.
Valor: No Brasil ainda há espaço para valorização da bolsa?
Jablonski: Com certeza. Estamos muito otimistas com as ações brasileiras. Na verdade, estivemos com maior peso nas ações brasileiras durante todo o ano de 2023. Em termos de dólares americanos, foi um investimento fantástico, onde obtivemos um retorno superior a 30% no Brasil. Certamente, temos visto uma valorização significativa, mas acredito que pode continuar. Dadas as melhorias de fundamentos no Brasil, posso esperar uma apreciação potencialmente adicional [neste ano]. A continuidade do crescimento, juntamente com uma flexibilização das taxas no curto prazo, torna o Brasil atrativo novamente. O mercado local é também suficientemente líquido para lidar com os recursos que saem da China. Se estamos underweight na China, teremos de encontrar outro emergente que também seja muito grande e líquido. O Brasil tem essa característica e se beneficia das preocupações dos investidores com a China.
Valor: Qual a sua expectativa para a taxa terminal do Fed?
Jablonski: É difícil saber quais são as taxas neutras, mas meu palpite é algo próximo de 3%, ou entre 2,5% a 3% nominais. No Brasil, provavelmente está mais perto de 8% ou 9% nominais. Os EUA estarão em território restritivo este ano, mesmo que o Fed reduza as taxas três vezes. Esse cenário possibilita ao Fed uma oportunidade de estimular a criação de emprego e, ao mesmo tempo, manter a inflação sob controle.
Valor: O ciclo de cortes de juros nos EUA pode ir até quando?
Jablonski: Minha estimativa é que o Fed busca três cortes em 2024 e, em 2025, provavelmente continuará [a reduzir os juros] pelo menos no primeiro semestre. Não sei quanto ao segundo semestre [do ano que vem]. Teremos que ver onde vai estar a inflação e o emprego. Esse período de tempo é um pouco difícil de prever. Mais uma vez, penso que os investidores deveriam estar bastante satisfeitos com o desempenho dos mercados em 2023 e 2024. Existem grandes oportunidades para continuar a se posicionar em renda fixa na América Latina, em especial, no Brasil e no México. E, como mencionei, você tem o crescimento dos EUA aliado ao valor da América Latina. Acho um posicionamento vencedor no curto prazo.
Valor: A dívida pública dos EUA pode se tornar um risco?
Jablonski: Vimos a Moody’s e outras agências começarem a olhar para os EUA e a perguntarem-se: qual é a qualidade de crédito deste país com um nível de dívida tão elevado? Não registramos superávits desde a administração [do presidente democrata Bill] Clinton. Portanto, não sei se temos hoje vontade política nos Estados Unidos para enfrentar o déficit e a dívida que o acompanha. O déficit continuará a aumentar. Se tivermos uma presidência de [Joe] Biden [pré-candidato Democrata] ou de [Donald] Trump [pré-candidato Republicano], qualquer um dos dois continuaria a ter um déficit [crescente]. A dívida será uma característica do mercado dos EUA durante algum tempo, durante os próximos 5 a 10 anos. Para além de um período de 10 anos, isso pode se tornar um fator [de risco] e pode pesar sobre a economia [americana].
Valor: A necessidade de refinanciamento do setor empresarial nos EUA pode se tornar um risco?
Jablonski: Estamos neste momento ‘goldilocks’, onde não está nem muito quente, nem muito frio. Nos EUA, a taxa dos Fed funds passou de zero para 5%. Mas, ao mesmo tempo, o percentual dos lucros empresariais afetados pelas despesas com juros está no nível mais baixo dos últimos 50 anos. Portanto, este é um momento mágico em que as empresas americanas têm despesas com juros historicamente baixas, mas, ao mesmo tempo, ainda não precisam refinanciar. Achamos que o muro da necessidade de refinanciamento começa aparecer no final de 2024, mas mais forte ainda em 2025. Então isso nos dá 12 meses onde podemos esperar despesas com juros baixas e nenhuma razão para refinanciar [a taxas mais elevadas].
Fonte: Valor Econômico
